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Nome é coisa séria!

A Serra do Paiol, em Alagoa-MG
Cismaram em rebatizar do sol
Os nomes das regiões, lugares, acidentes geográficos, rios, riachos, cachoeiras, trajetos e rotas são marcas importantes de um povo. Constituem um patrimônio, construído ao longo dos anos, décadas e até séculos. Podem originar de um hábito, uma atividade, da presença constante de um animal, das características naturais; e até mesmo de fatos culturais, religiosos, curiosos e históricos; dentre outros.

O que há de mais interessante nesses nomes é que, em sua maioria, apresentam forte relação com a vivência dos moradores locais. E quanto mais caracteristicamente rural é uma região, maior é essa correlação; muitas vezes marcada pela espontaneidade.

Pelas nossas andanças sempre nos deliciamos com a multiplicidade de nomes. Alguns  são simples; outros complexos... Outros variam conforme o linguajar local, sendo por isso mesmo os mais curiosos. Encontramos muitos nomes referenciando a santos, uma prova da forte catolicidade popular! E sempre topamos com uma estrutura campeã: aquela de nomear dado ponto conforme o dono das terras onde se localiza.

Sempre que possível procuramos saber a razão desse ou daquele nome, em especial quando se trata de algum mais pitoresco. Nem sempre é possível descobrir a verdade sobre a origem, mas isto sempre rende boas histórias. E esse gosto pelos nomes começa antes mesmo de realizar uma atividade; na fase de planejamento. Mas é claro, é estando em campo que a coisa enriquece...

A Pedra do Juquinha (ou do Bispo - IBGE), em Alagoa-MG
Cismaram em rebatizar pedra do segredo
E é justamente em campo que não poucas vezes somos surpreendidos negativamente, infelizmente. É quando constatamos que alguns nomes que identificamos nos mapas, em especial naqueles dedicados à navegação; ou então, nas pesquisas em fontes diversas quando na fase de planejamento são na verdade, duvidosos; pois não resistem ao confronto com os locais; que obviamente são os maiores conhecedores da sua própria região!

Consistem em "batismos"; mas pasmem; a maioria são "re-batismos" de pontos naturais! Isto tem ocorrido com frequência; e por mais simples que possa parecer, muito nos preocupa... Ao investigar vários episódios, apuramos que quase sempre esses “batismos” e "re-batismos" foram realizados por forasteiros; que na realidade ainda pouco conhecem dos lugares. Apenas realizaram visitas em alguma ocasião; ou pretendem explorar comercialmente alguma rota ou região; ou então, por ali chegaram para fixar residência...

Suspeitamos que, em sua maioria isto aconteça por ignorância! Mas também pode ser por despreparo, descuido, preferências pessoais ou por algum outro interesse oculto. Mas há um fato comum a se observar. Ocorre que esse forasteiro quase sempre é de origem ou de anterior vivência urbana. Possuindo melhor acesso às comunicações; por conta própria e com pouco cuidado passou a divulgar, em especial na internet, “novo nome” de dado ponto natural. Então, na atual velocidade da internet, o “novo nome” passa a dominar o panorama...

Aos olhos menos atentos isto pode parecer inofensivo, bobagem ou excesso de zelo de nossa parte. Mas é um fato muito grave, porque nos induz ao erro! E como agravante, pode nos fazer disseminar este erro; enganando pessoas de boa fé! Por outro lado, isto também é motivo de tristeza; porque nos indica que, infelizmente ainda há um grande desconhecimento das boas práticas do Montanhismo.

Batismo de novos lugares, cumes ou atrativos

Se comprovadamente somos os primeiros a botar os pés num determinado lugar numa montanha, é consenso entre a comunidade que temos o direito de “batizá-lo”. Mas veja, com-pro-va-da-men-te! Antes de sairmos alardeando o feito, é conveniente uma séria pesquisa visando sua comprovação. Isto vale para lugares, serras, picos, morros, depressões, planícies, matas, rios, riachos, poços, cachoeiras etc; e inclusive para rotas de trilhas e travessias. A não observância desse procedimento pode nos colocar em ridículo e no descrédito.

Portanto, antes de nomear algum novo ponto, é fundamental alguns cuidados básicos:
  • Mensurar o significado e importância da "descoberta".
  • Pesquisar junto a fontes históricas, livros, mapas oficiais, órgãos públicos e moradores locais visando descobrir se não há registros anteriores de presença humana; ou de nome do local em questão. Pode ocorrer de um local ainda não ter sido visitado, mas já ser nomeado; ou o contrário, já ser visitado, mas ainda não apresentar nome. Isto é raro mas pode acontecer.
  • Consultar a comunidade do Montanhismo visando reforçar a suspeita de primazia; ou ausência de nome.
  • Redobrar a atenção em Unidade de Conservação: dependendo da região as chances de toda a área já ter sido percorrida e nomeada costuma ser grande;
  • Redobrar a atenção em casos de rotas; pois na realidade, a maioria dos casos não consistem em rotas novas, mas sim na junção de antigos caminhos já existentes; que por alguma razão se encontram em desuso. 
  • Documentar todo o processo.

Após a pesquisa e sendo comprovada a primazia; ou ausência de nome de dado ponto, vindo o desejo de nomeá-lo, procurar por nomes que remetam à região do acidente geográfico ou atrativo; valorizando as características naturais, os costumes, tradições e história locais. Evitar nomes de familiares, amigos ou alguma homenagem de cunho pessoal. Evitar também nomes caricatos, filosóficos ou que possam causar ridículos, escândalos ou fazer apologia a alguma causa! 

O chamado “Re-Batismo”

Sem dúvida alguma podemos afirmar que a possibilidade do “re-batismo” simplesmente não existe. No Montanhismo, por princípio, "re-batismo" é uma ação anti-ética! Senão vejamos, se um sério levantamento foi feito, e algum nome identificado; tal nome se deu em virtude de alguma razão. Logo, não há motivo nem justificativa para modificá-lo! Ponto!

De todo modo, seja por qual motivo for, quem ousa “re-batizar” um ponto, atrativo ou rota merece o descrédito absoluto. É prova de incompetência em dose dupla e constitui um capricho! Além disso, ao fazê-lo, o autor desprezou a história, cultura e tradição de um lugar e seu povo; ou então a vivência ou primazia de alguém que, merecidamente o nomeou. E esse desrespeito é uma das ações mais graves no mundo do Montanhismo. E veja, nem abordamos outros aspectos danosos consequentes de renomeios...

Conclusão

Esse escrito não visa criar regras, como está na moda dizer por aí; mas apelar para o básico: o nosso senso comum. Nome de lugar é coisa séria! Nos ajuda também a compreender um pouco mais do Montanhismo e seu importante papel no respeito e na preservação de hábitos, história e defesa, seja dos interesses de moradores locais, seja de outros parceiros de atividade. Portanto, sejamos cautelosos; asseguro que isto não nos custa muito!

Bons ventos a todos!

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