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Sobre acidentes nas trilhas

Paisagem da Mantiqueira, um dos principais pontos de prática do Montanhismo no Brasil
A cada temporada temos notícias de várias ocorrências de acidentes durante a prática de atividades no Meio Natural; em especial no Montanhismo. Fato é que, impulsionados pelas redes sociais, esses acidentes tomam grandes proporções e suscitam acalorados debates. Tamanha paixão muitas vezes não nos permite analisar os fatos com clareza. São estes aspectos que resumidamente procuraremos abordar nesse artigo!

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1. O Meio Natural
2. Aumento do número de praticantes
3. As características principais dos novos praticantes
4. Os acidentes no Meio Natural
5. O Marketing Negativo
6. Os Sistemas de Busca e Resgates
7. O que fazer para minimizar as ocorrências de acidentes
8. Por fim, um apelo!


1. O Meio Natural
Apesar do Brasil não abrigar alta montanha; tampouco apresentar condições climáticas extremas, o País de grande dimensão territorial apresenta quadro natural bastante diverso; fator que potencializa eventuais ocorrências de acidentes. O conhecido relevo irregular; ampla rede hidrográfica; clima tropical; vegetação densa ou rebelde e a presença de animais peçonhentos são os fatores que dificultam e que merecem consideração ao se praticar alguma atividade na natureza.

Diante desse quadro, é altamente recomendável que o praticante de atividades ligadas ao Montanhismo tenha conhecimento e experiência suficientes para desenvolvê-las de modo exitoso. Já aqueles praticantes com nenhuma ou ainda pouca experiência nessas atividades devem procurar se aperfeiçoar, estudando e praticando juntamente a outros mais experientes; ou então contratando profissionais para auxiliá-los. Lembremos que, apesar de uma ilusória sensação de facilidades, as dificuldades naturais do Brasil podem ser enormes e subestimá-las é um erro crasso; quase sempre a causa primordial dos acidentes nas trilhas!

2. Aumento do número de praticantes
Apesar da ausência de estatísticas; e do atraso em relação a outros países, nos últimos 10 anos temos observado um aumento considerável do número de brasileiros que procuram o Meio Natural para a prática de atividades diversas, em especial aquelas ligadas ao Montanhismo. Isto é uma constatação extremamente positiva; pois o Brasil é um País farto em diversidade e beleza natural.

Diante dessa constatação, a régua é matemática: se há mais praticantes, em tese, maiores serão as chances de acidentes. Apesar dessa suposta equivalência e probabilidade; é altamente benéfico que o número de acidentes possa diminuir a cada temporada! Entretanto, mesmo que haja um número maior de ocorrências que em tempos passados - não temos estatísticas a esse respeito - não seria adequado podar ou penalizar o crescimento de uma prática tão saudável e oportuna!

3. As características principais dos novos praticantes
Pelo que observamos, os novos praticantes das atividades ligadas ao Montanhismo trazem consigo as características da nova geração: a curiosidade acentuada; a disposição para as multitarefas; o genérico conhecimento das temáticas; a busca individualizada pela satisfação e a intensa vivência com as tecnologias. Como tudo nessa vida, essas características apresentam muitos aspectos positivos; porém também trazem consigo pitadas negativas.

De modo concreto, apesar da grande disposição e interesse, os novos praticantes não cultivam grande paciência para a aprendizagem gradual a médio e longo prazo de quaisquer atividades. Para compensar, lançam mão das ferramentas tecnológicas à exaustão; pois para estes há uma "urgência no ar". Assim, ao iniciarem nas ações dentro do Montanhismo, preferencialmente já optam pelas grandes e até desafiadoras empreitadas. Na urgência, acabam efetivando planejamentos inadequados que levam a realizações solo; ou no máximo junto a grupos similares, cujo baixo nível de aprendizagem e experiência são latentes. No Meio Natural isto sim, pode ser um grande problema!

4. Os acidentes no Meio Natural
Quase a totalidade dos os acidentes no Meio Natural não apresentam causas únicas; e estão ligados à aqueles termos bastante conhecidos na legislação nacional de trânsito: a negligência, a imprudência e a imperícia. Normalmente interligadas, se analisarmos todos os acidentes a que temos notícias, fatalmente uma, duas ou todas essas três características negativas estarão presentes. Os resultados podem ser desde um leve arranhão a até mesmo um acidente fatal.

Resumidamente, a negligência consiste em não se preparar adequadamente para uma atividade no meio natural. A imprudência seria desconhecer as próprias condições físicas; subestimar a necessidade de materiais e as condições naturais de um local. Já a imperícia seria apresentar-se incapaz de adequadas tomadas de decisões durante a realização de uma atividade.

Porém, é conveniente esclarecer que, ninguém de nós apresentamos inteiramente isentos das possibilidades de ocorrências de acidentes. Isto se explica porque o Meio Natural apresenta variáveis de difícil controle por parte do ser humano. Pela sua natureza, o ser humano é inconstante e sofre seus desgastes naturais - ninguém tem a capacidade de permanecer ligado no modo (quase)perfeito a todo tempo! Isto explica em grande parte o fato de que acidentes não sejam novidades dos tempos atuais: sempre ocorreram e infelizmente sempre ocorrerão.

5. O Marketing Negativo
Em décadas passadas acidentes aconteciam com praticantes do Montanhismo e a maioria de nós nem tomávamos conhecimento; mesmo estando a poucos quilômetros dos fatos. Isto mudou radicalmente e rapidamente com a disseminação da internet; cujas redes sociais transformou cada um de nós numa estação de rádio! Atualmente, após uma ocorrência bastam poucos minutos e já tomamos conhecimento dos fatos; mesmo estando a milhares de quilômetros do local! Na maioria das vezes, ao invés de facilitar as tomadas de decisões positivas, essa agilidade nos traz uma série de complicações: "informações" truncadas, incompletas, imprecisas, conflitantes e até mesmo potencializadas negativamente. I

Imediatamente o assunto domina os grupos específicos na internet. Cada qual corremos para nossa time line para um furo informativo e demarcar de território. Opiniões pipocam e parecemos estar numa arena de futebol em final de campeonato! E como toda peça sensacionalista, majoritariamente as opiniões tendem à crucificação da vítima e daqueles que lhe fazem companhia! E lamentavelmente, uma fatia considerável dessas opiniões acaloradas são de profissionais ligados às atividades do Montanhismo.

Rapidamente passamos a ouvir o som das ondas preservacionistas e também daqueles contrários às liberdades de escolha. Nesse ano de 2018 lamentavelmente chegamos a ter notícias de manifestações com conteúdo xenófobo! Há ainda aqueles que aproveitam a "oportunidade" para se promover, divulgando e comercializando produtos e serviços; como "superempresas" com "superguias" de montanha com poderes miraculosos; rastreadores via satélite e até traslados e hospedagens... Ah, e ainda ressurgem os ditos "profetas do acontecido"...

Passadas poucas horas da ocorrência está formado o burburinho on line. Esse puxa-estica é o que poderíamos chamar marketing negativo! Os resultados são pessoas amedrontadas, acuadas e até desistindo do bonito praticar do Montanhismo. Ou seja, o Mkt Negativo relacionado a acidentes nas trilhas é um completo desserviço à comunidade; e levam o nada a lugar nenhum!!!

Isto não quer dizer que defendamos uma operação abafa dos fatos. Absolutamente não! Mas em respeito à vítima, que poderia ser qualquer um de nós; e para não tumultuar o ambiente; seria fundamental a prudência e o aguardar das manifestações oficiais antes de emitirmos quaisquer opiniões ou tomarmos quaisquer decisões. A princípio, o silêncio público se revela uma sábia decisão!

6. Os Sistemas de Busca e Resgates
Não há no Brasil um sistema organizado de buscas e resgates em áreas remotas, seja público ou privado. As razões podem estar ligadas à pouca tradição em atividades de montanha no País; bem como aos elevados custos e complexidades das operações dessa natureza. Desse modo, restam as forças de segurança e forças armadas as únicas referências ao se buscar auxílio em ocorrências nas montanhas.

Isto provoca grande discussão junto à comunidade, sobretudo no quesito custos. Há uma corrente que defende que toda operação de busca e resgate em Montanha deve ser custeada pelas vítimas. Outra corrente defende o contrário, alegando que dada à natureza pública dessas forças, estas estariam apenas cumprindo o seu papel.

Apesar do consistente argumento em favor do custeio de custos por parte das vítimas, o que em tese poderia inibir a frequência de inexperientes e desavisados para áreas remotas; isto nos parece exagerado. É bem certo que, embora a ida à Montanha seja opcional, não há casos comprovados de que alguém, mesmo que não possua experiência, tenha deliberado e intencionalmente posto à prática de atividades ligadas ao Montanhismo com o único objetivo acidentar-se ou tomar posição ignorada.

Por outro lado, apesar da menor possibilidade, acidentar-se não é exclusividade de praticantes inexperientes. E nesses casos, e somente nestes, eventuais vítimas teriam sofrido as ações do acaso?! Também é bastante difícil e complexo estabelecer uma clara diferença entre um acidente na montanha e aqueles ocorridos nas cidades, como incêndios, enchentes, quedas etc; uma vez que acidentes não são fatos consumados antes do evento!

Assim, apesar do "poder da caneta do guarda", como diz aquele velho ditado popular, pelo menos por hora defendemos que cabem às forças de segurança cumprir o seu dever de salvar e defender vidas; independente dos custos que isto possam acarretar. Talvez no futuro, com a entrada de agentes privados treinados e organizados possamos ter opcionais nesse sentido!

7. O que fazer para minimizar as ocorrências de acidentes
A chave está na formação e na informação; envolvendo entes públicos (Parques e afins); Entidades Representativas ligadas ao Montanhismo e ao Turismo de Aventura; profissionais atuantes no ramo (Guias Independentes e Empresas) e até mesmo ações desenvolvidas por praticantes mais experientes. Aparentemente fácil, o processo de formação e informação pode ser bastante complexo, pois envolve recursos humanos, materiais e financeiros; além de ser tarefa de longo prazo; sujeitos à receptividade daqueles interessados.

Porém, ações práticas como sinalização adequada de trilhas, artigos formativos amplamente disseminados e uso da tecnologia podem apresentar resultados positivos no curto prazo. Mas dentre todas estas ações, um aspecto é decisivo: nada substitui a convivência entre novos entrantes e aqueles praticantes mais experientes. O Montanhismo se faz com a prática comum, colaborativa e harmoniosa. Fora disso estará instalado um salve-se quem puder...

8. Por fim, um apelo!
Essa temática é vasta e não é nosso objetivo esgotá-la! Mas deixamos aqui os seguintes recados:

Aos novos entrantes no mundo do Montanhismo: Busquem por formação e informação antes de partir às ações. Estudem sobre os materiais necessários e sobre as ações adequadas para a prática responsável no meio natural! Estudem sobre o local que pretendem visitar: seus aspectos naturais, humanos e históricos! Busquem informações junto a Clubes, Federações, Órgãos Públicos; Internet. Não vá para o Meio Natural com o objetivo de provar algo para alguém; como se isto fosse um ato de grandeza. Não vá para o Meio Natural sozinho: preferencialmente procure alguém mais experiente para ser sua companhia; na ausência, contrate um Condutor Local! E estando junto à essa companhia, pergunte, observe, aprenda e apreenda conhecimento! Faça isto quantas vezes julgar necessário! E deixe de ser cabeça dura e pare de dar trabalho aos mais experientes e às forças de segurança!

Aos já experimentados no Montanhismo: Lembro das suas responsabilidades. Sejam exemplos! Sejam pacientes! Não ridicularizem os novos praticantes! Estejam acessíveis! Não neguem informações ou ensinamentos! Deixem de se julgar super, inatingível, acima de todo e qualquer perigo! Não cultive o orgulho! Não seja pedra de tropeço a ninguém: seja Montanhista! E seja gentil, mesmo que esteja na luta, partindo atrás de mais um novo resgate... E vibre por ser útil!!!

Bons ventos!