Serra Fina em Dois Dias

Picos Três Estados, Cupim do Boi e Cabeça de Touro.
Ao fundo, o Planalto do Itatiaia
A Travessia da Serra Fina é talvez a rota mais comentada nas rodinhas dos montanhistas brasileiros.

Trata-se de uma rota aberta há algumas décadas na Serra da Mantiqueira e que por muito tempo desafiou e continua a desafiar os montanhistas, chegando a ser considerada por alguns como a rota mais difícil do Brasil.

Histórias de dificuldades, heroísmo ou fracassos; montanhas expressivas para o padrão brasileiro, escarpas acentuadas, vegetação rebelde, clima imprevisível, escassez de água... Tudo isso colaborou para imprimir à Serra Fina um certo ar de misticismo.

E mesmo nos dias atuais, não é difícil encontrar defensores ferrenhos desse lado indomável daquela porção da Mantiqueira. Em alguns esta convicção é tão acentuada que suas opiniões chegam a meter medo naqueles menos avisados...

Ressalvas aos exageros sejam pra quais lados forem, a Travessia da Serra Fina guarda uma unanimidade: é um lugar escandalosamente bonito e significativo. É daqueles lugares capazes de sugar do caminhante todas as suas forças, mas o premia com uma experiência extraordinária...


Leia também aqui no Blog outros relatos e dicas sobre a Travessia da Serra Fina:

Trecho da subidona do Quartzito; logo após o ponto de água
Todo esse lado indomável da Serra Fina faz todo sentido. Há trinta anos as trilhas eram extremamente fechadas e em muitos trechos sequer existiam.

A navegação era por demais complicada e chegava-se a levar 6 dias para percorrer a rota da Toca do Lobo até as proximidades do Picu. Era uma rota em formação!

Por isso, não serão necessários grandes esforços para entender os motivos e as origens de todo o misticismo que envolve essa Travessia. Naturalmente o tempo passou e graças ao suor de muitos montanhistas a rota consolidou-se!

Os declives, aclives, vegetação rebelde, clima exigente, escassez de água... todos esses aspectos permanecem pela rota. Porém atualmente existe trilha definida por todo o percurso da Travessia; permitindo realizá-la em vários formatos!

Formatos de realização da Serra Fina

Trecho de crista entre a Pedra da Mina e o Cupim de Boi
Formato em 4 dias: Este é o formato mais conhecido, também chamado de Clássico ou Tradicional. Os pernoites acontecem no Capim Amarelo, Pedra da Mina e Três Estados.

É sabidamente o modo mais indicado para quem faz sua primeira vista à Serra Fina. Isto porque permite uma caminhada sossegada, com tempo suficiente para descanso, apreciação, descobertas e apreensão de conhecimento.

Há quem critique esse formato alegando principalmente que exige do caminhante transportar muito mais peso e volume devido a alimentação, equipamentos, materiais e água para 4 dias.

Porém, a recompensa é justamente permitir uma caminhada cadenciada e longos períodos para descanso. Obviamente se estará mais pesado; mas em compensação não sofrerá a pressão do tempo e jornada; que são muito mais intensas em outros formatos.

Formato em 3 dias: Este é um formato que na prática pouco difere daquele de 4 dias se levarmos em consideração os aspectos de peso e volume dos equipamentos, materiais, alimentação e água a transportar.

Entretanto este formato apresenta um ponto que a nosso ver é bastante desfavorável. Ocorre que para manter uma certa proporcionalidade na caminhada diária no formato em 3 dias, os pernoites não serão realizados nos topos das montanhas. Com isto perde-se o visual vespertino, noturno e matutino que desde os cumes da Mantiqueira são espetaculares.

Isto pode parecer uma bobagem; mas há de convir conosco que, um pernoite no Alto do Capim Amarelo é muito mais bonito que um pernoite no Maracanã. Pernoite na Pedra da Mina é muito mais significativo que aquele aos seus pés, seja no Rio Claro ou seja no Ruá. E um pernoite no topo do Três Estados é muito mais expressivo que um pernoite aos seus pés, como no Bambuzal; ou no Bandeirante...

Três Estados, Pedra da Mina e Serra Fina.
Ao fundo, Itaguaré e Marins
Formato em 2 dias: Este é um formato simplificado, com pernoite único no topo da Pedra da Mina, o quarto ponto mais elevado do País.

É um formato com várias vantagens. Além de permitir pernoite num ponto significativo; e possível ser realizado em um fim de semana.

Desse modo possibilita mais facilmente conciliação com folga profissional semanal. Com isso se evitam os conhecidos congestionamentos na Serra em época de feriadões; normalmente mais utilizados para o formato em 4 dias.

Também em 2 dias se permite maior controle sobre às condições do tempo; além obviamente possibilitar uma caminhada com menor peso e volume a transportar.

Um desvantagem desse formato é que, embora não exija um ritmo de caminhada extra-rápida; o formato resulta em 2 dias de atividade intensa; consumindo todo o período do dia do caminhante. Ou seja, se vai mais leve; mas em contrapartida será obrigado a realizar paradas mais curtas seja para descanso; seja para apreciação e conhecimento.

Por isso esse formato é o mais indicado para aqueles que já realizaram a Travessia em outra ocasião; e estejam preparados para uma caminhada mais intensa.

Formato Speed em 1 dia: esse formato é mais indicado para corredores de montanha, uma modalidade distinta do trekking. Em corridas de montanha praticamente não se transporta nenhum peso significativo, pois não haverá pernoite na serra. Por outro lado, o formato speed em 1 dia também pode ser indicado para montanhistas experientes como uma forma de desafio pessoal; ou como treinamento para empreitadas mais exigentes.

Quem se dispõe a realizar a Travessia da Serra Fina em apenas 1 dia deve estar ciente das suas limitações e das dificuldades que enfrentará. Além disso, obviamente estar muito bem preparado para uma jornada incrivelmente intensa; e que poderá consumir bem mais que o período de luz do dia.

Planalto do Itatiaia visto desde o Alto dos Ivos
Observando todos esses formatos, podemos concluir que, mesmo o formato de quatro dias hoje considerado excessivo por alguns era impensável trinta anos atrás! Quem dirá Serra Fina em três, dois ou em apenas em um dia...

E incrivelmente ainda hoje os formatos em um ou dois dias causam espanto em alguns; seja por gosto pessoal, capacidade física ou mesmo por influência da "mística" da Serra Fina!

Então, para ajudar a "desmistificar" este lado indomável da Serra Fina apresento este relato da Travessia em 2 dias. Com isso mostramos que com um pouco de dedicação é possível realizá-la nesses moldes sem grandes dificuldades. Porém é um modo que exige do caminhante boa vivência em trekking e disposição para atividades mais intensas.

Esta foi uma etapa do projeto Trilhando 12T, que tenho colaborado na liderança nesse ano de 2016. Não descreverei detalhes da rota da Travessia nesta postagem, pois isto já é amplamente abordado em outros relatos aqui no Blog. Focarei apenas no andamento da nossa pernada, que poderá orientar eventuais interessados em realizar a rota no mesmo formato.

Serra Fina em 2 dias


Rota disponibilizada no Wikiloc (2015 - porém trata-se do mesmo trajeto)
Além de possibilitar estudar e visualizar a região, você poderá baixar este tracklog (necessário se cadastrar no Wikiloc); e utilizá-lo no seu GPS ou smartphone (necessário instalar aplicativo). Recomendamos que utilize esta rota como fonte complementar dos seus estudos. Procure sempre levar consigo croquis, mapas, bússola e outras anotações que possibilitem uma aventura mais segura. Melhor planejamento: Melhor aproveitamento. Recomendável que leia este relato para melhor compreender esta rota.
Pratique a atividade aplicando os Princípios de Mínimo Impacto


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Resumo

Quilometragem Total: aprox. 30 km, sendo 13 km no primeiro dia; e 17 km no segundo dia.
Objetivo: permitir comparativo, procurando demonstrar que não há necessidade de correrias para realizar a Travessia da Serra Fina em 2 dias.
Número de participantes: 10
Ritmo da caminhada: Normal
Tempos de paradas: Além dos tempos marcados nas tabelas abaixo, foram várias as pequenas paradas, sejam para breve descanso, fotos ou ajeitar de alguma coisa.

Primeiro dia - Da Toca do Lobo à Pedra da Mina

Travessia da Serra Fina em 2 Dias
Pontos e Horários
Primeiro Dia
Pontos de Passagem
Horários
Sítio – Início da Caminhada
08h55
Toca do Lobo – Início Oficial
09h15
Ponto de Água – Chegada
10h00
Ponto de Água – Partida
10h15
Quartzito – Crista
10h30
Descanso entre Cotovelo/Avançado
11h25
Fim do Descanso
11h45
Capim Amarelo – Chegada
12h25
Capim Amarelo – Partida
12h55
Camp Avançado
13h35
Camp Maracanã – Chegada
14h00
Camp Maracanã – Partida
14h20
Cume da Crista
15h25
Região do Melano
16h00
Cachoeira Vermelha
16h50
Rio Claro
17h35
Pedra da Mina - Cume
18h30
























Considerações do primeiro dia
Condições climáticas: nublado, com vento e frio.
Visibilidade: prejudicada, com muita neblina
Trilha: úmida e escorregadia em alguns pontos.
Vegetação: rebelde e molhada.
Erro principal: Atraso no início da viagem em BH. Programávamos partir às 23h00 cravadas, mas somente deixamos BH após 00h00 do dia 30 de abril. Com isso chegamos em Passa Quatro beirando 7h00. E ainda tínhamos que embarcar no resgate e seguirmos para o início da Travessia...

Segundo dia: Da Pedra da Mina à BR 354 Pierre

Travessia da Serra Fina em 2 Dias
Pontos e Horários
Segundo Dia
Pontos de Passagem
Horário
Partida da Pedra da Mina
08h45 
Chegada ao Vale do Rhuá
09h10 
Final Vale do Rhuá - Água
10h10 
 Mirante do Vale das Cruzes
12h00 
Cupim do Boi - Chegada
12h15 
Cupim do Boi – Partida
12h25
Camp Bambuzal
12h40 
Pico Três Estados - Chegada
13h20
Pico Três Estados - Partida
14h15
Camp Bandeirante
14h50
Camp e Base Alto dos Ivos
15h30
Alto dos Ivos - Chegada
15h55
Alto dos Ivos – Partida
16h25
Parada Aglutinação
17h15
Reinício
17h30
Mata Atlântica
17h40
Ponto de Água
18h25
Sítio do Pierre
19h00
BR 354 - FIM
19h40


























Considerações do Segundo dia
Condições climáticas: tempo aberto e ensolarado, temperatura agradável.
Visibilidade: excelente
Trilha: predominantemente seca.
Vegetação: rebelde e não molhada.
Erro principal: Atraso na partida da Pedra da Mina. Programávamos partir às 0700 cravadas, mas somente deixamos o cume às 08h45. Com isso ao chegarmos na mata atlântica após a descida do Alto dos Ivos a noite caiu. E ainda tínhamos um bom trecho pela frente... Também exageramos no tempo de descanso no Pico dos Três Estados.

Importante:
Ao analisar os tempos, basta focar no horário do início da caminhada. Iniciando mais cedo em ambos os dias poderá tranquilamente terminar a tarefa diária com luz do dia. E veja, sem correrias!

Cabe salientar que somos adeptos do Trekking praticado em ritmo normal, pois julgamos que trekking não se limita a apenas simples 'passagem'. Defendemos a caminhada cadenciada de modo a permitir observações, descobertas, análise de terreno e descanso.

Em sua maioria, acreditamos que o trekking baseado apenas em volume gera pouco ou menor conhecimento ou experiência em reconhecimento; sendo recomendável apenas em ocasiões ou circunstâncias específicas.

Serviço

► Para informações sobre distâncias, como chegar, logística e outras informações sobre esta Travessia visite a postagem Travessia da Serra Fina Tradicional
► Leia também informações FAQ sobre esta Travessia em Serra Fina - Perguntas e Respostas

Considerações Finais

► Trilhas 1: No trecho entre a Toca do Lobo e a Pedra da Mina a trilha é mais batida, fruto principalmente das várias provas de corrida de montanha realizadas no trecho.
No trecho entre a Pedra da Mina e até a descida do Alto dos Ivos a trilha é um pouco mais fechada, com vegetação beira trilha mais rebelde.
O trecho final que se aproxima do Sítio do Pierre, percorrido por sinais de uma antiga estradinha e que até tempos atrás era bem aberto e limpo ora se encontra com vegetação beira trilha bastante alta, em formação vigorosa e bastante teimosa.

► Camping: Não há camping estruturado na Serra Fina. O que exitem são áreas onde é possível armar barracas. Para o caso específico da Travessia em 2 dias o ponto recomendado para pernoite é no topo da Pedra da Mina.

► Pontos de água - recomendações de coleta para formato em 2 dias:
  • Ponto de água na subida do Quartzito
    Ponto 1: Córrego da Toca do Lobo: ao lado da Toca do Lobo. Coletar água apenas para a parte inicial da Travessia.
  • Ponto 2: Cachoeirinha no Quartzito: a aproximadamente cerca de 1h00/1h30 de caminhada acima da Toca do Lobo. Coletar água suficiente para até o final da tarde.
  • Ponto 3: Rio Claro: localizado na base da Pedra da Mina. Coletar água apenas para passar a noite no cume.
  • Ponto 4: Vale do Rhuá: após a descida da Pedra da Mina e ao vencer o trecho do Vale do Rhuá. Coletar água para praticamente todo o restante do dia.
  • Ponto 5: Antes do Sítio do Pierre: coletar água somente para garantir o término da Travessia.

► Travessia em 2 dias - principais vantagens:
  • Pode ser realizada em apenas um fim de semana - sábado e domingo;
  • Pode ser menos suscetível à condições climáticas desfavoráveis, uma vez que, sendo em menos dias, há maiores chances de janelas de tempo firme;
  • Pode-se ir bem mais leve, pois exige transporte de menor número, peso e volume de equipamentos, vestuário, alimentação e água.

► Travessia em 2 dias - principais desvantagens:
  • O caminhar se alonga por todo o dia;
  • Os tempos dedicados à curtição e contemplação são reduzidos;
  • Naturalmente perde-se a oportunidade de pernoite nos cumes do Capim Amarelo e Três Estados.

► Requisitos para realização em 2 dias: Qualquer pessoa em boas condições físicas e de saúde; que pratique trekking regularmente e tenha experiência no transporte de cargueiras está apto a realizar essa Travessia em 2 dias. Como exemplo, no nosso caso, dos dez participantes, apenas dois já haviam estado na Serra Fina em outra ocasião; além deste que vos escreve, que já esteve por lá em vários momentos. Os outros sete estavam ali pela primeira vez; e alguns deles iniciaram no trekking a menos de dois anos.

De toda forma, mantemos a opinião que, havendo tempo disponível, para uma primeira visita à Serra Fina vale a pena realizar a Travessia em 4 dias; pois desse modo há tempo com sobra para descanso, reconhecimento e curtição do lugar.

► Recomendações específicas principais:
  • Em ambos os dias comece a caminhada cedo, no máximo em torno de 7h00;
  • Vá o mais leve que for possível;
  • Não é necessário caminhar apressadamente. Caminhe em ritmo normal, apenas cuide-se para não exagerar nas paradas para descanso. Esforce por fazer paradas curtas e apenas algumas em no máximo em torno de 30 minutos.
  • Não é necessário transportar grande quantidade de água. Cerca de 1 a 2 litros no máximo são suficientes.

► Atenção especial:

A neblina é comum na Serra Fina
Este relato e informativo não é um incentivo a visitas desprogramadas ou despreparadas à Serra Fina. Apesar de atualmente a rota apresentar trilhas definidas, trata-se de um lugar isolado, com acesso complicado, micro-clima específico, vegetação rebelde e uma enormidade de aclives e declives, alguns deles consideráveis.

Por isso é uma rota que exige experiência em caminhadas de longo curso; e inclusive entendimentos em navegação. Portanto, caso seja iniciante e não tenha experiência em trekking de longo curso, continue a praticar. Adquira equipamentos específicos; se prepare para a realização da empreitada e preferencialmente vá com alguém mais experiente ou contrate os serviços de um condutor específico.

Em hipótese alguma vá à Serra Fina como se lá fosse um parque urbano; ou uma trilha básica e simplória. A Serra Fina é grandiosa e espetacular; mas também pode se tornar um ambiente hostil para quem não esteja suficientemente preparado! 


► Pratique a atividade aplicando os Princípios de Mínimo Impacto

Bons ventos!

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