Travessia Talhado x Serrado

A Travessia Talhado x Serrado é uma rota pela borda Oeste do Parque Estadual de Serra Nova e Talhado, unidade de conservação localizada ao Norte de Minas Gerais. Criado em 2003, este jovem Parque Estadual mineiro abrange áreas nos municípios de Porteirinha, Serranópolis, Mato Verde, Rio Pardo de Minas e Riacho dos Machados; região distante mais de 600 km ao Norte de Belo Horizonte.

Cachoeira da Aliança: Talvez a mais bucólica do Parque.
Volume reduz consideravelmente no período da seca

Mesclando cerrado e campos rupestres, o Parque está dentro da área do Espinhaço Sul, uma cadeia de serras importante que corta o Centro-Norte de Minas Gerais no sentido Sul-Norte. O Espinhaço apresenta grande diversidade natural, com recantos de rara beleza; sendo palco de muitas rotas de travessias. Faixa alongada com grande extensão, esta é a região que concentra as maiores possibilidades de travessias do Brasil.

Foi nesse cenário que fomos pular nosso Carnaval em 2026! Os planos eram realizar a Travessia Talhado x Serrado em 3 dias; tendo um quarto dia para visitar a Cachoeira de Briz e retornar a BH em horário adequado. Porém, os planos foram modificados durante a realização da Travessia, uma vez que o Parque não estava permitindo percorrer alguns trechos específicos que pretendíamos...

Relato - Dia 1


Enquanto BH fervia com a proximidade do carnaval, deixamos a cidade por volta de 21h00 do dia 13 de fevereiro de 2026. Já estávamos com os corações abertos, pois aquela seria uma viagem longa. Até o início da caminhada seriam mais de 600 km; praticamente uma noite enjaulados no transporte fretado. Apesar da distância, estávamos animados; afinal quase todos de nós era uma primeira visita ao lugar. Além disso dispúnhamos de mais dias para a viagem, regados com a certeza de dias ensolarados frente a chuvarada que se instalou no centro sul de Minas no início de 2026.

Havia muitos anos eu não visitava essas áreas do Norte de Minas. Quando estive por lá pela última vez, nas terras aonde hoje há o parque, a visitação era livre. Basicamente se podia ir aonde e como desejasse. Embora ainda hoje a infraestrutura do Parque seja básica; naquela ocasião não haviam instalações específicas do Parque. O que existiam eram construções antigas, alguns currais e casebres. As trilhas eram antigas e como é comum no Espinhaço, se ramificavam até em bom estado por toda a parte alta da Serra Geral, nome local da Cadeia do Espinhaço.

Passava das 6h00 quando aproximamos da cidade de Serranópolis de Minas. Ainda na estrada, em meio ao céu parcialmente nublado, já era possível observar os majestosos topos da borda leste do Parque que percorreríamos nos dias seguintes. Adentramos na pequena cidade e fomos atrás de uma padaria para um café. Encontrado o pequeno estabelecimento, lá desembarcamos e fomos forrar o estômago.

Por lá já se encontravam também o Wilson e o Chumbo, condutores credenciados no Parque que nos acompanharia durante a Travessia. Papo inicial e já pude constatar que se tratavam de pessoas gentis, acessíveis e responsáveis, como é típico dos Mineiros do Norte. Contar com condutor credenciado para realização de travessias na Unidade é uma regra atual daquele Parque Estadual. Embora sejamos favoráveis que isto seja opcional, contar com acompanhamento de quem vive o lugar diariamente enriquece muito a experiência!

Após o café na pequena padaria, reembarcamos todos no fretado. Deixamos a cidade e percorremos por vicinal os poucos mais de 6 km que a separam da Portaria Serranópolis do Parque Estadual Serra Nova e Talhado. A estrutura honesta está junto ao início do Cânion do Talhado; um dos muitos destaques naturais do Parque.

Início da pernada no Talhado

Àquela altura, o tempo seguia parcialmente nublado, algo bem comum pelas serras do Espinhaço. Mas já fazia calor! Ajeitamos as tralhas e beirando 8h00 da manhã iniciamos nossa jornada! Seria uma jornada alongada, pois o pernoite no Parque somente é permitido junto ao Abrigo no Gerais Santana; distante mais de 20 km desde a portaria.

Em suave aclive, seguimos margeando o Rio Mosquito pela sua esquerda no interior do Cânion do Talhado. Trecho com trilha batida e sombreamento parcial. O corte do cânion impressiona pelos seus paredões alaranjados e irregulares. Animação costumeira inicial, após uma meia hora de passos, o Chumbo nos chamou atenção quando topamos com um bebê jararaca; que apesar de pequenino estava nervosinho!

Paredões no Talhado

Com Wilson na dianteira, passamos pela Santinha com sua água abençoada e perene. Prosseguimos em indiana margeando o rio; que segue formando poços chamativos. Cruzamos o afluente Laranjeiras e chegamos ao local conhecido por Poço da Sereia. Beirava 9h00 e havíamos percorrido cerca de 2,5 km desde a Portaria. Aproveitamos para fazer uma parada. Alguns poucos se animou a serear no poção, creio que devido ao horário e às nuvens que ainda permaneciam no céu.

Poço da Sereia

Pouco antes de 9h30 retomamos a pernada. O panorama se manteve ainda no interior do Cânion. Mais um pequeno afluente cruzado e o cânion foi se abrindo. A trilha parcialmente sombreada ora se aproxima, ora se afasta alguns metros do Mosquito. Pouco após as 10h00 chegamos a um Mirante com vista Leste-Oeste. Ponto excelente para observação, com paisagem rodeada por afloramentos! Aproveitamos para mais uma paradinha. Aquela altura o calorão já era intenso!

Retomamos a caminhada ainda pela margem esquerda do Rio Mosquito. Observo algumas saídas à direita que vão desaguar lá pras bandas iniciais da estrada interna do Parque a Leste. Porém nos mantivemos na vertente principal. Trecho parcialmente sombreado. Passamos pela rocha conhecida como Dedo de Deus. Localizada ao lado da trilha, de fato o seu formato lembra em miniatura o Dedo de Deus do Parnaso. Mais um curto trecho e cruzamos o Rio Mosquito pouco antes das 11h00.

Deixamos então o sentido Oeste-Leste e tomamos rumo Norte. Agora pela margem direita do Mosquito, seguimos rodeado por morrotes. Em pouco mais de 15 minutos demos de cara com a corredeira das Sete Quedas. A Sete Quedas como o próprio nome indica é um complexo de corredeiras e pequenas quedas no Rio Mosquito. Há vários pocinhos para diversão e devido a posição do lugar, há forte incidência de sol.

Uma das corredeiras da Sete Quedas

Subimos o primeiro e principal lance do complexo e por lá nos instalamos, buscando as raras sombras para nos abrigar do solzão daquele meio do dia. Tempo livre e alongado para quem desejasse se refrescar e afins. Alguns até subiram um pouco pelo complexo, mas eu preferi ficar ali descansando e crescendo o olho naquela paçoca de carne que o Chumbo levava eheheh...

Pouco depois do meio dia retomamos nossa caminhada. Mas não fomos pela Raia Olímpica; isto é, seguindo o curso do Mosquito. Esse trecho seria complicado devido a ter que caminhar pelo leito em alguns pontos. Além disso, as trilhas antigas ora estão sujas e fragmentadas. E não tínhamos tanto tempo para essas particularidades gostosas! Embora não tenhamos ido por esse trecho, recomendamos fortemente que, tendo tempo de sobra o faça!

Assim, retornamos até aos pés da Sete Quedas, cruzamos o leito pulando rochas e tomamos a trilha que se embrenhou pela capoeira. À medida que fomos avançando, a trilha foi-se ampliando e observamos sinais de antiga vicinal. Prosseguimos no rumo Norte e adiante, por volta de 12h30 chegamos no ponto de acesso às pinturas rupestres, que estão próximas ao Mosquito, então à esquerda da trilha.

Fizemos uma paradinha apenas para aglutinação; pois nenhum de nós optou por embrenhar na trilha suja e ir até às pinturas. Uns 10 minutos retomamos, quando demos uma guinada a leste. Em suave aclive desembocamos na estradinha interna do Parque. O sol estava a pino e fazia muito calor. E justamente a partir daquele ponto as sombras se escasseavam...

Prosseguimos pela estradinha estilo 2 sulcos em suave aclive no rumo Norte. A vegetação nos arredores é típica do espinhaço, rebelde, com arbustos contorcidos em meio aos zilhões de afloramentos. Estamos rodeados por morrotes e torrando no sol do meio do dia. Por volta de 13h40 chegamos na Ponte Molhada do Rio Mosquito. Alívio por um refresco e descanso nas poucas sombras dos arredores.

A Ponte Molhada é referência importante nessa Travessia. Ali, a estradinha interna do Parque "faz uma ferradura" no sentido Sul para ascender a encosta Oeste. Nesse mesmo ponto há uma antiga trilha que toma rumo Norte; no mesmo sentido das nascentes do Rio Mosquito. A velha trilha passa pela Lapa do Caçador e virando o morrote; entrará no Gerais do Santana; finalizando na Casa de Montanha do Parque.

Na prática, ambas opções guardam diferenças importantes. Enquanto pela estradinha são quase 12 km até o abrigo do Parque; pela trilha são pouco mais de 8 km. E não é somente isto! Sabemos que caminhar por trilhas é muito mais interessante que por estradinhas, mesmo que vicinais. Entretanto, por normas do Parque na ocasião, deveríamos prosseguir pela estradinha.

Pouco após 14h00 lá fomos nós pela estradinha, apesar dos meus protestos eheheheh... Inicialmente em subida sob forte calor, a ferradura Sul nos levou ao alto do morrote. Foi um desgaste considerável! Buscando umas raras sombras, pouco antes das 15h00 fizemos uma parada para aglutinação. Uns 15 minutos depois prosseguimos. Wilson na dianteira e o Chumbo fechando o grupo. Eu estava ali pelas intermediárias.
 
Paisagem típica do Espinhaço

Como a rota é bem marcada e a essa altura estabilizada, o pessoal da dianteira avançou a passos largos. Nós outros prosseguimos mais vagarosos; com uma ou outra paradinha aleatória. De fato, o calor somado ao cansaço da longa viagem na noite anterior começou a pegar! O que aliviava era a beleza do lugar!

Pouco após as 16h00, nós da intermediária fizemos uma parada alongada para aglutinação aproveitando umas sombras às margens da vicinal. Após, cada qual no seu ritmo fomos retomando a jornada. Estando solo e em rápida guinada Oeste, percorri a encosta à frente em suave aclive. Visual ao Sul muito bonito! Virando o morrote com características de Cerrado, despontou à minha frente a região do Gerais de Santana. Foi possível observar a Casa de Montanha bem ao Norte, embora ainda um pouco distante.

Gerais Santana
Casa de Montanha ao Centro

Em suave declive prossegui pela velha estradinha 2 sulcos com renovadas forças. Com o Abrigo cada vez mais próximos, às 17h30 cruzei o Riachinho Santana e em poucos metros desemboquei na área do Abrigo Oficial do Parque. Por lá já estavam nossos amigos da dianteira descansando e tomando as primeiras providências. Em poucos minutos também chegaram aqueles que caminhavam um pouco mais atrás!

A Casa de Montanha do Gerais do Santana tem cozinha e quarto com camas para até 10 pessoas. Conta com ampla varanda em 3 lados. Há um chuveiro externo. Seus arredores são gramados e levemente descaídos. Há um baita pé de manga e uma goiabeira. Faz limite com o Córrego Santana, onde há um pocinho para banhos. Próximo ao riacho há o velho casebre que ainda está de pé, agora utilizado para guardar tranqueiras. Na ocasião, o local estava em obras. No lado sul, onde o terreno é mais plano, estava em construção a nova casa que servirá de apoio aos campistas. Dessa forma, a atual casa ficaria exclusivamente para funcionários e brigadistas. É um grande lugar!

Detalhe Casa de Montanha

Bom, naquela tarde calorenta cada qual tratou dos seus afazeres. Uma parte se instalou no quarto com camas. Eu e mais alguns amigos preferimos a barraca! Aliás, eu sempre prefiro a barraca eheh... Apesar do cansaço da viagem mais a jornada além de 22 km, aquele foi um fim de tarde e noite divertidos!

Relato Dia 2


Após uma noite recuperadora, o domingo de carnaval amanheceu parcialmente nublado. Aquele seria um dia tranquilo, pois permaneceríamos no Abrigo dos Gerais e nos seus arredores. De modo leve faríamos o circuito das cachoeiras no Gerais. Então, sem pressa cumprimos os afazeres normais para uma manhã preguiçosa.

Por volta 8h00 deixamos a Casa de Montanha do Parque e tomamos a trilha-estradinha rumo Norte. Outra vez o clima nos indicava que aquele seria mais um dia de calorão. E isto seria ótimo, afinal era um dia para curtição das cachoeiras.

Em 15 minutos cruzamos um afluente do Serra Branca e seguimos adiante. Após suave aclive o panorama do Gerais Norte-Sul impressiona pela amplitude e beleza. Adiante tomamos a bifurcação da esquerda, pois a direita é a trilha que leva para os lados de Serra Nova, que é a outra rota importante do Parque. Seguimos pela vicinal 2 sulcos por pouco mais de 1 km. Cruzamos o Rio Serra Branca e após 1h00 de caminhada desembocamos na Cachoeira da Prainha.

Prainha

Formada pelas águas do Rio Pedra Branca, a Prainha é uma bela cachoeira. Embora não seja alta, suas águas despencam do paredão formando cortinas e um belo poço. Aquela areia que certamente batizou a cachoeira praticamente desapareceu. Segundo o Wilson foram embora nas fortes enchentes de temporadas anteriores. Mas sabemos que o retorno daquela prainha é só uma questão de tempo. Já nos arredores da cachoeira muitas rochas e matações. É um lugar muito bonito!

Por volta de 10h00 começamos a deixar a Prainha. Ao invés de seguirmos pela trilha suja que cruza a encosta pela capoeira, retornamos pela mesma trilha de acesso até a linha de campo superior. Ali seguimos por trilha mais discreta no rumo Sul, margeando a espinha do despenhadeiro rochoso.

Em 15 minutos mergulhamos ribanceira abaixo. A trilha em forte declive e com vários degraus estava limpa, fruto do trabalho dos funcionários do Parque. Isto facilitou a circulação e rapidamente chegamos até uma bifurcação. Tomamos à direita entre agradável mata. A trilha limpa nos levou diretamente à Cachoeira do Buracão.

Buracão

Buracão

A Buracão impressiona pela sua queda apertada em meio a paredões rochosos. Um verdadeiro buraco! Forma um poço estreito e aproveitável. Esse conjunto forma uma belíssima cachoeira; algo pouco comum de ser visto! Permanecemos por ali em torno de meia hora; quando retornamos até a bifurcação da ladeira.

Seguimos descendo pela trilha e passamos por um pé de manga carregado! Claro, aproveitamos para coletar algumas. Seguimos por mais alguns metros e tomamos a trilha da esquerda. Rapidamente desembocamos na Cachoeira da Andorinha. Formada pelas águas do Ribeirão Santana, suas águas escorregam pelas rochas e desembocam em um bom poço! Por lá permanecemos apenas uns 20 minutos, o suficiente para alguns se refrescar e outros deliciar com as mangas recém colhidas.

Andorinha

Poço da Andorinha

Retornamos à bifurcação de acesso e tomamos à esquerda. Em declive logo chegamos ao leito do Ribeirão Santana; e pouco adiante ao Poço do Encontro! O nome é porque nesse ponto as águas do Santana se encontram com o Rio Pedra Branca! E que poção bonito! São essas águas as principais formadoras da Cachoeira do Serrado lá embaixo na borda Oeste do Parque!

Parcial Poço do Encontro

Seguimos margeando o Pedra Branca por alguns metros e chegamos até a Cachoeira do Encontro pontualmente ao meio dia! Que bela Cachoeira! Suas águas escorregam pelo paredão formando um poção mais fundo! Nos arredores a viçosa vegetação denuncia a umidade permanente! No patamar superior uma outra queda, no momento e por decisão da administração, inacessível!

Cachoeira do Encontro

Com aquele calorão, tratei de me abrigar nas sombras da mata entre o poção e a cachoeira! Vários de nós ficamos por ali ali, mastigando, proseando e curtindo os momentos de ócio! O local permitiu que cada um fizesse o que julgasse melhor; e dada a proximidade, inclusive alternar entre a cachoeira e o poção. E isso foi perfeito! Tão bom que ficamos mofando por ali por cerca de 2 horas!

Encontro

Passava das 14h15 quando deixamos o Poço do Encontro e iniciamos nossa pernada de retorno. Teríamos pela frente o subidão da encosta sob sol e calor. Pelo mesmo trajeto da ida, logo chegamos a bifurcação da Cachoeira da Andorinha. Esse é um ponto importante porque me lembro que quando estive ali da última vez foi nesse ponto que segui no sentido Sudeste diretamente para o Lajeado e de lá para o casebre do Gerais.

Dessa vez seguimos pela rota normal. Passamos novamente pelo pé de manga e enchemos os embornais! Após a bifurcação da Buracão, cada qual no seu ritmo, por volta de 14h50 vencemos o trecho da subida. Fizemos uma parada para descanso e aglutinação. De pé, caminhamos curto trecho no sentido Norte e de tanto amolar nossos Condutores, fizemos um atalho pela vegetação rasteira e interceptamos a estradinha de retorno.

Tomando rumo Sul, pouco adiante junto a algumas formações, nosso condutor parou para dar notícias à sua família. Também fiz uma paradinha curta, o suficiente para os amigos desaparecem na estradinha. Retomei a caminhada e somente fui alcançá-los junto ao afluente do Ribeirão Santana. Isto porque eles fizeram uma parada, já que ali era o ponto de acesso as últimas cachoeiras daquele dia.

Aglutinados entramos por trilha discreta a nossa direita. Em poucos metros pelo campo e chegamos ao topo da Cachoeira da Aliança às 16h00. Que lugar lindo! Não descemos ao poço nesse momento; mas tocamos para baixo por trilha discreta e em suave declive. Há algumas placas de sinalização até a Cachoeirinha dos Gerais. Cruzamos o córrego e na outra margem fizemos uma paradinha para aglutinação.

Gerais

Pouco depois tomamos a trilha e logo adiante entramos à esquerda; pois se não me falha a memória, a velha trilha que segue reto irá se encontrar lá embaixo próximo a Cachoeira da Andorinha, aonde estivemos horas atrás. Em meio a capoeirinha, logo cruzamos o riacho e em metros chegamos ao Poção do Lajeado! Que lugar encantador!

Lajeado

Nem todos optaram por ir ao Lajeado, mas aqueles que foram aproveitaram! Uma meia hora depois deixamos o lugar pela mesma trilha da ida. Cada qual ao seu ritmo, passamos novamente pela Cachoeirinha dos Gerais. Ali, eu decidi subir diretamente para a Cachoeira da Aliança e aproveitar o sol de fim de tarde.

Pouco antes das 17h00 cheguei a Aliança com tempo de lavar as peças de roupa e tomar um banho. A Aliança é uma pequena cachoeira, com queda e poços singelos. Mas os arredores em rocha e a sua posição em relação ao sol torna o lugar especial; permitindo um desfrute prazeroso!

Bucólica Aliança

Aglutinados e após cerca de 1h00 curtindo a Aliança, iniciamos nosso retorno definitivo para o Abrigo dos Gerais. Tomamos um atalho em suave aclive e pouco a frente desembocamos na estradinha. Seguindo rumo Sul, pontualmente às 18h15 chegamos ao Abrigo!

Novamente os procedimentos normais e preparativos para o pernoite! Certifiquei que a descida pelas margens do Pedra Branca passando pelas quedas da Cachoeira do Serrado não seria possível. Então, os planos para o dia seguinte seriam modificados: Visitaríamos a Cachoeira de Briz. Já a Cachoeira do Serrado ficaria para nosso último dia na região.

No mais, conversas animadas e umas comidinhas. Ninguém mais queria ouvir falar de manga, pois exageramos na coleta lá nas proximidades da Andorinha! Mais tarde cama recuperadora! Aquele fora um dia com overdose de cachoeiras; um circuito renovador; um prêmio àqueles que se dispõem a caminhar longas distâncias e estar em locais mais isolados!

Relato Dia 3


Como em dias anteriores, nosso último dia na parte alta do Parque amanheceu parcialmente nublado. Mas não significava frio; ao contrário, sabíamos que em poucas horas o sol iria arder! Ajeitamos nossas tralhas e por volta de 8h00 deixamos o Abrigo do Gerais do Santana.

Casa de Montanha e arredores
À direita, obra construção de apoio aos campistas

Cruzamos o Ribeirão Santana, percorremos um curto trecho de estradinha e tomamos a bifurcação da direita rumo a região do Serrado! O trecho em suave aclive mira a virada do topo Oeste da Serra Geral. Ao longo do trecho cruzamos alguns pequenos pontos de água. O visual é muito bonito, sobretudo do Gerais a Leste.

Pouco depois de 1 hora de caminhada e juntos a um afluente do Córrego Biquinha - que é o principal formador da Cachoeira de Briz - fizemos uma paradinha para descanso. Estávamos em bom ritmo pela região conhecida por Vargem Redonda! Uns vinte minutos retomamos a pernada, para pouco antes das 10h00 atingirmos a virada da Serra Geral. O visual que descortina a Oeste é incrivelmente belo, daqueles que nos convida a permanecer horas e horas a contemplar...


Mas prosseguimos, afinal ainda tínhamos boa jornada adiante embaixo daquele sol escaldante! Durante a descida, nosso condutor Wilson conseguiu contato com o proprietário do local do nosso pernoite no Serrado; e este gentilmente se prontificou a nos resgatar na junção da trilha da descida com a estradinha do Serrado. Isto nos pouparia cerca de 4 km de caminhada final pelo arraial do Serrado.

Animados com a notícia, passamos a percorrer trecho em declive acentuado, com muitas rochas e degraus; tudo rodeado por matações. Próximo das 10h30 chegamos a região do Sitinho. Ali, em ocasião anterior havia prosseguido no rumo Norte pelo platô intermediário da serra; uma trilha antiga que passa pela casinha do Sr. Zé, uma Lapa; cruza a barragem de Briz e vai desaguar lá nos despenhadeiros do Pedra Branca, acima da queda principal da Cachoeira do Serrado.

Porém, como o Parque não estava permitindo esse trajeto na ocasião, prosseguimos serra abaixo rumo a Cachoeira de Briz. A declividade diminuiu bastante e mais abaixo cruzamos áreas com sinais de antigos garimpos. À medida que fomos perdendo altitude, a vegetação também foi se modificando. De matações e afloramentos rochosos, passamos a nos deparar com vegetação típica de áreas secas de cerrado. A trilha também foi se alargando e passamos a beirar restos de antigos muros de pedras.

Pouco após meio dia chegamos a bifurcação da Cachoeira de Briz. Ali fizemos uma grande parada, aproveitando a sombra farta e o vazar de um cano de água para nos abastecer e nos refrescar. Também foi ocasião para aglutinação, já que durante a descida da serra cada um de nós foi imprimindo seu ritmo.

Quase 1 hora depois e aglutinados tomamos a direita rumo a Cachoeira de Briz. A trilha em aclive suave é parcialmente sombreada. Em pouco mais de 15 minutos chegamos à Cachoeira!

Briz no Paredão

Queda de Briz

Localizada no córrego da Biquinha, trata-se de uma queda cujas águas escorregam pela rocha por algumas dezenas de metros; formando um belo poço; que é pequeno, porém misto e agradável. A posição voltada para Oeste favorece a insolação; mesmo com as gigantescas rochas do entorno. Na ocasião a cachoeira apresentava bom volume de água, formando um conjunto de grande beleza! Tempo livre para curtir o lugar! Eu até aproveitei para fazer um macarrãozinho rápido, pois a fome era graúda!


Beirava as 15h00 quando deixamos a Cachoeira de Briz. O calorão era intenso! Tínhamos um curto trecho de trilha para vencer! Em pouco mais de 15 minutos de caminhado após deixarmos a Cachoeira de Briz chegamos no ponto combinado com o resgate. Com louvor botamos fim à nossa Travessia!

Serrado e paredão da Serra ao fundo

Permanecemos junto a uma casa de morador local e curtindo uma sombra merecida. Uma meia hora e o resgate chegou. Uma primeira remessa de nós foi-se embora. Aguardamos mais um tempo e seguimos na segunda remessa, acomodados na carroceria da Fiat Strada. Cruzamos o povoado do Serrado, quando nos despedimos do Wilson. Rapidamente finalizamos nosso dia na Chácara do Du, onde fomos recebidos com uma gentileza difícil de encontrar hoje em dia! Por lá nos instalamos bem próximos ao leito do Rio; um perfeito fechamento de pernada!

Relato Dia 4


Naquele quarto e último dia no Norte de Minas visitaríamos a Cachoeira do Serrado. Os planos iniciais eram outros, mas ao final as circunstâncias se mostraram acertadas. Amanheceu o dia como os outros, parcialmente nublado! Após uma noite renovadora, tomamos café na chácara do Du. Foi um cafezão e tanto! Combinamos com ele o frete para nos levar e buscar lá na Cachoeira do Serrado. Isto nos pouparia 10 km de caminhada ida e volta pelas estradinhas empoeiradas do arraial.

Perto das 9h00 daquela calorenta manhã, o motorista do Du realizou a primeira viagem até o estacionamento da Cachoeira do Serrado. Fui na segunda viagem, desembarcando no estacionamento da Cachoeira perto das 9h20. Caminhamos os poucos metros de trilha que separam o lugar da Cachoeira, quando topamos com nosso Condutor Wilsom, que como funcionário do Parque fazia seu trabalho de orientação aos visitantes.

Sem pressa chegamos ao poção da Serrado. Os paredões ainda estavam sombreados, mas a grande queda deixava o conjunto espetacular. Naquele momento poucas pessoas estavam na cachoeira. Havia movimentação de bombeiros; indício de que o lugar receberia muitos visitantes naquele dia! Nos acomodamos na rocha ao lado e ficamos contemplando o ambiente! De fato, a Cachoeira do Serrado é uma das joias do Espinhaço!

Serrado

Invertida

Pouco tempo depois o lugar começou a ficar movimentado, com visitantes de idades e estilos variados. Nós resolvemos deixar os arredores do poço e ficar em um ponto abaixo da barragem. Por ali não havia poços profundos para braçadas; mas sim pequenos poços rodeados por rochas, lugar ideal para ficar de bobeira papeando e curtindo o ócio. Assim, enquanto o poço principal fervilhava de gente nós estávamos ali, metros abaixo curtindo uma tranquilidade que só!


Combinado com o resgate nossa busca a partir de 12h30, pouco antes tratamos de nos dirigir para o estacionamento. Novamente em duas levas fomos resgatados e antes das 13h30 já estávamos no Restaurante da Nalva para almoçar. Após almoço, corremos para a Chácara do Du onde desmontamos as barracas, e ajeitamos as tralhas.

Por volta de 14h30 iniciamos nossa viagem de retorno. Ainda fizemos uma parada no Mercado de Porteirinha para aquisição de umas guloseimas; bem como outra pela BR 135. Perto de 01h30 da madrugada de quarta feira desembarcamos em Belo Horizonte.

Foi uma longa viagem com seu natural cansaço, porém sem intercorrências. Quanto ao lugar, certamente nos restarão saudades e aquela sensação que um dia devemos retornar! Enfim, satisfação por mais essa jornada exitosa junto aos velhos e novos amigos! Sempre grato a todos!

Serviço


O Parque Estadual de Serra Nova e Talhado


Localizado ao Norte de Minas Gerais, o parque foi criado no último trimestre de 2003. Atualmente abrange áreas nos municípios de Porteirinha, Serranópolis, Mato Verde, Rio Pardo de Minas e Riacho dos Machados. É uma Unidade de Conservação dentro da Cadeia do Espinhaço; localmente conhecido por Serra Geral; muito embora a Serra Geral extrapole os limites do Parque. O relevo é acidentado e a vegetação predominante são os campos rupestres e cerrado. Apresenta intensas e variadas fauna e flora.

A infraestrutura do Parque encontra-se em implantação; e por hora resumindo-se a alguns Portais de Controle e Orientação nos pontos de maior visitação; bem como pelo Abrigo de Montanha no Gerais de Santana.

Apresenta 3 núcleos principais para visitação: Serra Nova em Rio Pardo de Minas, Talhado em Serranópolis e Serrado em Porteirinha. Unindo essas regiões há rotas de Travessias que podem ser realizadas mediante agendamento junto ao Parque; requerendo para tal o acompanhamento de Condutor Local credenciado pela Unidade de Conservação.

A Travessia Talhado x Serrado


É a principal rota de Travessia no Parque Estadual de Serra Nova e Talhado. A quilometragem total da Travessia pode variar entre entre 40 e 65 km, dependendo do trajeto e atrativos a visitar. O local único indicado e permitido para pernoite é junto a Casa de Montanha no Gerais de Santana.

A rota tem início no Cânion do Talhado, passa pela Cachoeira Sete Quedas e prossegue até o Abrigo de Montanha do Parque no Gerais de Santana (Área de influência do Rio Mosquito). No Gerais de Santana há o circuito pelas cachoeiras Prainha, Buracão, Encontro, Andorinha, Lajeado e Aliança (área de influência do Rio Pedra Branca). Já a parte final consiste entre o Gerais de Santana e o Arraial do Serrado, passando pela Cachoeira de Briz. Porém o ideal seria finalizar na Cachoeira do Serrado (área de influência do Córrego Biquinha e Rio Pedra Branca).

Na concepção atual, embora existam alguns atalhos, do final da trilha no Serrado até a Cachoeira do Serrado são mais de 5 km por estradinhas vicinais.

Dentre todos os Parques Estaduais de Minas Gerais que estão localizados no Bioma do Espinhaço, a Travessia Talhado x Serrado pode ser considerada uma das rotas mais expressivas e interessantes; não somente pela sua imensa riqueza natural, mas também pela sua localização mais ao Norte do Estado, seu isolamento e estado de conservação.

Distâncias Aproximadas - Referência Belo Horizonte


BH x Serranópolis de Minas: 610 km
Serranópolis x Portaria Serranópolis do Parque: 6 km (estrada de terra)
Cachoeira do Serrado x Porteirinha: 30 km (16 km estrada de terra)
Porteirinha x BH: 590 km

Como Chegar - De carro - Referência Belo Horizonte


Ida: Rodovias BR's 040, 135 e 122 até Porteirinha. Após, Rodovia AMG 3215 até Serranópolis. Estrada rural para Portaria Parque no Talhado
Retorno: Estrada rural do Serrado até BR 122 junto ao Distrito de Pedra Branca. Após, BR's 122, 135 e 040 até BH

Obs.: Início e final em pontos distintos e distantes. Necessário planejar logística.

Como Chegar - De ônibus - Referência Belo Horizonte


Ida: ônibus Viação Gontijo até Porteirinha. Táxi até Serranópolis
Retorno: Táxi do Serrado até Porteirinha. Viação Gontijo até BH

Obs.: Horários de ônibus escassos. Consulte as empresas sobre horários e frequências. Há ônibus rural entre Porteirinha e bairros rurais de cidades vizinhas que passam por Serranópolis de Minas. Porém circulam em dias e horários reduzidos.

Considerações Finais


► Unidade de Conservação - Parque Estadual Serra Nova e Talhado. O Parque exige reserva antecipada para a realização de Travessias, exigindo o acompanhamento de Condutor Local credenciado. Há limitação no número de visitantes. Há taxa de utilização da Casa de Montanha no Gerais de Santana.

► Logística de Acesso: Início e final da Travessia em pontos distintos e distantes. Necessário programar logística. Dependendo do modo escolhido a rota a percorrer à pé pode para chegar ao início da trilha; ou retornar ao final pode se alongar em muitos quilômetros. Os acessos às localidades inicial e final se dão somente por estrada de terra, quase sempre em condições sofríveis, em especial no período chuvoso.

► Experiência em Trekking: Requer experiência em Trekking autônomo.

► Sentido: A travessia pode ser realizada tanto no sentido Talhado x Serrado quanto Serrado x Talhado

► Atrativos Principais na Travessia: Cânion do Talhado, Rio Mosquito, Poço da Sereia, Sete Quedas, Prainha, Buracão, Poço e Cachoeira do Encontro, Andorinha, Lajeado e Aliança. Região do Gerais de Santana.

► Trilhas 1: As trilhas são mistas, isto é, há vicinais antigas; trechos com trilhas amplas; porém há outros trechos mais fechados e antigos. Há várias bifurcações e saídas por toda a rota. Há aclives e declives, alguns acentuados. Há desfiladeiros! Não há trechos técnicos pela rota que exijam transposição através de equipamentos; porém há cursos d'água importantes a cruzar. Sombreamento em aproximadamente 10% do trajeto.

► Trilhas 2: Com a proibição de acesso a trilha íngreme que margeia o Rio Pedra Branca próximo à Cachoeira do Serrado, o início ou final da Travessia se dá mais próximo à Cachoeira de Briz. Assim, a Cachoeira do Serrado encontra-se mais isolada, ao Norte, requerendo ou esticada a pé; ou arranjo logístico específico.

► Trilhas 3: A proibição de percorrer o trecho em trilha que liga a Ponte Molhada à Casa de Montanha do Gerais de Santana interfere sobremaneira na realização dessa travessia. Isto porque resta como opção percorrer a rota via estradinha vicinal; aumentando em quase 4 km a caminhada; além de ser menos interessante. Então, do ponto de vista do Montanhismo é fundamental que a trilha antiga que liga esses pontos seja recuperada e disponibilizada, pelo menos como opcional.

► Trilhas 4: Outro trecho não percorrido atualmente é aquele entre a Sete Quedas e as pinturas rupestres, passando pela Raia Olímpica. Fundamental que possa ser analisada a possibilidade de formatação de trilha que permita visitação do trecho.

► Atrativos Principais na Travessia: Rio Mosquito, Poço da Sereia, Sete Quedas, Prainha, Buracão Poço e Cachoeira do Encontro, Andorinha, Lajeado e Aliança.

► Camping: Permitido somente junto a Casa de Montanha no Gerais de Santana.

► Infraestrutura: Não há pontos comerciais pela rota. Não há energia elétrica pela rota. Porém há sinal de telefonia celular em alguns pontos da rota. A Casa de Montanha do Gerais de Santana disponibiliza cozinha e algumas poucas camas. Há chuveiro frio externo e varanda. Sua prioridade de uso é para funcionários em trabalho. Requer reserva antecipada para utilização. Já o escritório do Parque se localiza na cidade de Porteirinha.

► Água: Há pontos de água pela rota; porém em períodos de seca algumas podem desaparecer. Iniciar travessia abastecido e usar purificador!

► Época de realização: O melhor período para realização é de abril a setembro; que é a época mais seca na região. Porém é quando as águas das cachoeiras estão com menor volume e fontes de água escasseiam; além da forte insolação. Entre outubro e março, em especial dezembro e janeiro, é comum ocorrências de chuvas mais fortes ou tempestades na região. Sob chuva volumosa a rota pode se inviabilizar, pois há cursos d'água importantes a serem cruzados. Mesmo no período do inverno não é comum fazer frio na região.

► Segurança 1 - Escape: basicamente se restringem a retorno ao ponto inicial; ou adiantar-se para o ponto final. Outros opcionais podem ser utilizados, porém podem interferir severamente na logística posterior. Tenha em mente que em circunstâncias adversas os deslocamentos podem ser longos. Não há estrutura de busca e resgate seja no PE Serra Nova e Talhado ou nos arredores. Há sinal de telefonia celular em alguns poucos pontos da rota. Obviamente não há terminais telefônicos.

►Segurança 2: prefira utilizar calças e camisetas com mangas longas. Isto oferece maior proteção frente à vegetação e eventuais insetos; além de minorar a ação do sol.

► Segurança 3: Ambientes naturais abrigam insetos e animais selvagens ou peçonhentos. Isto é normal. Portanto, seja ao caminhar ou ao se sentar esteja sempre atento. Ao manusear vestuário e equipamentos verifique com atenção se não há presença de animais ou insetos. Também esteja atento quanto a presença de animais selvagens de grande porte; evitando assustá-los.

► Cash: comum utilização de Pix e CC.

► Cartas Topográficas: Alagoa e Pouso Alto


► Pratique a atividade aplicando os Princípios de Mínimo Impacto



Bons ventos!

Postar um comentário

Gostou? Deixe seu comentário, pergunta ou sugestão (0)

Postagem Anterior Próxima Postagem