Congonhas do Norte a Extrema

A primeira queda do Conjunto do Barbado (ou Virgens)

Diferente de outras regiões Brasil afora, como a Mantiqueira, o Espinhaço permite rotas em praticamente todas as direções, resultando numa infinidade de possibilidades. Isto favorece customizar um giro com fins específicos. Foi com esse olhar que no final de 2019 realizamos a costumeira e preguiçosa volta de Fim de Ano. Dessa vez caminhamos das proximidades de Congonhas do Norte à Extrema, região Centro Norte de MG. Na oportunidade visitamos e curtimos um bom número de atrativos em reduzido espaço geográfico.

Relato Dia 1

Deixamos BH beirando 2h00 do dia 28 de dezembro. Viagem tranquila, porém um pouco demorada devido as rodovias sinuosas. Aproximava das 6h00 quando desembarcamos no Centro de Congonhas do Norte, cidade localizada a aproximadamente 210 km ao norte de BH. Nosso objetivo era tomar um café nalguma padaria local, já que o ponto inicial da caminhada seria no meio do nada.

A histórica Matriz de Santana de Congonhas do Norte

Uma busca e paramos todos na Padaria Pão da Terra, numa rua à direita antes da Praça da Mariz. Nos enrolamos por ali e beirava às 7h00 quando reembarcamos. Cruzamos a Praça da histórica Matriz de Santana e logo saímos ao final do casario, tomando a estrada de terra que segue rumo a BR 259, cidades de Gouveia, Presidente Juscelino e outras.

Uns 4 km desde a cidade entramos numa saída estreita à esquerda que leva para o alto da Serra Talhada, região de Mariazinha. Uns 50 metros e teríamos que cruzar a velha ponte de madeira sobre o Ribeirão Congonhas. Desembarquei e logo constatei a ponte um tanto duvidosa, faltando umas tábuas nas extremidades. Nosso transportador também. Para evitar a fadiga melhor era não passar ali...

Sem demora um morador próximo também nos alertou sobre a situação daquela passagem. Estão nos sugeriu uma passagem mais ao Sul, que estava sendo utilizada como alternativa pelo trânsito local. Cogitei em desembarcar em definitivo ali no Congonhas, mas desejava adiantar a pernada um pouco mais...

Reembarcamos e retornamos uns 300 metros pelo mesmo trecho da ida. Entramos à direita na primeira bifurcação. Vicinal ruim, apertada, sinal de pouco trânsito. Passamos em frente a algumas casas e tocamos adiante. Mais à frente notei discreta saída à direita. Incrédulo não imaginei fosse ali; mesmo sendo óbvio o sentido. Tocamos mais um pouco e chegamos próximo a uma outra residência.

Lá nos informaram ser lá atrás, na saída discreta observada o ponto correto para a subida da serra. Retornamos e ao chegar no ponto exato desembarquei pra inspecionar as coisas. Vi ser possível, cruzamos uma tronqueira e seguimos pela vicinal precária, que mais parecia um sinal pelo pasto. Chegamos até a outra ponte sobre o Congonhas. Também num era lá essas coisas. Desembarcamos por precaução. Ao final a passagem foi feita sem problemas.

Reembarcamos e tocamos estradinha acima, cortando a matinha ciliar. Despontamos em campo aberto e rapidamente interceptamos aquela estradinha que deveríamos ter percorrido se a ponte primeira estivesse transitável. Tocamos à esquerda em aclive. Bastaram poucos metros para constatar o quão ruim estava a vicinal. Bem certo não conseguiríamos ir muito acima. 

Casa à esquerda da vicinal
Local pouco acima do desembarque

Dito e feito: cerca de 1,5 km acima concluímos que deveríamos parar por ali. A estradinha estava de fato intransitável para veículos comuns. Desembarcamos às 8h20 pouco abaixo de uma residência, próximo à uma mirrada passagem de água. O tempo estava nublado, abafado, indicando um dia calorento.

Beirava às 8h45 quando despedimos do nosso resgate, prometendo nos encontrar 5 dias depois. Tralhas nas costas seguimos serra acima pela vicinal, percorrendo o aclive mediano. Nosso sentido seria o Sul, mas antes teríamos que finalizar uma ferradura à norte para atingir a cumeada mais baixa da Serra Talhada. Seguimos tranquilos, afinal ainda era o esquenta.

Pouco mais de 20 minutos de pernada e passamos a cortar uma mata. A sensação de calor aumentou bastante dada a umidade do lugar. Batia às 9h40 quando chegamos ao topo do morro, um trecho onde a Serra Talhada se alivia. Seguimos a vicinal à esquerda, pois a saída à direita segue para a fazenda próxima, vista desde a vicinal.

A Fazendinha à direita

Cruzamos uma porteira e a vicinal se nivelou. Mais alguns poucos metros e beiramos uns cochos de boi. Pouco à frente deixaríamos de vez a vicinal. Era até nesse ponto que planejávamos chegar embarcados, mas vicinais são assim mesmo, nos pegam de jeito...

Rumo Sul: trilha pela grota rasa

Apenas uma discreta trilha de vaca à direita em suave declive. Era ali, no campo aberto o ponto ideal para se deixar a vicinal e tomar rumo definitivo ao Vale do Barbado, nosso objetivo daquele dia. Pouco antes das 10h00 sigo atento observando o ponto mais adequado. Encontrado adentrei ao campo; à direita. Seguimos em diagonal e em suave declive. 

Logo mais abaixo a trilha se firmou. Sim, era uma trilha antiga, quase apagada que seguia no rumo Sul. Observo à oeste, do outro lado de uma área úmida - o Córrego Taquari - um rancho em ruínas, com vegetação destoante. Me lembrei de ali ter me abrigado durante uma tempestade anos atrás... Aproximamos de um bonito conjunto de afloramentos em torno de 10h00 e por ali resolvemos fazer uma primeira parada para descanso e uns comes.

O tempo estava parcialmente nublado, um pouco abafado; porém os arredores estavam descobertos. Estávamos numa grota rasa, tendo à nossa direita o magro Taquari, um afluente do Cedro, que por sua vez deságua no Rio Preto. À esquerda o conjunto de encostas da Serra Talhada; que se prolongava para o Sul; nosso rumo!

A pequena lagoa

Beirando 10h20 retomamos a pernada, seguindo pela desgastada trilha em suave declive pela grota rasa do Taquari; rodeado por parca matinha. Cruzamos um rego d'água e prosseguimos. Adiante margeamos uma pequena lagoa pela direita, mantendo o panorama.

Aproximamos de uma matinha ciliar bem à nossa frente. Desembocou discreta trilha vindo da encosta da esquerda. Aproximamos do curso d'água à direita e cruzamos a matinha no trecho mais estreita. Saímos num pequeno campo rodeado por afloramentos.

Nesse ponto poderíamos tomar o Oeste (direita) e sem trilha definida descer margeando o Taquari; atingindo a Cachoeira do Barbado ou das Virgens que estava cerca de 300 metros abaixo; no patamar inferior. Lá seria a região do nosso primeiro dia de descanso. Porém caminhar com cargueiras entre afloramentos e por passagens em desescalada não seria desejável.

Ademais, após a cerca velha que rasga o pequeno campo adiante junto ao desemboque de novo ramo de trilha vinda do leste há uma antiga passagem rumo ao vale. Restava saber como estava! Se estivesse ruim era só prosseguir na trilha para o Sul e fazer o contorno bem adiante; para então voltar e atingir a área da Cachoeira.

Cruzamos uma porteira velha e fui observando a velha saída à direita. A primeira saída me pareceu bem suja; então fui atrás da saída secundária. Mas estava pior. Como o desvio aumentaria nossa pernada em mais de 3 km, retornei à primeira saída. Iniciei a descida em busca da passagem mais limpa. É um trecho curto, então valeria a economia!

Barbado pro rumo do Rio Preto

Retiro do Barbado pra banda Norte

Identifiquei a velha passagem, porém estava tomada pela vegetação e até se misturando à drenagem. Prosseguimos com cuidado. A vista para o Oeste no Vale do Retiro do Barbado era uma beleza que só. Vale imenso, recortado pelo curso d'água do Cedro e sua mata ciliar em meandros. O rasgo por onde desce o Rio Preto era observado mais à esquerda, ainda um pouco distante. Finalizava uma grande e destacada formação recoberta por sei lá quantos zilhões de afloramentos...

Dois palitos e a descida já era...

Mais ou menos no meio da encosta identifiquei a velha passagem que em diagonal dava lá no curso d'água das cachoeiras. Retornei e tomamos à esquerda, em declive acentuado. Mais uns poucos metros e saímos na área plana, finalizando a descida. Agora era só escolher o melhor ponto para nos instalar!

O tempo estava excelente, agora com o sol brilhando forte. Tocamos numa trilha velha para o Norte e observamos pouco à frente uma moita de árvores. Pronto, por volta de 11h30 chegávamos próximo à Cachoeira, local onde passaríamos o restante do dia e a nossa primeira noite; afinal pernada de fim de ano é feita pra caminhar pouco e curtir muito!

Passamos a escolher os lugares e cada qual foi se ajeitando. O trecho é um recorte do Vale, à margem esquerda do Taquari; próximo ao seu encontro com o Cedro; outro afluente do Rio Preto. Estávamos no sopé da encosta, cerca de 50 metros da Cachoeira do Barbado (ou das Virgens). Instalados, cada um a seu tempo foi até a Cachoeira para vivenciar o lugar.

Veja se num é uma beleza!

Este é um ponto isolado, poucas pessoas passam por ali. A Cachoeira do Barbado (ou das Virgens) é um conjunto formado por três quedas no curso do Taquari. Na verdade uma delas - a primeira é apenas um poço com pequena corredeira.

A maior das quedas é a terceira, com aproximadamente 15 metros, cuja água desliza e despenca pelos veios de rocha em meio à vegetação. Seu poço não é grande!  Soma-se viçosa matinha ciliar nos arredores. Essas características nem sempre são as desejáveis para uma cachoeira, mas incrivelmente ali é um lugar incrível. Talvez o isolamento explique essa mágica energizante!

De riba pra baixo

Escalaminhando pelas rochas na margem esquerda se atinge o topo da Cachoeira. Vista bonita dos arredores; aquele vale imenso! A partir do topo, cruza-se o curso d'água pelas rochas.

Eita, que colorido bonito

Parcial do Poço e do Vale do Barbado

Escolhendo as melhores passagens, após uns 50 metros se atinge a segunda queda do conjunto. A queda é menor que a terceira, mas o poço é bem maior e aberto. Suas cascatas são atingíveis, formando espécies de bancadas para refresco. Grande lugar; particularmente até mais bonito que a queda principal! 

Ainda sem trilha definida, subindo as margens do curso d'água se atinge o que seria a primeira queda do conjunto. Na verdade trata-se de um outro poço, com pequena corredeira. Esse poço já é bem próximo à porteira do pequeno campo, cuja passagem havíamos feito mais cedo.

Aproveitamos para explorar os arredores desse conjunto de grande beleza e curtir as cachoeiras com liberdade e sossego. Lugares assim nos fazem pensar em nada e isto é fundamental no Trekking...

Depois de muito curtir os lugares retornamos para o acampamento para mais horinhas de ócio. Fez um dia bonito, tarde ensolarada e um incrível por do sol naquele recanto do Retiro do Barbado! Como valeu estar ali!

Ah um acampamento

Lugar isolado, perfeito!

O tom da tarde!

Puro sossego

Ao entardecer parte da área onde estávamos acampados foi invadida por milhares de aranhas. Mais cedo já tinham sido observadas "abrigadas em bolos" nas árvores esparsas. Mas não imaginávamos serem tantas. Pareciam aranhas voadoras utilizando suas teias cuidadosamente amaranhadas nos galhos. E são destemidas! Tomando conta do espaço obrigou um amigo a mudar a casa de lugar! Enfim, a natureza é de fato surpreendente!

Bonito fim de tarde

Depois jantar e afazeres normais de um acampamento. Foi um dia intenso em beleza, descanso e curtição. Caiu a noite e o silêncio reinou absoluto. Noite renovadora!

Relato Dia 2

Após uma noite tranquila o dia 29 amanheceu nublado. Esse panorama não é estranho quando se está no Espinhaço. Sendo uma área estreita, alongada e mais elevada que Leste e Oeste é natural concentrar nuvens à noite. Ajeitamos as tralhas e pouco antes das 9h00 iniciamos a marcha.

Haviam duas possibilidades de saída em direção ao Rio Preto, nosso objetivo primeiro naquele dia. Optei a princípio partir pela margem direita do Taquari, para cruzar o Cedro logo abaixo, após o encontro das águas, evitando percorrer áreas de brejo na saída opcional oposta. Assim, cruzamos o Taquari e seguimos pela trilha da margem direita. Fizemos a curva acompanhando o leito.

Ao chegar no ponto de cruzada do Cedro isto não foi possível. Caminhei até o outro ponto de passagem e constatei que o leito estava profundo. Pelos vales do Espinhaço são comuns remansos; e muitas vezes pontos de passagem são modificados anualmente conforme o regime e volume das chuvas. Como tínhamos a outra opção preferimos ir confirmá-la; evitando nos lançar no remanso gelado logo pela manhã! Era preferível enfrentar o brejinho!

Então partimos para a segunda opção. Retornamos até a área do acampamento e seguimos no sentido contrário da chegada no dia anterior. Fomos margeando a matinha ciliar pela esquerda e rapidamente chegamos até o trecho de brejo.

Para nossa sorte o trecho não estava tão ruim como em outras ocasiões; e foi fácil cruzá-lo. Ás 9h20 já interceptávamos a trilha Norte-Sul próximo ao ponto que passaríamos se tivéssemos conseguido cruzar o remanso na primeira tentativa.

Os pilares continuam perfeitos

Cruzamos a trilha Norte-Sul e seguimos em diagonal, cortando o campo sujo do Barbado, pois a trilha interceptada leva para um curral próximo, ao Sul. Buscávamos chegar até uma antiga passagem no Cedro, onde há algumas ruínas de antigos pilares de uma ponte.

Seguimos por uma velha e discreta trilha e aproximamos de uma cerca de arame. Cruzamos a cerca e a seguimos acompanhando. Despontando em nível superior para o curso d'água  observei as ruínas poucos metros abaixo. Era a passagem desejada.

Esta é uma passagem curiosa porque não há sinais de estrada por ali. E os pilares são grandes, indicando que em tempo de chuva o volume de água é grande pelo trecho. E aparentemente estão em perfeito estado.

Sem dificuldades procedemos a cruzada do Cedro pulando as rochas. Na margem direita cruzamos uma cerca velha e interceptamos a trilha da margem direita Leste-Oeste.

Lindo vale. Sinais recentes de fogo

Lindo vale. Sinais recentes de fogo

Seguimos pela trilha no rumo Oeste. À nossa esquerda está o ponto exato do desemboque do Cedro no Rio Preto; lugar escondido pela mata ciliar. Seguimos pela trilha batida em suave declive. Adiante cruzamos uma boa fonte de água, que imagino ser o Congonha. Região muito bonita, emoldurada por grande morros de afloramentos. 

Eita! Rio Preto de Pirapama

Rio Preto de Pirapama

Mais alguns metros de caminhada e às 10h00 chegamos até as primeiras cascatas do Rio Preto. Aliás, dali pra baixo o Rio Preto presenteia o visitante com um sem número de cascatas, remansos e poções. Uma beleza!

O sol ameaçava sair de vez. Então logo fizemos uma primeira parada para curtir o lugar; desalojando algumas capivaras que preguiçosamente tomavam o café da manhã! 

Rio Preto. Segunda leva de cascatas

Rio Preto: Paisagem do Espinhaço

Mais cascatas no Rio Preto

Passava das 11h00 quando nos ajeitamos, pegamos nossas mochilas e com roupas apropriadas seguimos mais alguns metros pela trilha da margem direita. Paramos outra vez para curtir outro conjunto de cascatas e poços no Rio Preto. Sim, esse trecho do Rio Preto é um lugar espetacular; não poderíamos passar em branco!

Rio Preto visto da trilha

Rio Preto visto da trilha

Depois de tanta preguiça, beirava 13h00 quando juntamos as tralhas e partimos de vez do leito do Rio Preto. Seguimos pela trilha antiga, com presença de cascalho e bastante irregular; cortando a encosta em diagonal declive. Cruzamos um trecho curto de samambaia e tomamos rumo Noroeste, distanciando do Rio Preto e abrindo visada para o Vale do Rio Preto e Serra do Cipó. 

A trilha agora em suave aclive seguiu rasgando um campo sujo; uma quase capoeira. Observamos rastros de moto pela trilha! Estabilizados e aproximando de um pequeno córrego, seguimos por alguns metros sem trilha definida. Cruzamos o riachinho numa passagem limpa. Aproveitamos para nos abastecer, afinal o calor daquela tarde já ardia os miolos.

Seguimos por poucos metros por uma trilha de vaca e pouco depois das 13h30 interceptamos pouco acima do Rio Preto a conhecida trilha da rota Norte x Sul que ligam Lapinha-Extrema para Fechados-Peixe-BR 259 etc.

Para facilitar a referência, a partir desse ponto entrávamos na rota da Travessia Extrema x Fechados, que já foi descrita em detalhes aqui no Blog. Então, doravante focamos o relato nos fatos; e menos em descrever as trilhas.

Interceptada a trilha Norte x Sul tocamos direto para a região do Córrego Samambaia. Seguimos pela trilha batida inicialmente pela margem direita do Rio Preto. Logo já margeávamos o Samambaia. Trecho sem variações na altimetria e pra nossa sorte com algumas árvores beira trilha. Isso era importante naquele calorão de fim de ano. Pouco depois das 14h15 atingimos a região do Córrego Samambaia.

Samambaia: estar ao lado dele foi um presente!

O terreno às margens do Córrego Samambaia não é o melhor para se instalar, mas com jeitinho foi tudo se encaixando. O leito mais fundo e o tempo firme também permitiam estar por ali. E a grande vantagem era estar ao lado de um remanso piscina com águas preguiçosas e absolutamente mornas; rodeado por amplas e comportadas rochas; e até um pouco de areia branca!

E foi pras águas que logo procuramos nos esbaldar, visando nos livrar daquele calorão de fim de tarde. Estava de fato torrando os miolos. Foi uma beleza; lugar abençoado! Ao final da tarde houve chuva pela banda sul na região, até uns trovões foram ouvidos. Mas não chegaram até nós. Enfim, foi uma tarde realmente proveitosa às margens do Samambaia.

Já escurecendo, janta. Mais tarde muito papo, clima divertido sobre a rocha ainda morna após um dia quente. Noite tranquila e recuperadora.

Relato Dia 3

O terceiro dia do nosso giro de fim de ano amanheceu parcialmente nublado. Mas rapidamente o sol começou a brilhar forte. Este seria mais um dia da preguiça, dedicado a curtir a Cachoeira da Samambaia e novamente o ponto do acampamento.

Parcial da Serra do Cipó à esquerda

Após os trâmites normais dum acampamento, por volta de 9h00 partimos para a Cachoeira, que estava a apenas 15 minutos do nosso acampamento. No trajeto tempo para observar a Serra do Cipó lindona naquela manhã!

Seguimos no rumo Norte e logo após cruzar o Córrego da Samambaia deixamos a trilha; nos deslocando pelo campo à direita. Trilha não há, mas foi só seguir o rumo do barulho da cachoeira e logo despontamos no conjunto de afloramentos, avistando a queda à Leste.

Toda singeleza da Samambaia

Com cuidado vencemos o trecho e às 9h20 botamos os pés na Samambaia. Sim, este é um recanto bucólico. Há muito desejava estar ali sem pressa e pressão de uma jornada. Trata-se de uma queda não alta, com um pequeno poço. Mas seus arredores são por demais bonitos.

Topo da Samambaia

A matinha ciliar, as rochas e a posição da Cachoeira são muito favoráveis. É um recanto preservado, gostoso de visitar. Aproveitamos para explorar os arredores. A parte posterior à queda guarda alguns pequenos poços e quedas capaz de satisfazer os mais exigentes. Ótimo para explorações e vivenciar horas de ócio!

Parte superior da Samambaia

Parte superior da Samambaia

Parte superior da Samambaia

Já a parte superior, que é atingida subindo as rochas na margem direita da queda principal guarda também outros pequenos poços e corredeiras. Muitos pontos para brincar à vontade. Além disso, a vista para a Serra do Cipó é ampla e muito bonita. O sol ilumina os espaços com plenitude, e por quase todo o dia. É um lugar único, por isso imperdível; justificando o tempo dedicado.

Parte superior da Samambaia

Fim de tarde de volta ao Córrego Samambaia

Permanecemos na Cachoeira da Samambaia até por volta de 14 horas. Retornamos então para o acampamento, afinal estar estático abre o apetite. Antes de 14h30 já estávamos de volta às casas à margem do Samambaia. Restante da tarde dedicado ao ócio nas piscinas locais; fazer comida, lavar algumas tralhas; enfim, mais uma tarde agradável distante do burburinho da cidade. Noite igualmente recuperadora e agradável.

Relato Dia 4

Levantamos cedo e tratamos logo de desarmar acampamento. Iniciaríamos nosso rumo de retorno em duas etapas. Nessa primeira etapa deslocaríamos para as cascatas do Rio Preto, outro lugar lindo naquela região; o qual já tínhamos passado próximo dois dias atrás.

O casario no Rio Preto:
Tudo sob a ótica do Mínimo Impacto

Em torno de 8h00 deixamos o Samambaia fazendo o retorno pela mesma trilha da ida. Pouco depois das 9h00 já estávamos no Rio Preto; na área para acampamento às margens de um rego d'água e da matinha ciliar. Ali seria nossa última noite de isolamento, também era o último dia de 2019. Chegar ali tão cedo e rápido para novamente armar casa causou até espanto nalguns...

Mas isto se justificaria porque ali seria o último grande conjunto de atrativos do nosso giro. Escapando dali não haveria outro sequer semelhante pelo trajeto, modos que não compensaria um deslocamento parcial para estar noutro ponto. E assim foi feito!

Cascatas no Rio Preto

Detalhe das Cascatas

Detalhe das Cascatas

O conjunto de cascatas e quedas do Rio Preto é muito bonito. São muitos os pontos, os poços, as corredeiras para se aproveitar; tudo concentrado num curto espaço, o que favorece os deslocamentos e possibilitam liberdades. E tem a vantagem da alta insolação em praticamente todo o dia. Por ali giramos o dia todo...

Remanso Prainha

Esse poço é gigantesco

Detalhe das várias pequenas quedas

Água deliciosa

Mais quedas

Outro ângulo

Gigante

Outro ângulo

Bucolismo no fim de tarde

Clássico do local

Estivemos primeiro nas cascatas principais, na porção inferior. Beirando a hora do almoço voltamos ao acampamento; quando observamos um pequeno grupo de caminhantes que seguiam rumo Sul após o Rio Preto. Depois dedicamos a tarde aos outros pontos, sempre com muita água. Ainda estivemos às margens do Rio Preto na prainha acima do ponto de passagem da trilha.

Chegada a noite fizemos nossa pequena comemoração de Ano Novo, com um jantar coletivo. Momentos divertidos, com muito papo, brincadeiras e até umas biritinhas saudáveis. Depois cama, já com a sensação de que o que é bom passa sempre muito rápido...

Relato Dia 5

Depois de 4 dias curtindo a região do entorno do Barbado, Samambaia e Rio Preto era hora do retorno. Pulamos cedo e já craques na lida rapidamente desmontamos o acampamento. Beirava 7h00 quando deixamos o lugar e cruzamos o Rio Preto tomando o rumo Sul.

Um olhar de até logo para o Rio Preto

A religiosidade é presença forte no interior de Minas

A trilha batida facilitava e a caminhada rendia. Dia parcialmente nublado, dando sinais de que logo o sol arderia de vez. Em torno de 7h45 já estávamos na Fazenda Pinhões da Serra. Tocamos em bom ritmo para pouco antes das 8h00 chegarmos ao ponto de água abaixo da Cachoeira do Moinho. Lá fizemos uma parada para descanso e abastecer. O sol brilhava forte e fazia muito calor.

A Casa do Batu
Fiquei triste com a ausência!

Uns quinze minutos e retomamos a pernada, que seguiu pelo trecho que alterna alguns aclives e declives suaves; além de curtos trechos sombreados. Aproximava das 9h00 quando chegamos a casa do Batu. Infelizmente o lugar perdeu um pouco do brilho desde o falecimento da Dona Cacilda e a mudança do Batu para Inhames.

Seguimos non stop.para próximo das 9h10 chegarmos a então magrinhas cabeceiras do Rio Preto. Local com uma boa sombra onde fizemos uma boa parada para descanso, lanche e lavar o calor da cara! A sensação de fim de pernada já batia forte!

Região das cabeceiras do Rio Preto
Ao fundo Serra Talhada

Perto de 9h30 retomamos a pernada. A trilha em nível nos leva a subir para o Campo Quadrado. Trecho mais íngreme do dia, porém curto. Em grupos seguimos cada qual no seu ritmo. Em torno de 10h00 já percorríamos o Campo Quadrado, um lugar muito bonito nas imediações da Serra Talhada.

Última subida do dia:
Vista para o Vale das cabeceiras do Rio Preto

Deixávamos de vez a visada das influências do Rio Preto. Prosseguimos então até a visada Leste, quando a região de Extrema se abriu aos olhos. Apesar do calor fizemos uma parada para descanso e apreciar da vista. Era perceptível a mudança no tempo. O calor abafado, nuvens em ronda, certeza que de um refresco aquele dia não escaparia.

Então melhor seguir... Beirava 10h40 quando iniciamos a descida do campo. É um trecho longo em declive mediano, mesclando trilha boa com alguns trechos em cascalho. Visada sempre aberta! A pernada rendeu e por volta de 11h30 chegamos até a Cachoeira Carapinas, localizada no Ribeirão Congonhas, nas proximidades da Casa da Dona Geralda. Este é aquele mesmo ribeirão da ponte danificada no início da pernada!

De novo o Congonhas nos surpreendia. Pela primeira vez após 5 dias de isolamento víamos uma aglomeração! A Carapinas recebia um bom número de visitantes, alguns pareciam ter acampado nos arredores. O fato nos causou um certo desconforto pq pretendíamos nos refrescar por ali. Estávamos desacostumados...

Mas isto também não poderia ser impedimento, afinal o que mais havia por ali eram espaços vagos. Assim fizemos uma parada e quem quis desceu até o leito do Congonhas para se refrescar. Quem não quis se abrigou numa sombra próximo à Casa da Dona Geralda, apesar dos carrapatos...

De todo modo, a lotação na Carapinas nos fez partir antes do programado. Perto de 12h10 retomamos a marcha, tomando rumo definitivo de Extrema. Após varar e suar nos campos abertos, pontualmente às 13h00 desembocamos na Estradinha Transamante, ponto do nosso resgate. Colocávamos então ponto final em nosso giro de fim de ano. Sucesso absoluto!

Tempo pra nos ajeitar, trocar a roupa suada; dar uma organizada na mochila, colocar chinelo nos pés... O tempo mudava rapidamente e uma chuvinha vinda do Sul era iminente. Nosso resgate chegou por volta de 14h00, próximo do combinado. Já prontos, logo embarcamos em viagem de retorno, a tempo de escapar de uma "poeirinha de chuva" que chegava nos arredores.

Não fomos até o arraial, partindo non stop para Conceição do Mato Dentro. Por ali apenas um molha goela, pois tudo estava fechado no lugar. Tocamos pela MG 10 e próximo das 16h00 já estávamos na Serra do Cipó, aonde procedemos um almoço tardio. O processo demorou um pouco e somente por volta de 20h00 encontrávamos sãos e salvos em BH!

Esse giro do fim de ano em 2019 foi especial. Primeiro a região visitada é belíssima, reunindo num curto espaço muitos atrativos. Segundo o clima colaborou, com o sol brilhando nas horas mais desejadas. E isto é raro levando-se em consideração 5 dias em pleno verão! E o fator decisivo, o clima entre os amigos sempre descontraído; leve, alegre, como são sempre as melhores pernadas. Ficamos muito gratos pela alegria da companhia e por ter vivido dias felizes longe da badalação, como sempre é o propósito dessa pernadinha anual. Excelente 2020 pra todos nós, nos vemos nas próximas, inté!

Serviço

Travessia com aproximadamente 45 km ligando as proximidades de Congonhas do Norte ao Arraial de Extrema (município também de Congonhas do Norte). Embora início e final esteja em Congonhas do Norte, a rota também percorre áreas do município de Santana do Pirapama. Ambos municípios estão localizados na região Centro-Norte de Minas Gerais.

Trata-se de um giro em formato de "C", que consiste em subir e cruzar a Serra Talhada mais ao Norte; percorrer áreas interiores no Retiro do Barbado e Vale do Rio Preto; para ao final cruzar novamente a Serra Talhada, mais ao Sul.

O trajeto é resultado da junção de trechos das várias rotas que cruzam a região: Congonhas x Inhames; Lapinha x Fechados, Extrema x Fechados, com algumas variações e adaptações, privilegiando a curtição de atrativos com menor deslocamento..

A paisagem da região é a típica do Espinhaço, tendo como atrativos principais o Rio Preto de Pirapama com seus muitos poços, cascatas e remansos; e as Cachoeiras do Retiro do Barbado (Virgens) e da Samambaia. É uma região isolada que concentra grande beleza cênica.

► A rota percorre áreas de particulares. Portanto, para realizar essa variante é necessária autorização de proprietários locais. 

Distâncias aproximadas

Cidade referência: Belo Horizonte

Belo Horizonte a Congonhas do Norte: aprox 210 km
Congonhas do Norte ao Início da Caminhada: aprox 4 km (estrada de chão)
Belo Horizonte a Extrema: aprox 210 km, sendo 6 km em estrada de chão (da Rodovia Conceição-Congonhas ao Arraial)

Como chegar e voltar

Cidade referência: Belo Horizonte

De ônibus
Ida: Viação Serro (31 3201-9662) até Conceição do Mato Dentro → Viação Serro de Conceição do Mato Dentro a Congonhas do Norte → Táxi ou à pé de Congonhas ao Início da caminhada, no acesso a Mariazinha
Volta: Táxi ou a pé de Extrema até Rodovia MG 10 → Viação Serro até Conceição do Mato Dentro → Viação Serro de Conceição a Belo Horizonte

► Faça consulta virtual ou telefônica à empresa de ônibus confirmando horários e frequências.
► Não há atendimento por ônibus no arraial de Extrema ou ao Arraial de Lapinha
► É possível contratar táxi para realizar os trechos locais. Basta combinar com antecedência.

De carro

Ida: MG 10 até Congonhas do Norte → Estrada de chão até Bairro, acesso 
Volta: Arraial de Extrema a MG 10 → MG 10 até BH

► Atente-se que início e final da Travessia se dão em locais distintos e distantes. Necessário programar resgate.

Considerações Finais

► Áreas particulares 1: Não há cobrança de ingresso, acesso, pernoite ou uso de trilhas pelo trajeto. Manter discrição em todas as ações; com postura responsável, ordeira e respeitosa. Sempre que possível buscar autorizações antecipadas para passagens. Na impossibilidade, aproximando de sítios, fazendas e similares informar sempre sobre suas intenções. Manter fechadas todas as porteiras e tronqueiras. Jamais romper cercas. Nunca provocar ou assustar animais e criações. Não abrir áreas para acampamento. Jamais realizar fogueiras. Manter consigo todo e qualquer lixo gerado.

► Áreas particulares 2: A rota percorre áreas de particulares. Para realizá-la é altamente recomendável obter autorização de proprietários locais.

► Trilhas e Trajeto: Junção de trechos das Rotas Congonhas x Inhames e Extrema x Fechados. Trajeto misto, apresentando trechos com trilhas amplas e batidas; outros com trilhas discretas e outros ausentes de trilhas. Também poderá incluir vicinais, dependendo da logística utilizada e condições de acesso. Não há sinalização. Há pontos com trilhas se cruzando e muitas bifurcações, requerendo atenção na navegação. Há aclives e declives, alguns íngremes e alongados. Há pequenos regos, riachos e rios a cruzar; que podem se tornar volumosos sob chuva.

► Experiência em Trekking: Evitar realizar essa rota de modo solo, em especial se apresentar pouca experiência em Trekking. O trajeto a partir do alto da Serra Talhada por mais simples que possa ser aos experientes pode apresentar surpresas. Paisagens pelo Espinhaço são muito parecidas e podem confundir e desorientar.

► Logística de Acesso 1: Início no Acesso à Mariazinha. Final em (nas imediações de) Extrema. Ambos locais em Congonhas do Norte. É possível chegar ao início e ao final de automóvel ou de ônibus; nesse caso complementando à pé a partir de Congonhas do Norte; ou de Extrema até a rodovia MG 10. Acessos mistos, com asfalto e chão batido. Também é possível a realização ao inverso.

► Logística de Acesso 2: embora apresente vicinal em situação precária, veículos 4 x 4 podem subir a Serra Talhada e chegar até a Fazenda Pinhões da Serra; ou até a Casa do Batu; ambas em localização próxima.

► Logística de Acesso 3: Caso dependa exclusivamente de ônibus para chegar à Congonhas do Norte ou sair de Extrema (ou vice versa), consulte horários e programe sua rota. Frequências reduzidas.

► Camping: modo natural. Nas proximidades do Rio Preto, entroncamento para Inhames é possível pernoite simples na Fazenda Pinhões da Serra - Fazenda do Lelo.

► Água: Há pontos de água pela rota, porém em época de seca muitos deles desaparecem. No trecho a partir da Serra Talhada há fartura de fontes. Iniciar sempre abastecido; ou o faça sempre que encontrar uma fonte. Use purificador!

► Exposição ao Sol: Intensa. Use protetor solar.

► Época de realização: O melhor período para realização é de abril a setembro; que é a época mais seca na região. No verão também é possível, mas esteja atento: Sob chuvas simples regos d'água ou mesmo naturais valas de drenagem podem se transformar em ribeirões volumosos pelo Espinhaço. Sob chuva pode-se impossibilitar realização: remansos e rios a cruzar. 

► Segurança - Escape: Até o Rio Preto retornar a Congonhas do Norte. A partir do Rio Preto há escapes para Inhames; ou mesmo Extrema. Ter em mente que em circunstâncias adversas os deslocamentos podem ser longos. Não há estrutura de busca e resgate na região. Não há sinal de telefonia celular constante pela rota; apenas em alguns pontos específicos. Não há obviamente terminais telefônicos.

►Segurança - Vestuário: Ao praticar Trekking prefira utilizar calças compridas e camisetas com mangas longas. Isto oferece maior proteção frente à vegetação e eventuais insetos; além de minorar a ação do sol.

► Atenção: Ambientes naturais abrigam insetos e animais selvagens ou peçonhentos. Isto é natural; é normal. Portanto, seja ao caminhar ou ao assentar esteja sempre atento. Ao manusear vestuário e equipamentos verifique com atenção se não há presença desses animais ou insetos. Também esteja atento quanto a presença de animais selvagens de grande porte; evitando assustá-los.

► Cash: em pequenas localidades aceita-se apenas dinheiro. Em Congonhas do Norte há serviços de hospitalidade. Em Extrema há bar, restaurante e camping simples. Nas proximidades do Rio Preto, entroncamento para Inhames é possível pernoite simples na Fazenda Pinhões da Serra - Fazenda do Lelo.

► Carta Topográfica: Presidente Juscelino


► Pratique a atividade aplicando os Princípios de Mínimo Impacto

Observação:
Cabe informar que as pernadas de fim de ano tem uma pegada diferente daquelas costumeiramente realizadas. Normalmente apresentam jornadas diárias encurtadas; por vezes até pontos fixos, pois visam a interação e a curtição de atrativos, sem a pressão de seguir adiante sob pena de não se encerrar o giro dentro do programado.

Bons ventos!

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