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Santa Luzia à Serra da Piedade: uma caminhada especial!

Um amanhecer com muita neblina na Serra da Piedade
Na antevéspera do feriado do Dia da Pátria, enquanto estava em um happy hour com meu amigo LeoSilva no Bairro Planalto em Belo Horizonte, recebi uma ligação telefônica. Ao atendê-la tratava-se do meu amigo Fonseca, que além de procurar por notícias, me convidava para uma caminhada. Mas não se tratava de uma caminhada qualquer. Era uma Caminhada de Fé, partindo da cidade de Santa Luzia com destino ao Santuário Estadual Nossa Senhora da Piedade, no município de Caeté, ambas localidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Não bastasse a distância, com cerca de 31 km aproximadamente, a caminhada iniciaria à meia noite, em local próximo e conhecido como Caixa D'Água, na histórica cidade de Santa Luzia, com previsão de chegada logo pela manhã na Serra da Piedade.

Rota realizada e disponibilizada no Wikiloc
Além de possibilitar estudar e visualizar a região, você poderá baixar este tracklog (necessário se cadastrar no Wikiloc); e inclusive utilizá-lo no seu GPS ou smartphone (necessário instalar aplicativo). Recomendamos que utilize esta rota como fonte complementar dos seus estudos. Procure sempre levar consigo croquis, mapas, bússola e outras anotações que possibilitem uma aventura mais segura.
Quanto melhor for o seu planejamento, melhor será o seu aproveitamento.
Pratique a atividade aplicando os Princípios de Mínimo Impacto

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Rota que contempla apenas o trecho da BR 381 à Serra da Piedade.
Contempla o atalho na subida para a Serra. Porém somente o faça em caso de urgência

Apaixonado que sou pela Serra da Piedade, pelo seu marco histórico e por ser católico, não pensei duas vezes e disse sim ao convite, mesmo sem saber detalhes da pernada. Ao realizá-la no dia seguinte, resultou em uma experiência maravilhosa, que além da companhia agradável do pessoal, foi um teste de resistência para caminhadas longas. Sem falar no ápice final, que é desfrutar dos encantos da Serra da Piedade, naquele dia repleta de visitantes de todos os perfis, especialmente daqueles mais simples, cuja fé os motiva a visitar aquele lugar! Sem dúvida, foi uma das mais significativas experiências de trekking que participei, justamente pela sua motivação diferenciada e pelo inusitado da hora...

Luzes para os lados de BH
Por volta de 22h30 tomei um coletivo de Belo Horizonte para Santa Luzia e desembarquei às 23h30 na parte alta daquela cidade, próximo ao Posto Te Contei, aonde o Francismar e o Marcelo me buscou. De lá, uma passada rápida pela casa do Francis e depois direto para a Caixa D'Água, onde o pessoal já estava à nossa espera. Éramos 13 pessoas, somente homens. Meia noite, céu nublado, temperatura agradável, e após alguns clicks e uma oração inicial colocamos os pés na estrada. Inicialmente por uma rua asfaltada, com várias residências e com iluminação pública. Logo começamos a subir, tomamos o sentido leste, em direção à Ravena, que é um antigo Distrito de Sabará. Não demorou e logo entramos na estradinha de terra e fomos subindo, subindo. Pudemos perceber que o trecho apesar dos postes, estava sem iluminação, denotando problemas na rede elétrica. 

Imprimimos um ritmo forte, mesmo na subida. Para trás ficou a cidade de Santa Luzia, de onde se destacava a bela e iluminada Igreja Matriz. Após atingirmos o ponto mais alto, iniciamos uma descida suave, alternando trechos planos, de onde agora era possível ver ao longe as luzes da cidade de Belo Horizonte, bem como ouvir os roncos dos motores dos carros na BR abaixo, para onde iríamos em pouco tempo. Não houve erros no trecho: nos mantivemos na estradinha de terra principal, que é bem conservada, ignoramos eventuais bifurcações, que são várias e que levam à sítios e residências rurais e por volta de 2h00 da madrugada chegamos ao Posto Ravena, na BR 381.

Fizemos uma parada para descanso e lanche, abastecemos de água e voltamos à caminhada por volta de 2h25. Agora era o trecho mais perigoso da aventura noturna: seguiríamos pelo acostamento da antiquada BR 381 até o trevo da cidade de Caeté. Logo após o Posto Ravena iniciamos uma descida de cerca de 2 km até o trevo do Distrito de Ravena. No trecho houve alguns chuviscos, mas graças a Deus não foram adiante. Para incomodar só mesmo o trânsito pesado da estreita e sinuosa rodovia. Usávamos as nossas lanternas para chamar a atenção dos motoristas. Chegados ao trevo, alguns dos caminhantes não conseguiram manter o ritmo. Fizemos breve parada e constatou-se que alguns ficariam por ali ou manteriam um ritmo mais lento, pois estavam sofrendo com bolhas nos pés e afins. A essa altura o grupo se dividiu em dois: eu e o Francismar permanecemos no segundo grupo.

Continuamos a caminhada pelo acostamento e depois do trevo de Ravena começamos a subir. Inicialmente de modo discreto, mas após a fábrica da Cotochés a inclinação aumentou. Foram cerca de 4km de subida, que exigiram grande esforço, pois seguíamos em ritmo acelerado. Quando atingimos a cota de 1076m a subida ficou para trás e assim nos mantivemos até o trevo de Caeté, 5 km adiante, aonde chegamos às 5h00. O grupo que estava na dianteira já nos aguardava e então fizemos uma boa parada para descanso e lanche. Eu devorei dois sanduíches preparados pela mãe do Francismar eheh.

Subindo sentido Caeté
Trevo da Serra
Passava das 5h20 quando retomamos a caminhada pelo asfalto, agora pela MG 435, que liga a BR 381 à cidade de Caeté, com pista simples e sem acostamento. Como o trecho é somente subida e devido ao ritmo acelerado que imprimimos até então, a pernada tornou-se mais lenta, porém não tínhamos o grande movimento de veículos pela estrada. O dia amanheceu nublado, fazia frio e não conseguíamos nem ver o topo da Serra da Piedade. Novamente o grupo se dividiu, com cada um seguindo no seu ritmo. Pela estrada passamos um grupo de caminhantes que descansava e às 6h20 da manhã chegamos ao trevo de acesso ao Santuário da Piedade, vencendo os 5 km que o separa da BR 381. Muita gente estava por lá e tivemos a notícia que o portão de acesso à Serra somente se abriria às 7h00 da manhã. Estávamos a 1315m de altitude e teríamos cerca de 400m de desnível até o topo da Serra, com mais 5 km de subida asfaltada. Foi o prazo para sentarmos quando o pessoal da portaria liberou o acesso antecipadamente. Era 6h30 da manhã!

Francis
Não perdemos tempo e retomamos a caminhada. Ficar parado não dava, pois fazia muito frio. Novamente cada um no seu ritmo, modos que os papaléguas da dianteira desapareceram no meio da multidão... Francismar logo ligou para o resgate avisando que já estávamos na parte final do trecho. Sim, teríamos um resgate de ônibus ao fim da caminhada, afinal, creio que ninguém toparia fazer o caminho de volta a pé!!! 

Constatei que a estrada de acesso à Serra está novinha em folha e bem sinalizada! Enquanto passávamos pela curva de acesso à única parte plana da estrada, na altura da Terceira Estação, vimos um grupo adentrando pela mata de galeria. Perguntamos se seria um atalho. Disseram que sim. Não titubeamos e fomos atrás, pois pensávamos que seria um atalho de alguns metros...

Atalho logo acima, à esquerda
Para nossa surpresa, adentramos em uma trilha bem inclinada, com rochas pequenas, porém aderentes, rodeado pelos arbustos da mata de galeria. Era um atalho bem maior que imaginávamos. Em um ponto de dúvida, pois a neblina estava densa, um novo grupo nos alcançou e uma moça indicou o sentido correto: bastaria acompanhar o cano d'água que sobe/desce a serra e nos deixaria a poucos metros da Ermida da Piedade...

Por aí fomos e a trilha tornou-se exigente. Eu adorei, pois imaginava que teria que subir pelo asfalto, que são cerca de 5 km, com muito vai e vem de curvas. A trilha foi um prêmio! Não demorou e o Francis recebeu uma ligação de um dos caminhantes do grupo dizendo que já havia chegado ao topo. Confesso que até me assustei... De volta à trilha, Francismar não gostou muito, pois preferia ir pelo asfalto... Mas aquela altura não tinha volta: a opção única era seguir trilha acima, que em alguns pontos tornava-se bastante íngreme. Estando nós bastante cansados fomos subindo lentamente...

Avante hombre, falta pouco eheheh
Foi quando emergimos na rodovia. Ufa, alívio para meu amigo Francismar, que dizia que os pés doíam muito... Caminhando lentamente, bastou uma curva para a direita e outra para a esquerda para adentrarmos à Praça onde está a imagem/escultura de Ceschiatti. Eram por volta de 8h00 da manhã. Foi quando comprovei o quanto o atalho nos ajudou, poupando-nos pelo menos uns 4 km de asfalto!

Rodeada pela neblina
O panorama da serra com seus 1746m de altitude era este: muitos visitantes, vento cortante, neblina e frio, muito frio... Enquanto fui à frente da Ermida, Francismar mergulhou lanchonete adentro, que fica um pouco abaixo na entrada da Praça Cardeal Motta. Voltei e adentrei também ao local, que estava quentinha e lotada de alegres caminhantes! Tomamos café e nesse tempo, alguns outros do grupo que estavam mais lentos foram chegando. Soubemos também que aqueles que haviam ficado lá em Ravena estavam chegando ao trevo da Serra naquele momento. E o resgate não demoraria chegar...

Após o café, fomos para a Ermida, fizemos as nossas orações. Alguns acenderam velas! Alguns tinham por objetivo agradecer o Título da Libertadores da América 2013 conquistado pelo Galão da Massa! Aproveitei para agradecer e pedir em nome da minha família, amigos e aventureiros! Logo o pessoal do resgate chegou! Devido ao frio e ao vento, eu preferi ficar abrigado na Capela, que estava repleta de fiéis.

Observatório da UFMG
Avisei ao Francis que iria participar da missa e não voltaria no resgate de ônibus, que já estava de partida de volta para Santa Luzia. Nos despedimos e eu fiquei por lá. Após a celebração, ao sair da Igreja a neblina havia se dissipado, o céu estava parcialmente nublado, o sol insistia em brilhar diminuindo o frio e foi possível contemplar mais uma vez a beleza da vista desde o alto da Serra: simplesmente Maravilhosa!

Por volta de 11h00 da manhã iniciei a descida da Serra, voltando pelo atalho descoberto. Não tem erro, é puramente visual e praticamente uma linha reta serra abaixo, margeando um cano de água. No trajeto encontrei com vários peregrinos alegres e animados! Graças à este belo atalho, em apenas 20 minutos cheguei ao trevo de acesso à Serra na MG 435.

NS da Piedade, de Ceschiatti,
que causou polêmica tempos atrás...
Muitos visitantes no feriado

Atleticanos - Foto: Karine Carvalho
Em um lance abençoado, imediatamente embarquei em um coletivo da linha Caeté - Belo Horizonte, aonde cheguei cerca de 1h depois. Ao desembarcar no centro de BH pude comprovar parte da efervescência que estava por lá naquele 7 de setembro. Fui direto pra casa, chegando na Pampulha pouco depois das 12h30. Estava com as pernas doendo um pouco, mas muito feliz pela experiência inédita: Foi um teste e tanto! Posteriormente soube que todo o grupo chegou em casa na paz e ainda comemoraram bastante lá por Santa Luzia!

Valeu Francis pelo convite, ano que vem a gente volta, foi você mesmo quem disse eheh... E obrigado a todos do grupo pela companhia...


Serviço

Trajeto no GE: quase 32 km madrugada adentro
As informações sobre a Serra da Piedade, como chegar, infraestrutura e otras informações poderão ser encontradas em um outro post desse Blog, intitulado Serra da Piedade em Caeté, MG: "magnífica arquitetura divina"


Bons ventos a todos!
Última atualização: Mar 2016

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