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Trilha do Algodão: discrição e beleza no Espinhaço

Buritis às margens do Riacho da Areia
Há no Brasil uma série de rotas clássicas e consagradas para a prática do trekking, algumas delas objetos de desejos de grande parte dos caminhantes. A maioria dessas rotas são localizadas no Espinhaço, Caparaó, Mantiqueira e Serra do Mar; que são as áreas principais do Montanhismo brasileiro. Foram e são percorridas a exaustão por anos seguidos. Isto não é ruim, pelo contrário, é um indicativo de que mais pessoas estão praticando trekking; e isto é ótimo! Porém, para aqueles mais rodados e que já tiveram a oportunidade de vivenciar as rotas clássicas do Brasil, evitá-las em feriadões tornou-se uma necessidade. Diria que chega a ser uma obrigação! A Trilha do Algodão localizada na região centro-norte do Espinhaço Mineiro é uma dessas opções de fuga das badalações. Trata-se de uma rota pouco conhecida, porém muito bonita e que nada fica a dever às suas irmãs mais famosas de Minas Gerais. Foi pra lá que nos mandamos no feriado de Corpus Christi 2016...

As velhas instalações da Tecelagem Santa Bárbara: suntuosa!!!
Incrivelmente desconhecida até mesmo dos montanhistas mineiros, a Trilha do Algodão tem origem na ligação entre a localidade de Biri-Biri, no município de Diamantina; e Santa Bárbara, município de Augusto de Lima. Antigamente a rota era utilizada como passagem de tropas que viajavam do Norte de Minas à Diamantina. Mais tarde, tecelagens iniciaram atividades em Biri-Biri e Santa Bárbara. Como não haviam estradas, tropas eram utilizadas também para transportar matéria prima e mercadorias entre as unidades, daí a origem do nome Trilha do Algodão. A era dos tropeiros entrou em declínio e a tecelagem em Biri-Biri encerrou suas atividades em 1972; mas a Tecelagem Santa Bárbara continua em pleno funcionamento, em um novo prédio em frente às antigas instalações. E claro, atualmente a rota da trilha permanece, mas apresentando alguns trechos em estradinhas vicinais.

Na ocasião dessa nossa viagem não estava nos nossos planos realizar a Trilha do Algodão por completa, iniciando a caminhada em Biri-Biri e findando em Santa Bárbara. Isto porque de Biri-Biri até São João da Chapada são aproximadamente 25 km. Apesar de ser um trecho muito bonito, isto alongaria por demais nossa pernada; uma vez que de Chapada até Santa Bárbara são mais 55 km. Além do mais, Biri-Biri mereceria uma visita exclusiva em outra ocasião. Então, faríamos o trecho Chapada a Santa Bárbara, permitindo caminhar de modo tranquilo, com tempo para descansar e curtir a rota.

Rota realizada e disponibilizada no Wikiloc
Além de possibilitar estudar e visualizar a região, você poderá baixar este tracklog (necessário se cadastrar no Wikiloc); e inclusive utilizá-lo no seu GPS ou smartphone (necessário instalar aplicativo). Recomendamos que utilize esta rota como fonte complementar dos seus estudos. Procure sempre levar consigo croquis, mapas, bússola e outras anotações que possibilitem uma aventura mais segura.
Quanto melhor for o seu planejamento, melhor será o seu aproveitamento.
Recomendável que leia este relato para melhor compreender esta rota.
Pratique a atividade aplicando os Princípios de Mínimo Impacto

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Acima, Matriz de Santo Antonio.
Abaixo, Capela Bom Jesus
Deixamos Belo Horizonte em torno de 00h00 do dia 26 de maio, quinta feira. Viagem tranquila, antes das 5h00 passávamos pelo Distrito de Guinda, localizado na margem esquerda da rodovia cerca de 10 km antes de Diamantina. Entramos à esquerda em uma discreta saída, cruzamos Guinda e tocamos pela estrada de terra sentido Distrito de Sopa, que também cruzamos. Continuando pela estradinha bem conservada, pouco depois das 6h00 chegamos ao Distrito de São João da Chapada. Estacionamos próximo à Igreja Matriz de Santo Antonio e ficamos aguardando a abertura da padaria local para tomarmos café.

O dia amanhecia parcialmente nublado e fazia frio no Distrito. Pelas ruas muitos cavalos dominando o pedaço. Aos poucos, alguns moradores começavam a dar as caras, deixando suas casas "encapotados"; partindo em busca dos seus afazeres!!! Beirando as 7h00 e já incomodados com o friozinho insistente, tocamos para a padaria, poucos metros acima da Igreja. Por lá nos enrolamos; mandamos pra dentro não sei quantos sanduíches, fizemos umas comprinhas, papeamos e somente iniciamos nossa caminhada às 7h50 daquela fria manhã.

Seguimos pela rua da padaria e entramos à esquerda para visitar a Igreja do Bom Jesus (branca, com portas, janelas e colunas verdes), que estava fechada. Então, tomamos a rua à esquerda e depois outra à direita, quando logo abaixo cruzamos uma ponte e o casario de São João da Chapada ficava pra trás. Encontramos com uma senhora descalça, com um grande feixe de lenha na cabeça àquela hora da manhã! Povo forte! Seguimos em aclive pela estradinha sentido Macacos; uma localidade rural à noroeste do Distrito de São João da Chapada.

Vista desde a estradinha. Serra do Galho em destaque
Logo adiante a estrada se nivela e vamos ignorando as saídas à esquerda ou direita; sendo ultrapassado algumas vezes por dois rapazes que em uma moto pareciam procurar algum gado. Em nossa companhia segue um teimoso cachorro, que faz me esforçar para fazê-lo retornar à Chapada. Pelo caminho sobressaem lindamente à oeste as serras que cruzaríamos naquele dia. Às 8h30 passamos ao lado de um cruzeiro à nossa direita, para logo a seguir passar por uma placa que indica a localidade de Correio à esquerda; bem como um bar afastado também à esquerda da estrada. Às 9h00 chegamos à bifurcação para Lapinha, uma localidade rural à oeste.

Cruzeiro à margem direita da estradinha. É inclinado mesmo...
Apesar de ser um trecho bonito e nada maçante de se fazer a pé, poderíamos ter chegado de carro até esta bifurcação para Lapinha. Como havia anos que não passava por ali, dias antes da Travessia conversei com uma fonte em Diamantina sobre o estado da estrada de Chapada até essa bifurcação. Fui informado que estava péssima; então por prudência preferi começar a caminhar em Chapada! Infelizmente não entendi as razões da informação errada! Lamentável...

Tomamos então a saída à oeste, pois a saída norte vai para o Rio Pardo e Macacos. Cruzamos uma porteira e fiquei na dúvida sobre a estradinha, a trilha da direita e uma saída mais à esquerda! Sinceramente não me lembrava de uma terceira saída por ali... Conferido o ponto tomamos o atalho, interceptando a estradinha logo adiante, na boca de uma mata que passaríamos a cortar.

Passagem no Córrego da Lapinha
A estradinha precária encontra-se muito melhor do que quando passei por ali anos atrás. Fizemos uma curva suave para o sul e saímos da mata, que continuou somente à nossa esquerda.  O tempo começou a abrir e o azul do céu passou a predominar. Ignoramos uma discreta saída atalho à nossa direita e seguimos pela estradinha. Pouco mais à frente chegamos até um ponto de água, que estava minguado e com péssima aparência; não sendo possível nos refrescar do sol que já ardia nossas cabeças. Aproveitamos para fazer uma parada para descanso e lanche, pois já beirava 10h00.

Pouco tempo depois retomamos a caminhada, cruzando o fio d'água e logo adiante uma porteira. Caminhando em nível, mais à frente tomamos a saída da direita em declive cruzando uma tronqueira. Às 10h20 aproximamos do Córrego da Lapinha, quando passou por nós um veículo 4x4 com alguns aventureiros de BH que iriam para um sítio logo adiante. Chegados ao riacho, que é afluente do Pardo Grande, fizemos uma parada para reabastecimento e tirar o suor do rosto. O córrego estava minguado, nos obrigando a ir até o remanso alguns metros acima da passagem para coletar água. Apesar de convidativo, ninguém se animou a entrar nas águas àquela hora.

Casinha nas proximidades do Lapinha
Retomamos a pernada e passamos por uma porteira junto a um sítio com sinais de uso, mas sem alma viva àquela manhã. Continuamos na estradinha precária que corta um amplo e belo campo no sentido norte até o ponto onde a trilha atalho que sai lá da matinha antes do Lapinha desemboca na rota. Passamos por uma área úmida que em tempos de chuva corre um fio d'água e tomamos o sentido oeste, quando encontramos com uma picape que transportava madeira e sempre vivas. Logo acima cruzamos uma porteira às 11h00 e seguimos pela estradinha precária.

Campo acima do Sítio e Córrego da Lapinha
Pouco à frente ignoramos uma saída à esquerda e seguimos pela direita. Em suave aclive, logo adiante há outra bifurcação, quando tomamos novamente a direita. A nossa visão para o norte é da Serra do Galho, que discretamente aparece com seus topos.

Rodeados por vegetação arbustiva, vamos sofrendo com o calor e somos obrigados a uma paradinha estratégica para refresco. Retomados, logo mais à frente tomamos uma trilha da direita, que é um atalho da estradinha que seguíamos. Fomos descendo suavemente, já observando no fundo do vale adiante o Rio Pardo Grande, com um sítio na sua margem direita.

Aproximando do Pardo Grande. Serra do Galho ao norte
A trilha se nivelou e interceptamos a estradinha que seguíamos desde a região da Lapinha, chegando na região do Campo dos Sampaio. Aproximamos do Rio Pardo Grande às 11h40 e tivemos que tirar as botas para cruzá-lo. Nesse ponto, o Pardo Grande não passa de um riacho com águas esparramadas por um largo leito de areia. É muito bonito, porém não permite banho, pois suas águas não passam das canelas. Dois intrépidos cães desceram do sítio e vieram ao nosso encontro, fazendo uma arruaça danada. Sentamos na margem direita do Pardo para recolocarmos as botas; travando uma luta para despistar os receptivos cães com alguns biscoitos...

O bonito leito do Pardo Grande
Como não havia sombra por ali, às 11h50 deixamos as margens do Pardo Grande e seguimos em aclive passando em frente ao sítio, onde não vimos pessoa alguma. Deixamos a estradinha em favor de uma trilha à esquerda que segue morro acima beirando uma cerca. Na quina da cerca ignoramos uma discreta saída à direita e mantivemos beira cerca. O pasto passa a dar lugar a formações arbustivas e seguimos doidos por uma sombra, que encontramos logo à frente; quando o relógio marcava 12h15, bem na hora do calorão. Esparramos por ali e a preguiça bateu geral...

Serra do Galho ao fundo
Somente às 12h40 retomamos a caminhada já que quase adormecemos por ali; e isto não seria boa ideia! Seguimos pela trilha entre arbustos e ao se nivelar interceptamos antiga estradinha à direita, que pareceu ser aquela saída lá da quina da cerca próxima ao sítio acima do Pardo Grande. Entramos em um atalho à esquerda, passamos por algumas rochas e logo à frente, em nível, interceptamos novamente a estradinha.

Ignoramos uma saída de trilha para o sul e seguimos em nível pela estradinha que não passa de dois sulcos no solo, rodeados por vegetação de cerrado. Eu sabia que teríamos uma opção de atalho à esquerda, descendo por trilha entre o cerrado. Mas preferi manter na estradinha à sudoeste, pois sabia que ela sairia aonde desejávamos. Porém, sem me recordar com firmeza do trajeto, preferimos voltar e interceptar a saída do atalho.

Acampamento no Vale do Capivara
Descemos atalho abaixo com vegetação arbustiva, mas por trilha bem marcada e passando por lages e alguns pontos úmidos. Ao nos aproximarmos do vale onde há algumas formações rochosas, tomamos sentido sudoeste, caminhando até uma cerca, onde há uma tronqueira. Foi aí que me lembrei que a estradinha dos dois sulcos lá de cima iria nos deixar ali, nessa tronqueira.

Cruzamos a tronqueira às 13h20 e a trilha marcada nos conduziu por uma passagem por capoeira estreita entre os afloramentos rochosos. Próximo das 13h30 despontamos em um vale bonito, tendo à nossa frente à oeste uma encosta de afloramentos rochosos, os primeiros da Serra do Tigre. Prosseguimos pelo campo aberto e aproximamos primeiro de um afluente e depois do Córrego da Capivara, após cruzar uma cerca velha. Rapidamente localizamos o antigo "porto" e o Marcus cruzou o córrego e foi à sua margem direita, definindo o local do acampamento. Girava em torno de 14h00 e era por ali, à margem do Capivara que passaríamos a noite.

Campos no Vale do Capivara
O vale às margens do Capivara é muito bonito, com um capim arroxeado macio e "sedoso". Alguns afloramentos rochosos servem como mesa. Á oeste, o morrote de afloramentos rochosos muito bonito. O Capivara, rodeado por uma matinha ciliar a poucos metros, com seus rasos poços propícios para se banhar. Enfim, lugar perfeito.

Com calma armamos as barracas e ficamos o resto da tarde jogando conversa fora. Tempo pra descansarmos da viagem desde BH, bem como da caminhada de 18 km até então. A tarde findou e fizemos a janta. Também chegou o frio, que nos obrigou a entrar nas barracas. Fez uma noite linda, límpida e estrelada...


Os campos acima do Capivara: trecho percorrido
2 A sexta feira amanheceu fria, com um orvalho feroz nas barracas e no capim do Vale do Capivara. O Sol brilhava animado, suficiente para secar as tralhas. Com isso, demoramos a nos ajeitar, porém isto não era problema, pois naquele dia caminharíamos um trecho menor que no dia anterior.

Somente às 9h30 começamos a deixar o lugar do pernoite. Tomamos uma trilha que parte do acampamento seguindo no sentido norte em direção a um filete de mata à frente, que esconde também um rego d'água. Tivemos que abrir passagem junto ao rego d'água, sinal de que a muito tempo ninguém passa por ali. Cruzado o filete d'água, caminhamos mais alguns metros pelo campo e interceptamos junto a alguns blocos de rocha uma trilha  no sentido noroeste.

Em suave aclive vamos subindo o vale, que vai se ampliando, sendo rodeado por morrotes. Uma paisagem muito bonita e típica do Espinhaço. Passamos por uma área úmida às 10h00 e seguimos na direção de algumas formações rochosas isoladas, margeando pela sua direita, aonde antigamente existia um rancho. Seguindo a trilha, mais à frente, passamos por nova área úmida e a trilha dá uma guinada ao oeste, margeando um outro morrote de afloramentos pela sua esquerda. Em suave aclive chegamos ao final da área de campos, quando encontramos a trilha obstruída por um poço d'água. Fizemos o desvio pela esquerda abrindo capim; e mais acima, já com vegetação de arbustos e esparsas árvores interceptamos a trilha. Fizemos uma parada para descanso às 11h00. Retornei com o Robson até o rego d'água para abastecer, apesar da água estar empoçada, mas era a única que dispúnhamos.

Essas rochas não estão aí ao "natural"...
Retornamos e às 11h20 prosseguimos na caminhada, adentrando em uma matinha mais fechada, rota para vencer a Serra do Tigre. Passamos ao lado de alguns buracos de rochas no barranco, tendo um fio d'água quase parada à nossa esquerda. Identifiquei um trecho de antigo "calçamento", um ponto em que os agudos cumes rochosos ressurgem na continuação da Serra do Tigre mais ao norte; recebendo o nome de Serra do Rio Preto.

A vegetação beira trilha vai nos arranhando e requer atenção, pois alguns arbustos são espinhosos. Passamos por outra área úmida pela capoeira e bastou mais alguns metros para chegarmos à virada da Serra do Tigre às 11h50, um ponto plano em que acampei a última vez que havia passado por ali. Esse local não possui água por perto, porém é muito bonito, com visual aberto, em especial da Serra Capão da Onça à oeste. À essa altura, o dia de céu azul tinha dado lugar ao nublado, mas sem sinais de chuva!

Ponto da virada da Serra do Tigre. Ao fundo, a Capão da Onça
Fizemos uma parada para descanso. Começamos a ouvir vozes animadas se aproximando. Subitamente apontou vindo pela mesma trilha que acabávamos de percorrer três cavaleiros e uma amazona, animados, conversando e rindo alto. As caras de surpresa foram recíprocas! Cumprimentos e os animados seguiram para o arraial de Santa Rita.

Foi quando a Stephanie notou que sua calça estava repleta de carrapatos. Me examinei de primeira e nada vi, mas reparando melhor minha calça estava também tomada por carrapatos micuim. Marcus também gritou que carregava muitos... Foi uma labuta se livrar dos guerreiros, tido como os mais ferozes e difíceis devido ao seu tamanho reduzido...

Serra do Tigre à esquerda; à direita, Serra Capão da Onça
Somente às 12h30 retomamos a caminhada dada a trabalheira para se livrar dos benditos carrapatos. Seguimos pela trilha batida em leve declive e entre afloramentos rochosos no sentido sudoeste. Cruzamos uma porteira e a Serra do Tigre se mostrou imponente à Sudeste, separada por terras baixas da Serra Capão da Onça à oeste. Um visual realmente muito bonito!

Retomamos o sentido noroeste e a trilha segue alternando suaves sobe e desce em leito arenoso. Avistamos lá embaixo no vale e um pouco distante um riacho caudaloso formando poços convidativos. Já era o Paciência, porém impossível de ser atingido àquela altura devido à pirambeira. Mais à frente, despontamos com visual aberto para o bairro de Santa Rita, destacando no alto do morrote a Igrejinha de Santa Rita. Fizemos uma nova parada para descanso às 13h20, afinal estávamos chegando ao final da nossa programada jornada.

Aproximando de Santa Rita
Às 13h40 prosseguimos, agora descendo entre árvores retorcidas e em direção ao vale do Córrego da Paciência. Despontamos em pasto aberto, com várias trilhas de vaca se cruzando; porém mantivemos a direção e em torno de 14h15 cruzamos o Córrego da Paciência pulando pedras; pensando em por fim à caminhada do dia.

Enquanto meus amigos ficaram aguardando, fui à primeira casa logo após o Paciência avisar que pretendíamos passar a noite por ali. Poderíamos caminhar muito mais naquele dia, mas não precisávamos correr, pois tínhamos mais dois dias para chegar em Santa Bárbara. Ao fundo ouvia uma música alta... Chegado à residência fui recebido com simpatia e liberado o pernoite no Paciência. Também me informaram que naquele fim de semana estava acontecendo a Festa de Santa Rita ali no bairro e fizeram o convite para irmos até lá... Estava então justificada a música alta que ouvia...

Córrego da Paciência e vista para o leste
Voltei aos meus amigos, deis as notícias e tratamos de armar as barracas no pasto plano à direita da trilha. Depois cada um foi tomar seu banho no Paciência. O Córrego da Paciência é um dos principais afluentes do Córrego Santa Rita, onde se esconde a bonita Cachoeira de Santa Rita, localizada bem ao norte de onde estávamos. Ali, no ponto de passagem forma vários e rasos poços, bons para se brincar, mas não permitem nadar.

Robson e Marcus aproveitaram o tempo para também ir até à residência próxima, mas para se informar se não havia nas redondezas algum bar. Voltaram com a boa notícia e ainda foram atrás do tal buteco existente na estradinha de Santa Rita, voltando com as encomendas de cervejas. Agora era descansar, forrar o estômago e à noite ir até a festinha de Santa Rita, porque ninguém é de ferro!

No Espinhaço não há lugar "feio" para passar a noite...
Beirava 18h30 quando deixamos o acampamento e fomos para a Festa de Santa Rita. Antes passamos pelo buteco para refrescar a garganta. Fatos muito engraçados ocorreram por lá. Depois, por volta de 19h30 tomamos a estradinha rumo norte e fomos pra Capelinha de Santa Rita, distante pouco mais de 1 km do buteco.

Festinha típica da zona rural, com fogueira, leilão, levantamento de mastro e caldo de mandioca de graça pra quem quisesse; além é claro, da 'marvada' em reservatório de bambu a deus dará, porque ninguém merece passar a seco... Havia bastante gente na festa, mas parte das meninas resolveram voltar logo para o acampamento. Nós outros ficamos mais um pouco por lá. Queríamos o forró, mas pelo andar do leilão que acontecia naquele momento a coisa iria demorar. Assim, por volta de 21h00 tratamos de retornar ao acampamento. Quase chegando ao acampamento topamos com as fugitivas da festa meio perdidas nas estradinhas locais... Nos juntamos e tocamos para o acampamento, aonde chegamos às 21h25 com o som da festa quebrando no Santa Rita. Doravante cama e descanso...

Das estradinhas de Santa Rita, as Serras do Tigre e Capão da Onça
que cruzamos e margeamos no dia anterior
3 O terceiro dia de pernada amanheceu parcialmente nublado. Ajeitamos as tralhas e partimos às 9h30 das margens do Ribeirão Paciência. Passamos pela residência local e em aclive fomos seguindo pela estradinha no sentido oeste, a mesma que havíamos passado para ir à Festa de Santa Rita. No cruzamento que vai para o buteco ao sul e a Capelinha ao norte passamos reto no sentido oeste. Passou por nós alguns veículos, pois essa estradinha é um dos acessoas à região da Santa Rita.

Um pouco adiante cruzamos uma porteira e mais à frente chegamos a uma trifurcação. Para oeste a estrada segue para Curumataí; a estrada que sai para o sul leva a um sítio. Nossa rota era a trilha, que sai à sudoeste beirando uma cerca de arame.

Nos campos do alto: Lamarão ao fundo
Seguimos em nível pela trilha marcada. Aos nossos arredores suaves morrotes, uma vista bonita para quem gosta do Espinhaço. Passamos por uma área úmida, porém sem água corrente. Aos poucos vamos nos aproximando do afunilamento do vale de pastos em aclive suave. Começamos então a percorrer a virada de uma bocaina com vegetação de cerrado e rodeada por afloramentos rochosos. Aproveitamos uma sombra e fizemos a primeira parada do dia às 10h30.

Retomamos a caminhada às 10h45 e passamos a percorrer um trecho de trilha com muito cascalho, que se amplia, se assemelhando a uma velha estradinha. Adiante, nos sulcos das trilhas os pés afundavam em areia fina, tornando a caminhada mais pesada...

Vale do Riacho da Areia e Serra do Lamarão ao fundo
Essas rochas parecem ter sido ajeitadas...
Ao começarmos um trecho em aclive, deixamos a rota batida que segue para o Sul (vai para Buriti) em favor de uma discreta saída à direita, para o oeste. Logo alcançamos o topo do morrote e o visual se abre à nossa frente, com uma ampla área de campos. Á leste, despedíamos visualmente dos topos da Capão da Onça. Seguimos pela trilha estreita em suave declive, ignorando alguns cruzamentos norte-sul e algumas paralelas.

Chegamos então a um ponto de água corrente às 11h30, o primeiro do dia, já próximo ao fundo do vale nas influências do Córrego da Areia. Fizemos nova parada pra descanso e reabastecimento. Por volta de 11h50 prosseguimos a caminhada. Passamos por novo ponto de água, uma cerca com passagem e logo à frente ignoramos uma saída à esquerda. Seguimos reto, com a trilha nivelada. Fizemos uma curva suave acompanhando o leito do Córrego da Areia, porém nos mantendo a aproximadamente 100 metros à esquerda deste. A trilha ora quase se apaga; ora surge mais forte. Passamos por trecho com capoeira e por um trecho úmido. Logo à frente e abaixo da trilha surgem formações rochosas dispostas em filas. Muito bonitas, pareciam propositais...

Singela nascente no Córrego da Areia
Prosseguimos a caminhada cortando o pasto em nível, com capoeira e afloramentos superiores à nossa esquerda. à nossa direita o Córrego da Areia ainda mirrado corre no fundo do vale, tendo à sua direita a pequena Serra do Lamarão. Por volta de 12h30 fizemos uma parada. Fui até o leito do Riacho da Areia para abastecer de água. Abasteci próximo a uma pequena nascente no leito do riacho.

Retornei aos amigos e os convidei a ver a curiosidade, pois era muito singela e bonita. Interessante que alguns nunca haviam visto uma nascente, mesmo pequena como aquela. Também me impressionei com o baixo volume de água do Córrego da Areia àquela altura. Às 13h00 retomamos a caminhada, para logo à frente dar uma guinada para o oeste, cruzando o Córrego da Areia pulando pedras pouco abaixo das suas quedinhas. Passamos por alguns lajeados e seguimos pelo campo aberto e em nível. Cruzamos uma tronqueira e passamos a ter a companhia de uma vereda de buritis à nossa esquerda. À nossa direita um morrote típico do Espinhaço, a borda sul da Lamarão.



Pequena amostra da grande vereda de buritis
Assim como ocorreu na singela nascente no Córrego da Areia, alguns de nós nunca havíamos visto uma vereda de Buritis. É algo realmente muito bonito e diferente daquilo que estamos acostumados a ver! A vereda é bem grande, acompanhando o vale do Riacho da Areia, formando poços escuros e proporcionando imagens belíssimas. Fizemos várias paradas para fotos.

Topamos com um cavalo solitário que de longe ficou a nos observar... Margeando a vereda, passamos por uma área com sinais de acampamento. Adiante a trilha se divide em várias, mas todas mantém a mesma direção oeste. Percorremos um solo seco e típico de áreas do cerrado, com um bonito mirante dos buritis.

Ponto em que se cruza o Riacho da Areia
Em uma curva suave para o norte acompanhando o riacho, reaproximamos novamente do Córrego da Areia, agora já em maior volume, alimentado pelas lagoas naturais do vale dos buritis. Chegamos então a uma estradinha às 14h50, quando demos uma guinada à oeste. Cruzamos o Córrego da Areia numa passagem rochosa. Pulando as rochas fizemos sem dificuldades, uma vez que o nível da água estava baixo.

Córrego da Areia desce pelas muitas rochas abaixo da passagem formando pequenos poços e quedas. Imediatamente após o córrego, cruzamos uma porteira e saímos em campo aberto. Fomos para à esquerda, nos afastando da estradinha e aproximando da margem esquerda do Areia. Era por ali que passaríamos a noite.

O que sobrou da antiga represa...
O local escolhido para a terceira e última noite era plano, próximo à água e muito bonito. Mas como havia gado no pasto, encontramos muito esterco esparramado no lugar, pois o bebedouro das vacas ficava ali no Riacho da Areia. Mas nos ajeitamos e deu tudo certo.

Antes do banho ainda fui até a represa no afluente do Areia, a uns quinhentos metros ao norte de onde estávamos, às margens da estradinha-trilha que segue para Curumataí. Deixei a barraca, cruzei a porteira e o Córrego da Areia e segui pela estradinha. Pouco adiante passei por uma casa à minha esquerda, beirei a cerca e me aproximei do afluente. A represa se rompeu uns 4 anos atrás, porém parte do paredão ainda está de pé. Também há por ali alguns bons poços para nadar. Bateu saudades da velha represa...

Bebedouro das vacas no Riacho da Areia ao entardecer.
Pernoitamos à direita, após as árvores
Voltei ao Areia no ponto de passagem e tomei o meu banho. Não fazia frio, uma vez que todo aquele dia permaneceu parcialmente nublado. Porém, ninguém se animou a curtir o grande poção do Areia ao lado do acampamento. Retornei ao acampamento. Tempo dedicado ao ócio e papo fiado, já com aquele cheirinho de fim de travessia.

Como no inverno a noite chega mais cedo, iniciamos os preparativos para a janta. A despeito do tempo nublado durante todo o dia, presenciamos um lindo por do sol, com as nuvens mais pesadas se dissipando... Um amarelão cobriu a paisagem e os paredões ao sul, moldura natural daquele campo baixo. Largamos tudo para curtir aquele tempo lindo de cair o queixo... Impressionante!

Entardecer desde o acampamento
Jantamos e a noite chegou! A temperatura caiu um pouco, mas nada de friaca. No Espinhaço não faz frio como na Mantiqueira! Mas foi um convite a saborear um leite quente com gengibre feito pela Teresinha, ótimo pra esquentar o corpo. Foram várias rodadas da bebida gostosa, levantando o moral! Também tivemos a curiosa visita de um bichano, que parecia ser uma raposa ou um gato do mato, não deu pra ver direito devido a escuridão. Depois cama, para fugir do frio; a tempo de escutar parte de uma aula de fotografia que o Marcus ministrava a alguns amigos... Me esforcei pra roubar alguma informação, mas acabei adormecendo...


Linda manhã às margens do Córrego da Areia,
próximo ao acampamento
4 O último dia de Travessia é um misto de "puxa, tá acabando" com a satisfação de completar mais uma jornada... O dia amanheceu mais aberto, com o sol dando as caras pra secar as tralhas e iluminar a bela paisagem nos arredores do Córrego da Areia. Já treinados de tanto fazer e refazer a mochila, às 8h30 começamos a deixar o acampamento.

Tomamos a estradinha que segue para Santa Bárbara. Na verdade, em alguns pontos trata-se de dois sulcos no solo e nada mais. Logo à frente observamos uma casa à direita da trilha, escondida pelo mato. Ignoramos uma saída à esquerda e às 9h20 chegamos até um casebre em ruínas. Fizemos hora por lá. Vários pés de laranja, manga, jabuticaba, bananeiras... Restos de cangueamento de boi, roda d'água, algum vasilhame e ferramentaria... Tudo está por lá, espalhado nos arredores do casebre, que ora foi invadido pelo gado. Fiquei pensando nas pessoas que um dia residiram por ali...

O casebre e um penico esmaltado encontrado nos arredores
Às 9h45 deixamos o casebre. Pouco abaixo cruzamos um córrego pulando pedras e tomamos um atalho da estradinha à direita, para logo adiante desembocamos novamente na estradinha. Passamos por uma divisa de cercas e começamos então a descer mais fortemente, rodeados por uma capoeira de cerrado.

A estradinha vira um mar de pedras, dificultando a caminhada! Bonita é a paisagem nos arredores, com um bonito morrote à nossa esquerda. A janela à oeste já se forma à nossa frente.  Sem saídas ou bifurcações a estradinha nos levou a aproximar novamente do Córrego da Areia; e às 11h00 chegamos na Barragem Santo Antonio. Trata-se de uma barragem construída para captação e abastecimento da Fábrica de Tecidos  Santa Bárbara e da sua Vila no entorno.

A Barragem Santo Antonio
Cachoeira Santa Bárbara vista da parte superior
Fizemos uma grande parada na Barragem Santo Antonio. Aproveitei para visitar as cabeceiras da Cachoeira Santa Bárbara e circular pelos arredores. Abaixo da barragem o leito do Areia é repleto de rochas, formando vários pequenos poços. Há várias quedas que escorrem pelas rochas. Depois as águas despencam num paredão maior, escorre pelas rochas e forma o grande poço da Cachoeira Santa Bárbara. Visual muito bonito. Enquanto circulava por ali vi apenas um casal de turistas que pareciam fazer uma seção de fotos e selfies...

Depois, retornei até a Barragem pela margem direita do Riacho, beirando a adutora de ferro. Existe uma trilha oficial que sai da cabeceira e permite acesso até a barragem, fazendo um contorno; porém é um pouco mais longa; e queria voltar logo à barragem para curtir a manhã de sol nas águas frias dos poços próximo ao dique. Ficamos jogando conversa fora e dando fim aos restos de petiscos da Travessia... Alguns até correram para fazer um almoço improvisado! Estávamos sozinhos na barragem, apesar de ser um domingo final de feriadão.

Parcial do histórico prédio da Tecelagem Santa Bárbara.
Atualmente é um espaço de eventos
Pouco antes das 13h30 ajeitamos nossas tralhas e começamos a descer para a Vila de Santa Bárbara. Cruzamos o ribeirão abaixo da barragem e tomamos a trilha ampla e sinalizada, que em declive nos levou diretamente à Vila de Santa Bárbara, aonde chegamos às 13h45. Parada para fotos em frente a velha fábrica de Tecidos Santa Bárbara, um prédio do século XIX que impressiona pelo seu tamanho. Seu interior foi reformado e adequado para eventos, utilizando peças da maquinaria da antiga fábrica. Em frente ao velho casarão, uma praça muito bonita e bem cuidada, rodeada por algumas casas e pelo novo prédio da Tecelagem Santa Bárbara. Um lugar belo e aconchegante!!!

Capelinha de Santa Bárbara
Uma das várias quedas que antecedem a Santa Bárbara
À contragosto, mas sem delongas, começamos a deixar a praça histórica da Vila de Santa Bárbara. Passamos pela Capelinha de Santa Bárbara onde fiz uma prece. Logo a seguir desembocamos na Pousada Sombras do Espinhaço, aonde fomos recebidos pelo Silvestre, que na sua paciência e gentileza nos serviu almoço, tira gostos e algumas cervejas. Trocamos boas prosas, inclusive com o Tiago Montes Claros, escalador e monitor de aventura do Águas de Santa Bárbara Resort Hotel que por coincidência havia nos ultrapassado de carro um dia antes lá em Santa Rita. Mundo pequeno esse!!! Enfim, tempo para comemorar a pernadinha tranquila e pra lá de gostosa que ora encerrávamos. Foi uma travessia exitosa, justificando a sua realização como opção de fuga à rotas badaladas dos feriadões. Excetuando os moradores locais, não cruzamos com nenhum aventureiro durante os quatro dias! De barriga cheia e já dando trabalho ao Silvestre, despedimos do lugar. Pouco antes das 16h00, cruzamos a cancela de acesso à Vila de Santa Bárbara e embarcamos em nosso resgate. Tocamos direto para Belo Horizonte, aonde chegamos por volta das 21h00.


Serviço

A Trilha do Algodão é uma Travessia com aproximadamente 75 km no sentido predominantemente leste-oeste, ligando Biri-Biri, município de Diamantina à Vila de Santa Bárbara, município de Augusto de Lima. Como grande parte das trilhas em Minas Gerais, suas origens remontam à época dos tropeiros, que cortavam a região vindo do norte de Minas para Diamantina. O nome Algodão refere ao transporte de mercadorias e matérias primas também em tropas entre duas tecelagens existentes em ambas localidades. A unidade de Biri-Biri fechou no início da década de 70; porém a unidade Tecelagem Santa Bárbara continua em funcionamento até os dias atuais.

Os artistas Alessandra, Claudia, Teresinha, Stephanie, Virginia,
Camila, Vanessa, Marcus, Ângela e o servidor Chico
Foto do Robson Oliveira, que obviamente não quis aparecer...
► Importante informar que nesta ocasião realizamos o trecho da Trilha do Algodão entre São João da Chapada e Santa Bárbara, totalizando aproximadamente 55 km.

A rota é um misto de estradinhas e trilhas. O trecho entre São João da Chapada e a bifurcação para a localidade de Lapinha pode ser percorrido por automóvel. A partir desse ponto, somente 4 x 4 é capaz de percorrer, podendo chegar com alguma dificuldade até a região da Lapinha. Em Santa Rita há um outro trecho em estradinha, que faz parte da ligação do Bairro. Já na parte final, apesar de existir uma estradinha precária, é impossível se percorrer com algum automóvel. Já os trechos de trilha, alternam alguns bastante discretos e outros mais marcados. Há trechos com vegetação beira trilha mais alta e em vários pontos há muitas trilhas que se cruzam, podendo ocasionar alguma confusão ao caminhante.

O relevo é o típico do Espinhaço, mas sabiamente a rota procura as junções de vales e campinas, resultando em uma rota com pouca variação na altimetria. Destaque para as Serras do Capão da Onça, melhor observada da região da Serra do Tigre e bairro Santa Rita; e a Serra do Galho, observada no início da Travessia e até a região do Sampaio. A Serra do Tigre é cruzada na divisão com a Serra do Rio Preto ao norte, pouco antes da localidade rural de Santa Rita. Já a Serra do Lamarão é observada na região do Córrego da Areia, próximo à vereda de Buritis. A vegetação predominante em toda a rota são os campos rupestres e as matas de galerias; muito embora apresente vegetação mais viçosa em alguns pontos úmidos e baixios; bem como uma grande vereda de buriti na sua parte final.

A Trilha do Algodão é uma rota com bons cursos d'água, embora cachoeira de maior volume se encontre apenas na porção final do Riacho da Areia, quando há também alguns bons poços formados por barragens de abastecimento da Tecelagem e Vila Santa Bárbara; sendo a maior delas a Santo Antonio, que permite muitas braçadas. Já a belíssima Cachoeira de Santa Bárbara localiza-se logo abaixo da barragem de Santo Antonio. É possível descer pelos lajeados e observar suas quedas e o seu poção lá embaixo. Porém, o acesso (pago) à Cachoeira é normalmente feito por baixo através do Resort Águas de Santa Bárbara, que é um complexo de hospitalidade muito interessante. Já a primeira barragem que servia à Tecelagem e que fica em um afluente do Córrego da Areia, à esquerda de uma trilha-estradinha nordeste para Curumataí, apesar do seu rompimento restou ainda alguns bons poços para banho.

Vereda de buritis
Na segunda passagem do Riacho da Areia há a formação de algumas pequenas quedas, também interessantes; bem como bons poços para banho nas proximidades do final da vereda de Buritis. No bairro Santa Rita, mais ou menos metade da trilha entre São João e Santa Bárbara, há ao norte uma linda cachoeira, a Santa Rita, porém localiza-se em ponto isolado e distante da rota, inviabilizando eventual visita quando se faz a travessia. Há também em Santa Rita o Córrego da Paciência, que forma alguns pequenos poços para refresco. Já o Rio Pardo Grande que é cruzado na região do Sampaio é ainda muito raso, embora já esteja com a sua característica marcante, que é o largo leito arenoso. Igualmente raso é o seu afluente, o Córrego da Capivara, cujos poços são sombreados e forrados por folhas de árvores da mata ciliar.

Como outros atrativos, o Distrito de São João da Chapada, distante pouco mais de 30 km da sede de Diamantina é muito bonito, com antigas casinhas que parecem cenário de cinema. Com origens na garimpagem, é lugar de grande riqueza cultural; atualmente com pouco mais de 3 mil habitantes. Já o final da Trilha é a Vila de Santa Bárbara, município de Augusto de lima, cujas origens se misturam com a da antiga tecelagem, que se encontra ainda em funcionamento. A antiga fábrica é uma construção suntuosa, que ora foi transformada em Espaço de Eventos, utilizando parte do antigo maquinário para construção da sua mobília, o que torna o espaço único. Cenário também de cinema! Nos seus arredores tudo gira em torno da tecelagem, que além das casas construídas para os funcionários da fábrica, mantém um resort na região, inclusive com fonte de água termal.

Distâncias aproximadas

Belo Horizonte ao Distrito de Guinda: 290 km
Distrito de Guinda a São João da Chapada: 25 km (estrada de terra)
Belo Horizonte a São João da Chapada: 315 km
Belo Horizonte a Diamantina: 300 km
Diamantina a São João da Chapada: 35 km
Santa Bárbara à rodovia BR 135: 12 km
Santa Bárbara a Augusto de Lima: 28 km
Santa Bárbara a Buenópolis: 27 km
Santa Bárbara a Belo Horizonte: 280 km

Como chegar e voltar - cidade referência: Belo Horizonte

De ônibus
Ida
Pássaro Verde até Diamantina → Empresa Transparente (38 3531-5117) até São João da Chapada

Volta
Táxi da Vila Santa Bárbara até Augusto de Lima → Empresa Gontijo de Augusto de Lima até Belo Horizonte

► Faça consultas virtuais ou telefônicas às empresas de ônibus confirmando horários e frequências.  A linha da Empresa Gontijo que passava na Vila de Santa bárbara encontra-se desativada. Se programe; pois se trata de uma região de pequenas localidades, com escassos horários de ônibus.

De carro
Ida
BR 040 até o Trevão → BR 135 até Curvelo → BR 259 até após Gouveia → BR 367 até altura do Distrito de Guinda → Estrada para São João da Chapada

Volta
Ligação Santa Bárbara à BR 135 → BR 135 até o Trevão → BR 040 até Belo Horizonte

► Atente-se que início e fim da Travessia se dão em locais distintos e distantes. Necessário programar resgate.

Hospitalidade

São João da Chapada
Rede de hospedagem em casas de família, gerando renda aos locais.
Pernoite, café da manhã, almoço e jantar. Informe-se no site acima.

Vila de Santa Bárbara
Pousada Sombra do Espinhaço → 38 3758-3046  e 38 99811-2515 | pousadase@gmail.com
Acomodações e Chalés. Pensão completa. Refeições avulsas e sob reserva. Atendimento dedicado.

Considerações Finais

► Trilhas: O trecho entre São João da Chapada e a bifurcação para a localidade de Lapinha pode ser percorrido por automóvel. A partir desse ponto, somente 4 x 4 é capaz de percorrer, podendo chegar com alguma dificuldade até a região da Lapinha. Em Santa Rita há um outro trecho em estradinha, que faz parte da ligação do Bairro. Já na parte final, apesar de existir uma estradinha precária, é impossível se percorrer com algum automóvel. Já os trechos de trilha, alternam alguns bastante discretos e outros mais marcados. Há trechos com vegetação beira trilha mais alta e em vários pontos há muitas trilhas que se cruzam, podendo ocasionar alguma confusão ao caminhante.

► Logística de Acesso: Há ônibus que liga Diamantina à São João da Chapada, mas somente um horário diário, à tarde. A estrada entre Guinda e São João da Chapada é de terra. Ao final da Travessia em Santa Bárbara tomar táxi para Augusto de Lima. Trecho todo asfaltado. Se informe na Pousada Sombras do Espinhaço.

► Camping: não há camping pela rota. Eventuais acampamentos são no estilo natural.

► Água: Tenha em mente os riachos da Lapinha, Pardo Grande (rio), Capivara, Paciência e Riacho da Areia; nesta sequência. Enquanto os outros são apenas cruzados, o Riacho da Areia fará companhia ao caminhante a partir das proximidades da Serra do Lamarão e até a Barragem Santo Antonio; ora sendo próximo, ora mais distante; inclusive sendo cruzado por três vezes. Também destaca-se o riachinho que corre aos fundos do casebre já na etapa de descida para a Vila de Santa Bárbara. O trecho mais longo sem água corrente perene é entre o Capivara e o Paciência, quando se cruza a Serra do Tigre. Os outros mantém certa proporcionalidade nas distâncias. Há algumas outras fontes de água pelo trajeto, porém na época mais seca do ano a grande maioria desaparece. Aconselhável pernoitar próximo aos riachos maiores e iniciar a caminhada abastecido para a jornada diária.

► Tempo de realização: para o trecho São João da Chapada a Santa Bárbara ser feito com calma o tempo ideal são três dias; com pernoites na Serra do Tigre (levar água) ou região; e nas imediações do Córrego da Areia, podendo ser no seu início, na região das veredas ou próximo à represa. Mas é possível fazer a rota de São João da Chapada a Santa Bárbara em apenas dois dias, com pernoite nas imediações do Bairro Santa Rita; onde corre o Córrego da Paciência. Já para iniciar em Biri-Biri e findar em Santa Bárbara, acrescente jornada de 1 (pelo menos) ou 2 dias (ideal). Na ocasião desse relato fizemos a travessia em 4 dias, mas porque estávamos com tempo disponível. Em todos os dias chegamos cedo nos locais escolhidos para pernoite; entre 14h00 e 15h30.

► Segurança: É uma travessia que permite rotas de escape, mas em todas elas as distâncias são consideráveis e por estradas vicinais precárias; pois a região não possui cidade estruturada nos arredores; nem serviço de ônibus coletivos. Na região das represas e Cachoeira Santa Bárbara redobre sua atenção a poços mais profundos. Também fique alerta a precipícios no leito do Riacho da Areia nas proximidades da Cachoeira Santa Bárbara. Cuidado ao se aproximar de eventuais poços na região da vereda de buritis.

► Exposição ao Sol: como é comum pelo Espinhaço, a trilha é exposta e há pouca sombra pela rota. Use protetor solar.

► Tarifas: não há cobrança para uso de trilha; nem camping, pois são ao estilo natural. Eventual acesso à Cachoeira Santa Bárbara ao final da Travessia é cobrado (R$10,00 junho 2016). Se informe na Pousada Sombras do Espinhaço.

► Comunicações: em São João da Chapada há sinal de telefonia móvel (Vivo).

► Cash: leve dinheiro trocado e em espécie. Pequenas localidades não aceitam cartões ou cheques.

► Cartas Topográficas: Diamantina e Corinto


► Pratique a atividade aplicando os Princípios de Mínimo Impacto


Bons ventos a todos!!!

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