A geração montanhista corcunda!

O montanhista moderno na sua habitual posição

GPS e afins são fundamentais. Vieram facilitar as ações
Mas ao usuário convém alimentar os equipamentos com
o fruto do estudo e planejamento próprios; de modo
a garantir o domínio sobre o aparato; e não o inverso

Atualmente aventurar-se pela natureza tornou-se uma prática muito mais acessível do ponto de vista da navegação. São muitos os aparatos e aplicativos dedicados, além de muitas informações disponíveis. Essa evolução é positiva. Por outro lado essa facilidade tem levado o praticante a desenvolver elevada dependência, tocando para escanteio a natural criatividade e a capacidade de solução de problemas. Será possível estabelecer uma medida?

Não faz tanto tempo realizar uma travessia era de fato um desafio. Informações escassas e quase nenhum equipamento para navegação transformava qualquer atividade numa ação complexa; que exigia do praticante um bom grau de formação, experiência e capacidade de tomadas de decisões. Isto porque muitas das condições e ações somente poderiam ser conferidas in loco. Era o tempo da navegação exclusivamente por carta e bússola, somados a mais alguns "rabiscos em papel de pão"...

Apesar dessas dificuldades, era um tempo em que se explorava mais e se ousava mais, mesmo que nessas ações estivesse presente elevado grau de necessidade. Por consequência se curtia mais, se alegrava mais, se vivenciava mais! Montanhistas qualificados eram forjados diretamente no front!

Pois bem, a tecnologia evoluiu rápido. Hoje desde o conforto das nossas casas é possível "ver o mundo"; traçar, pesquisar, baixar e aperfeiçoar rotas. Nos permite realizar estudos avançados de determinadas áreas com precisão milimétrica e ausência quase total de surpresas. Ao colocar em prática os planos, gps dedicados, dezenas de aplicativos e até sistemas de rastreamento se encarregam de tornar a atividade muito mais precisa no tempo e no espaço.

Porém, hoje notamos menor vivência, menor ousadia, e até menor alegria no Montanhismo. Nos tornamos automatizados e mais medrosos! Ousamos menos e realizamos menos; mesmo tendo à disposição grande variedade de ferramentas facilitadoras e imensas áreas brutas Brasil afora. Frente a esta percepção nos sentimos curiosos. Por que isto ocorre?

Dentre as muitas razões, observamos que a atual facilidade no acesso e uso das tecnologias tem nos podado a criatividade; reduzindo as realizações a exaustivas repetições absolutamente idênticas e engessadas. Criou-se tamanha dependência em relação ao aparato tecnológico que o simples investigar, descobrir e curtir raríssimas vezes são efetivados. 

Priorizamos a prática por volume, pautada por uma rigidez absurda e cercada de medos. Tornou-se normal apresentarmos cabeças constantemente voltadas para as palmas das mãos; cujo pânico está a menos de um metro da obrigação! Ao final de uma jornada não conseguimos sequer afirmar a direção sem consultar nosso comando hi-tec! Absurdamente estamos nos tornando uma "geração de montanhistas corcundas"!

A passos largos também nos tornamos uma espécie de seres de segunda classe; súditos cujo rei é o aparato tecnológico; que ausente de sentimentos guarda e ordena o caminho a seguir! E essa realidade tem se apresentado com um agravante; em que cada vez mais grupos de praticantes são liderados por discentes e docentes da "Unicorcunda"! Tudo isto nos parece contraditório!

Amigos, é preciso que reflitamos. A tecnologia veio para nos ajudar; é nossa aliada. Ninguém em sã consciência anseia um "retorno às origens rudimentares" da carta e bússola; nem guarda saudosismos! O que nos é fundamental é mudarmos nossa atitude. Precisamos de fato comandar a tecnologia; e não sermos por ela comandados. E isto é possível: esta é a medida; e não há outra! Do contrário podemos de imediato iniciar os preparativos para os funerais do Montanhismo!

Bons ventos!

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