Capivari a São Gonçalo Via Cachoeiras

Cachoeira Maria Bruna antes das chuvas de fim de ano
Na virada do ano 2018 - 2019 programamos a realização de um Trekking pela região de Capivari, complementando com uma esticadinha final até São Gonçalo do Rio das Pedras; ambas localidades do município do Serro; região Centro-Norte de MG.

Como estávamos em plena estação chuvosa, o objetivo não era grandes e longas caminhadas; mas sim curtir momentos e aproveitar as cachoeiras da região; sempre mais volumosas nessa época do ano.

Porém, essa escolha enfrentava um desafio: unir algumas cachoeiras através de trilhas e fugir do fluxo de visitantes, que é sempre intenso naquela região nos feriados. Ao final, foi um sucesso!

Relato Dia 1


Deixamos BH no início da madrugada de 29 de dezembro, um sábado. Viagem tranquila, pouco depois das 6h00 desembarcamos no centro do Serro para um café na Padaria Zé Congonha. O clima na cidade era carrancudo e fazia até um friozinho.

Barriga cheia reembarcamos e tocamos rumo Capivari, aonde chegamos por volta de 8h00. O tempo continuava fechado, com o Pico do Itambé escondido pelas nuvens. Nada daquele costumeiro brilho das manhãs ensolaradas do lugar...

Fizemos uma parada no gramado da Igrejinha de São Geraldo, pois um amigo da região possivelmente se juntaria a nós. O tempo piorava e uma chuvinha fina começou a cair... Aguardamos um pouco e sem ter notícias rumamos para o início da nossa caminhada.

Cruzamos o arraial e na saída do vilarejo rumo Itambé um garoto saltou à frente do nosso transporte para nos impedir... Não! Nós não iríamos para a Cachoeira do Tempo Perdido naquele dia! Nosso objetivo seria a Cachoeira da Maria Bruna, localizada nas proximidades da trilha do Pico do Itambé.

Prosseguimos pela estradinha que úmida já apresentava lama em alguns pontos. Por isso, ao aproximarmos da bifurcação da Cachoeira do Tempo Perdido desembarcamos, pois não saberíamos como estaria a estradinha dali pra frente. Foi só desembarcar que a chuva veio forte e fria! Que sacanagem: Uma correria pra evitar molhar as tralhas!

Mas foi só pra amolar mesmo, porque logo a chuvinha se foi... Despedimos do nosso resgate e iniciamos a caminhada pela estradinha do Itambé beirando 9h00.

Logo adiante a confirmação do acerto do local do desembarque: no declive acentuado a estradinha estava bem enlameada, suficiente para "agarrar" nosso resgate... Animados prosseguimos a pernada rumo ao fundo do vale. Trecho absolutamente tranquilo e sem alterações.

Por volta de 9h30 cruzamos um riachinho afluente da Tempo Perdido no fundo do vale. Tocamos adiante pela estradinha do Itambé, que agora apresentava mais seca, pois a chuvinha havia ido embora de vez; cedendo lugar a um calor abafado.

Mais uns dez minutos de caminhada cruzamos uma porteira e chegamos à ponte sobre o afluente principal da Tempo Perdido, região do Poço Preto. Até aqui este é o caminho comum para quem deseja ir para o Pico do Itambé. 

Foto em 2017: Região oposta onde nos instalamos. Itambé ao fundo
Como nosso destino era a Cachoeira da Maria Bruna, logo após cruzarmos a ponte deixamos a batida estrada do Itambé e entramos à esquerda por uma trilha discreta.

Caminhamos por uns 100 metros pela trilha e chegamos ao local desejado para nos instalar. Trecho amplo e bonito com vegetação variando de rasteira a arbustiva, tendo um bonito paredão rochoso à nossa frente!

Aqui cabem dois esclarecimentos. Nosso objetivo era nos instalar o mais próximo possível da Cachoeira, mas devido ao indicador de tempo instável isto poderia não ser boa escolha, já que o local é sujeito a inundações.

A outra situação era que a princípio pretendíamos ligar a Maria Bruna à Tempo Perdido por antigas trilhas, mas descobrimos a tempo que isto não alegrava alguns proprietários locais. Então melhor não contrariar... Portanto, por essas duas razões quanto menos adentrássemos pesados rumo à cachoeira melhor seria, pois no outro dia teríamos que retornar pelo mesmo trajeto!

Assim, pedi aos amigos que aguardassem no local e me dirigi até a casa do morador próximo para solicitar autorização da nossa estadia e visita. Lá, um garoto muito esperto me levou até o Sr. Paulo, proprietário local, cujo sítio se localiza pouco acima do ponto aonde estávamos, à direita da estradinha-trilha do Itambé. Papo alegre e simpático; permissão concedida! Retornei até os amigos; claro trazendo um queijo fabricado pelo Sr. Paulo.

Assim, cumprindo o objetivo de caminhar pouco armamos acampamento à esquerda do início da trilha da Maria Bruna; pouco acima do que antigamente era um aplainado estacionamento.

Poderíamos ter adentrado um pouco mais, mas o mato alto e irregularidades no terreno eram dificultadores; além disso nos distanciaríamos ainda mais da nossa fonte de água. Mas o importante é que teríamos tempo de sobra para descansar da viagem e curtir a cachoeira!

Cachoeira da Maria Bruna
Depois de ajeitar as tralhas com calma, por volta de 11h30 partimos leves rumo a cachoeira. A trilha é curta; porém encontra-se bem suja.

Inicialmente percorre curto aclive, cruza uma velha porteira e se estabiliza. Imediatamente inicia o trecho em declive suave, permanecendo assim até a cachoeira. Há trechos em que a trilha praticamente sumiu entre o mato, mas um pouco de atenção é suficiente para não se desviar.

Sem sobressaltos, cruzamos um rego d'água e em torno de meio dia chegamos à Maria Bruna. O clima incrivelmente havia mudado: fazia sol e bastante calor...

Localizada no Ribeirão do Amaral, a Cachoeira da Maria Bruna é pequena na sua queda; e seu poço não é grande ou profundo. Porém, o conjunto do lugar é de uma beleza incrível!

A queda desce espremida pelo paredão rochoso e ao despencar forma um poço arredondado, com um banco de areia na extremidade direita. Seus arredores com paredões, afloramentos e vegetação relativamente preservada fecham o cenário isolado e encantador.

Apesar de não termos ido explorar esse trecho na ocasião, é importante informar que na continuação do curso d'água após a cachoeira há um pequeno trecho de terreno plano, misto de areia e afloramentos.

A partir do final desse curto terreno o curso d'água desce por um conjunto de lajeados, se estabilizando uns 200 metros abaixo. Já a margem direita do curso d'água o terreno é mais amplo, na verdade uma pastagem; e há possibilidade de se instalar nos períodos de seca.

Aproveitamos para curtir o lugar sem pressa e como imaginado ninguém mais apareceu por lá; cumprindo assim o objetivo de fugir dos pontos movimentados... A cachoeira apresentava bom volume de água, contrastando com o que normalmente se vê no tempo da seca. Houve até quem mergulhou sem querer por lá eheheh...

Pouco depois das 14h00 as nuvens cobriram o sol, bateu vontade de almoçar e um pouco do cansaço da viagem... Diante disso, percorrendo o mesmo caminho da ida retornamos ao acampamento; aonde chegamos por volta de 14h30.

Pra nosso azar, já no acampamento o sol voltou a brilhar forte e fez calor... Mas nos abrigamos sob as sombras das árvores pra horinhas de papo; aqueles momentos típicos que fazem valer a pena variar o estilo...

Estando relativamente próximos à estradinha do Itambé, conversávamos animadamente quando recebemos a visita de um curioso com seu filho. Estilo urbano e recém proprietário de terras locais, certamente estava preocupado com nossa presença eheheh...

Mais tarde, sob tempo firme e belo entardecer, banho no riacho, janta e descanso... Acabei dormindo mais tarde, culpa do papo bom do Thiago Betim... Foi uma noite tranquila e agradável, com variação de nuvens e sem chuva!

Relato Dia 2


O segundo dia da nossa diversão amanheceu parcialmente nublado. Levantamos mais cedo e às 7h30 da manhã já estávamos a postos para nossa jornada do dia. Seria um dia mais esticado, com visita às cachoeiras Tempo Perdido, Amaral e Três Marias.

Porém, antes de deixarmos o lugar o garoto morador ali próximo de onde pernoitamos chegou ao nosso acampamento juntamente com sua mãe. Traziam duas garrafas de café pra nós! Gentileza encantadora, algo ainda presente no interior e que nos faz refletir...

Após o café, surpresos e satisfeitos agradecemos aos amigos e iniciamos nossa pernada pelo mesmo caminho da ida no dia anterior. Isto contrariava o nosso desejo inicial, é claro; mas pretendíamos atingir a Tempo Perdido antes do clímax das visitações... E deu certo, pois chegamos ao posto de controle do lugar às 8h30, quando ainda não havia ninguém por lá.

Tempo Perdido (Foto de outra ocasião)
A Tempo Perdido é tida como a cachoeira cartão postal da região de Capivari. Particularmente eu não considero, mas é uma queda bonita.

Com poço raso e arenoso, a queda esparsa e mansa devido a pouca água do seu curso - a cachoeira praticamente desaparece na época da seca - permite banhos suaves... É mesmo graciosa! Seus arredores também são bonitos e até acho que poderiam melhor ser explorados... 

Permaneci no posto aguardando a chegada do proprietário enquanto os amigos desceram para a Cachoeira. Do posto de controle até a cachoeira são 5 minutos de descida pela ampla e limpa trilha.

Lá pelas 9h00 chegaram dois casais... Uns 20 minutos após chegou o proprietário, quando avisei da presença do nosso grupo para controle e pagamento dos acessos. Preferi permanecer ali pelo posto de controle e não desci até a Cachoeira!

Mais alguns minutos e os amigos começaram a retornar da Cachoeira, pois o lugar já recebia dezenas de visitantes. Fato é que agora automóveis quaisquer chegam sem dificuldades até o posto de controle da Cachoeira. Para nós amantes do Montanhismo isto é péssimo, pois quase sempre significa lotação do lugar e atropelos dos mais diversos... Melhor dar linha eheheh...

Aglutinados no posto de controle aproveitamos para comprar umas bebidas na bitaca local. Por volta de 10h00 deixamos o lugar; certo de que havíamos feito a melhor escolha e, mesmo que rapidamente aproveitado o lugar antes da lotação...

Tomamos a estradinha principal de acesso ao atrativo; que ora encontra-se bem arrumada, com trechos em concreto; algo feito justamente para facilitar o acesso de automóveis.

O sol já ardia e lentamente vamos subindo pela monótona estradinha empoeirada. Uns 15 minutos desde o Posto de Controle e quase ao final da subida, logo após uns afloramentos destacados à direita deixamos a estradinha empoeirada em favor de uma velha trilha corta-caminho que nos levaria até próximo a Cachoeira do Amaral.

Cruzei a cerca e percorri alguns metros no pasto sujo para identificar a trilha. Identificada não teve erro. Prosseguimos em declive sem dificuldades, apesar da capoeira nos arredores. Margeamos pela esquerda um morrote e sem alterações fomos descendo.

A certa altura a capoeira se fortifica, porém a trilha se transforma em restos de uma carcomida estradinha. Sem erro, o atalho nos levou às 10h40 ao lado da casa de um morador; já no acesso à Cachoeira do Amaral. Isto nos poupou uns 3 km de pernada por estradinha...

Queda principal da Amaral
Moradores sempre simpáticos, fomos muito bem recebidos. Deixamos as cargueiras ali na casa e tocamos rumo a Amaral. O acesso é simples e não oferece dúvidas. Às 11h00 já estávamos na Cachoeira.

A Cachoeira do Amaral estava bonita, com diversas quedas por toda a sua frente rochosa. Formada pelas águas do Córrego do Amaral (mesmo da Maria Bruna e do afluente da Tempo Perdido), o que muitos não agradam no lugar é que o poço na queda principal é um pouco mais sujo pela vegetação ribeirinha.

O Ribeirão do Amaral estava com bom volume de água
Mas isto não é problema, pois a parte superior da Amaral é um show. Há diversos poços, alguns bem grandes, suficientes para boas braçadas. Assim, parte dos amigos subiram pela trilha da margem esquerda da cachoeira e foram curtir a parte superior.

Permaneci ali mesmo na parte inferior, buscando um refresco rápido do forte calor. E cumprindo o script, somente nós estávamos por lá...

Pouco depois alguns amigos foram retornando às cargueiras, uma vez que o trecho era curto e simples. Nós últimos deixamos a Amaral por volta de 12h30; quando havia chegado por lá uma meia dúzia de simpáticos paulistas.

Em menos de dez minutos subimos pela trilha e chegamos novamente à casa do morador. Por lá alguns aproveitaram para almoçar; mas não era possível que todos fizessem... Infelizmente moscamos, porque poderíamos ter reservado quando chegamos ao lugar...

Sob sol forte em torno de 13h20 despedimos do morador e iniciamos nossa pernada. Seguimos pela estradinha de acesso, cruzamos um corguinho e logo à frente, após uma casa à direita entramos também à direita em uma bifurcação.

Inicialmente uma estradinha precária, mergulhamos em declive pela capoeira. Uns 15 minutos de caminhada desde o início deixamos a precária estradinha em favor de uma discreta saída à esquerda-oeste.

Queda e poço principal da Três Marias
A trilha batida logo se estabilizou e sem bifurcações nos levou até um trecho mais viçoso da capoeira. Desse ponto escutamos o ruído da queda da Cachoeira Três Marias, bem como de uma quedinha menor por perto.

Mas a trilha vai nos afastando da Cachoeira! Cruzamos uma tronqueira e saímos em campo aberto. Logo à frente, deixamos a trilha batida em favor de discreta saída por um lajeado, onde cruzamos um rego d'água. Mais acima do lajeado um corguinho formava um pocinho convidativo diante daquele calorão...

Três Marias com grande volume de água...
Após o corguinho tendemos à direita pelo pisoteio discreto e em poucos metros às 14h00 interceptamos a precaríssima estradinha que segue até a Três Marias. Dali fomos descendo pela estradinha encascalhada.

Parcialmente nublado, fazia um calorão abafado daqueles! Sorte que bastaram pouco mais de 10 minutos de caminhada para chegarmos à Três Marias. Era por ali que passaríamos aquela noite!

Localizada no mesmo Ribeirão do Amaral, a Três Marias seria a maior das cachoeiras que visitaríamos nessa ocasião.

Sua queda principal nem lembrava aquela fonte mirrada dos tempos de seca. Graças à temporada das chuvas seu poço se apresentava enorme! A parte superior da queda com seus outros e variados poços estavam todos repletos e convidativos. Além é claro da última queda, abaixo do poço principal, cuja cascata estava lindona. 

Fim de tarde com tranquilidade...
Armamos nosso acampamento no que antigamente foi uma terraplenagem, agora já tomada pela vegetação. E sem pressa aproveitamos para curtir o lugar, cada um ao seu estilo...

Chamou-nos a atenção uma casa de marimbondos na Janela da Cachoeira; além é claro de uma serpente flagrada pela Rosângela próxima ao acampamento. Fez uma tarde bonita, parcialmente nublada. Houve chuva na banda sul da região, mas nós passamos ilesos, somente com uma pingueirinha...

Ainda no decorrer da tarde definimos que permaneceríamos no lugar até lá pelas 11h00 do dia seguinte. Isto seria mais compensador que visitar outra cachoeira - Coqueiros - como estava nos planos, pois a relação tempo x deslocamento faria com que não dispuséssemos de tempo para curtir com calma a outra cachoeira. No mais, aquela foi uma noite bastante tranquila e recuperadora!

Relato Dia 3

O terceiro dia amanheceu parcialmente nublado. Como definido, somente deixaríamos o lugar depois das 11h00, então tudo foi feito sem pressa naquela manhã. Muito tempo para curtir a Cachoeira Três Marias, afinal com aquele volume de água não se poderia dispensar; ainda mais que estávamos a sós no lugar...

Terceira queda da Três Marias
Como programado, por volta de 11h00 deixamos o lugar pelo mesmo acesso da ida. Fazia bastante calor e com isso nossa subida pela estradinha precária foi lenta e preguiçosa...

Em uma estabilização intermediária passamos pela discreta bifurcação da Cachoeira dos Coqueiros e por duas tronqueiras. E tome subida pela carcomida estradinha; tudo acompanhado de um calorão sufocante! 

Depois de 1 hora de caminhada já estávamos quase ao final da estradinha de acesso da Três Marias. Porém precisávamos deixá-la em favor de uma linha imaginária à direita; visando interceptar a estradinha da Coqueiros justamente no ponto em que se inicia a Trilha para a região do Pico do Raio.

Observando com calma e chegados no ponto pretendido deixamos a estradinha numa guinada pra direita pela área de campo sem trilha definida. Cruzamos um ponto de água e logo acima nas rochas fizemos uma parada para descanso, afinal o calor estava de torrar...

Foto de outra ocasião: Mostra o Pico do Raio ao fundo; referência da Trilha do Raio
Lá pelas 12h30 reiniciamos a caminhada continuando a subir sem trilha definida entre os afloramentos. Mas foi um trecho curto e em 10 minutos desembocamos na estradinha da Coqueiros no exato ponto pretendido.

Caminhamos por uns poucos metros na estrada e tomamos a discreta Trilha do Raio à esquerda; que segue descendo suavemente pelo campo aberto no rumo oeste.

Logo a trilha se estabilizou e passamos por entre uma capoeirinha mais encorpada. A trilha batida toca rumo oeste, mas precisávamos tomar o rumo sul.

Atentamente tomamos uma saída discreta que logo se firmou; e entre arbustos seguimos em suave declive. Ao longe e ainda bem distante já era possível observar o Pico do Raio, nossa referência no trecho.

Na Trilha do Raio: Olha a chuva rodeando!
Pouco depois das 13h00 cruzamos um rego d'água aonde haviam galhos na passagem. Após, em suave aclive cruzamos um trecho com árvores mais encorpadas, porém esparsas.

Logo à frente saímos num amplo campo aberto. Aquela onda de calor que sentíamos desde mais cedo era prenúncio de chuva e ela começou a nos rondar insistentemente. Trovôes eram ouvidos e pros lados de São Gonçalo já chovia forte.

Seguimos num ritmo mais acelerado e cruzamos o campo aberto pela trilha discreta. Ao final do trecho encontramos com 3 rapazes que caminhavam no sentido contrário.

Também encontramos com a chuva fria e mediana! Colocamos as capas e até cogitamos ir nos abrigar na casa de um morador local que há no trecho; porém decidimos que o melhor era continuar a caminhada.

Ignoramos a saída que levava para a residência local e seguimos na trilha reta, que agora entrava em declive suave. Trecho um pouco confuso devido as várias trilhas, mas bastou marcar a direção e seguir.

Se não estivesse chovendo muito possivelmente iríamos passar a noite na margem do Capivari em um ponto bastante interessante, com vários poços e remansos. Mas àquela altura isto não parecia ser uma boa ideia; sobretudo porque chovia bastante pros lados de Capivari, e isto poderia subir as águas e nos causar problemas...

Pinguela no Capivari (Foto Tuca Máximo)
Sob chuva fina e sem alterações tocamos pela trilha que se estabilizou e cruzou todo o vale do Capivari. Aproximando do riacho cruzamos uma tronqueira e pontualmente às 14h00 chegamos ao Ribeirão Capivari. Suas águas davam sinais de subida!

Então cruzamos a pinguela que há no lugar e adentramos no terreno da casa do Seu Zé, localizada uns 100 metros acima. Enquanto alguns amigos permaneceram por ali, fui até ao Seu Zé solicitar permanência no lugar. Como sempre fui muito bem recebido e autorizado nosso pernoite-acampamento.

De volta aos amigos, surgiu-nos uma dúvida se acampávamos do outro lado próximos à Cachoeirinha, porém optamos pelo lado que chegamos, próximo à pinguela, uma vez que o terreno é mais amplo e plano.

Sob chuva fina armamos acampamento. Essa situação não é muito agradável porque sempre acaba molhando algumas das nossas tralhas e depois dá um trabalhão danado pra secar... Mas era o que tínhamos pro momento! E assim foi feito.

Jantar de Fim de Ano. Foto Tuca Máximo
Aquela chuvinha fina persistiu por algum tempo nos obrigando a permanecer nas barracas. Ninguém se animou a ir pro Ribeirão Capivari, exceto alguns corajosos como o Thiago.

Aliás, o riachinho transbordou, com água passando sobre a pinguela que havíamos cruzado a pouco. O bacana foi poder jogar conversa fora com o casal Dona Maria/Seu Zé. Eles são sempre muito simpáticos e acolhedores. Alguns até conseguiram um banho por lá!

Como aquela seria a nossa última noite no mato; sob incentivo da Rosângela, Tuca e outros amigos nos reunimos e compartilhamos a comida, com cada um ajeitando uma parte. Com isto foi bastante divertida a nossa noite de reveillon!!!

Aliás, foi uma ótima passagem de ano; demos muitas e boas risadas eheheheh... Só fiquei um pouquinho preocupado porque a Tamires estava com forte dor de cabeça. Mas segundo a mesma logo mais tarde melhorou...

Relato Dia 4


Nosso último dia de trekking amanheceu como os outros todos: parcialmente nublado! A jornada do dia seria curta e isto era proposital, afinal enfrentaríamos uma longa viagem de retorno e não pretendíamos chegar tarde em BH. Assim, tratamos de ajeitar as tralhas logo cedo.

Por volta de 8h00 despedimos do Seu Zé-Dona Maria e botamos os pés na trilha rumo São Gonçalo do Rio das Pedras.

Cachoeirinha no Capivari
O trajeto é simples e batido; e não oferece pontos de dúvida; pois é praticamente visual; ou seja, pouco depois do início da caminhada se verá o objetivo: São Gonçalo. Cruzamos uma pinguela abaixo do curral do Seu Zé e iniciamos suave aclive no rumo norte, onde antigamente já houve uma estradinha.

Na verdade o trecho é o contorno do Pico do Raio, onde ao tomar rumo sul já se vê São Gonçalo ainda um pouco distante. O céu foi logo se abrindo e o sol começou a brilhar; indicando mais um dia de calor! Porém, por ser ainda cedo a caminhada rende e às 8h40 já descíamos as últimas rochas que fazem parte do maciço do Raio.

Cruzamos um rego d'água espalhada e uma porteira; e a partir dali entrávamos no trecho plano que nos levaria até o final em São Gonçalo. As trilhas estavam enlameadas devido a chuva do dia anterior; mas não eram fortes obstáculos praquela turma já rodada no mundo das trilhas.

Logo adiante a trilha se bifurca, quando tomamos o ramal da esquerda, mas o da direita também serviria. Cruzamos nova porteira e seguimos pela trilha mais batida.

Pouco a frente passamos por novo ponto de água, um conjunto de afloramentos e chegamos pouco depois das 9h00 até a bifurcação em que se pode escolher por qual acesso-rua entrará por São Gonçalo. Optamos pela da esquerda.

Logo a frente cruzamos uma pinguela dentro da matinha. Ao sairmos em área aberta já caímos numa rua periférica de São Gonçalo. Nesse ponto descobrimos que dois amigos - Gabriel e Oliver - que vinham caminhando bem à nossa frente certamente haviam tomado o caminho da direita, pois não se observavam rastros recentes na areia úmida...

Capela do Rosário
Mas seguimos sem grandes preocupações, afinal eles sabiam para onde iríamos e ambos caminhos nos levariam até lá. Já no casario de São Gonçalo, em torno de 9h30 desembocamos na rua principal de acesso ao Distrito.

Dali seguimos sem pressa até o centrinho, passando defronte a Capela de Nossa Senhora do Rosário. Mais algumas dezenas de metros e chegamos no Restaurante do Sossego da Dona Lucília pouco antes das 10h30 da manhã; colocando fim à nossa pernada do fim de ano.

Bar e Restaurante do Sossego da Dona Lucília
Ao chegarmos no Sossego, curiosamente nossos amigos bons de perna já haviam estado no lugar; pois lá deixaram suas cargueiras.

Como não haviam nos encontrado saíram a nossa procura e fizeram um circuito pelo Distrito! É mesmo muita perna sobrando eheheh... Uns 30 minutos depois nos encontramos todos e aí foi só comemorar os dias de isolamento longe das badalações de ano novo.

Aquela pose organizada pra posteridade...
Mas o melhor ainda estava por vir: o almoço na Dona Lucília! Simplesmente foi um dos almoços mais completos que já vi durante esses anos todos de caminhada. Uma delícia e tudo com fartura, feito com carinho e simpatia. Será difícil superar a Dona Lucília eheheh...

Com calma almoçamos e com calma ajeitamos as tralhas. Pouco antes das 13h00 já estávamos embarcados em nosso resgate rumo a BH, aonde chegamos em torno de 19h30.

Esse fim do ano no mato a mim foi muito interessante. Nos mostra que, mesmo locais amplamente visitados podem se tornar interessantes, desde que se elabore um bom plano para a realização.

Outro aspecto interessante é que há momentos que o importante é o quanto se vivencia os lugares e a companhia de pessoas agradáveis; e não a quantos lugares se vai; ou quantos quilômetros se caminha. Meu sincero obrigado aos amigos pela alegria da companhia. Nos vemos nas trilhas, inté!

Serviço


Capivari a São Gonçalo do Rio das Pedras Via Cachoeiras
Quilometragem Total: 34 km
Estilo: Sem pressa, visando curtir os atrativos

Rota GE
O arraial de Capivari se localiza no Alto Jequitinhonha, município do Serro. Região de grande beleza cênica, é uma das portas de entrada do Pico do Itambé, localizado no Parque Estadual do Pico do Itambé.

Além do Pico do Itambé, destacam outros atrativos, em especial as Cachoeiras Maria Bruna, Tempo Perdido, Amaral, Três Marias e Coqueiros.

O acesso principal a Capivari se dá a partir do Serro. Há asfalto sentido Milho Verde; quando aproximadamente no km 16 entra-se à direita por mais 10 km em estrada de terra.

Já o distrito de São Gonçalo do Rio das Pedras, também município do Serro, é um lugarejo pacato, porém maior e mais desenvolvido que Capivari. Oferece uma rede de comércio e hospitalidade básicas aos visitantes.

Juntamente ao Distrito de Milho Verde é porta de acesso aos diversos atrativos naturais da região, como o Pico do Raio e a Cachoeira da Grota Seca. Particularmente o acho mais interessante que Milho Verde; pois São Gonçalo ainda consegue guardar um pouco mais de originalidade.

O acesso principal a São Gonçalo se dá a partir do Serro. Há asfalto até Milho Verde e mais 6 km de estrada de terra em bom estado. Também é possível acessar São Gonçalo por Diamantina, porém o trecho em estrada de terra é mais longo.

Hospitalidade recomendada: Bar, Restaurante e Receptivo Sossego D. Lucília

Distâncias Aproximadas

Cidade referência: Belo Horizonte

BH x Serro Via BR 259: 325 km, somente asfalto
BR x Serro Via MG 10: 230 km, sendo 25 km em estrada de terra
Serro x Capivari: 25 km, sendo 10 km em estrada de terra
Serro x São Gonçalo: 27 km, sendo 6 km em estrada de terra

Como Chegar e voltar - De ônibus

Cidade referência: Belo Horizonte

Viação Serro até Serro → Viação Transfácil até Capivari ou São Gonçalo
►O ônibus que circula entre Serro-Capivari-São Gonçalo apresenta frequências e horários escassos.

Como chegar e voltar - De carro

Cidade referência: Belo Horizonte

Opção 1: Rodovia MG 10, passando pela Serra do Cipó, Conceição do Mato Dentro e Serro.
► Apesar de mais curta, o inconveniente desta rota é o trecho de aproximadamente 30 km em estrada de terra entre Conceição do Mato Dentro e Serro; além daqueles finais para chegar em Capivari ou São Gonçalo (Via Milho Verde).

Opção 2: BR's 040, 135 e 259, passando por Curvelo, Gouveia, Datas, Serro.
► Apesar de mais longa, a vantagem é seguir por estrada asfaltada e só enfrentar estrada de terra nos quilômetros finais para chegar em Capivari ou São Gonçalo (Via Milho Verde).

Considerações Finais


Áreas Particulares I: Em praticamente todo o trecho percorrido por esse Trekking as trilhas percorrem áreas particulares; estando sujeitas às regras locais. Normalmente os nativos não fazem objeções aos caminhantes: são sempre solícitos, compreensivos e educados. Já moradores não nativos em especial nos arredores de Capivari são mais arredios e não apreciam caminhantes nas suas terras. Já no trecho em que circula o Pico do Raio a rota percorre a divisa do Monumento Natural da Serra do Raio e Lajeado. Apesar da presença de muitos visitantes, os moradores locais mantém seus costumes, em especial aqueles mais velhos. Por isso, a visitação à região e a realização do Trekking requer discrição e respeito por parte de praticantes. Proibido fazer fogueiras por todo o trecho. Traga sempre todo o seu lixo de volta.

Áreas Particulares II: Somente para a Cachoeira do Tempo Perdido é cobrado acesso (dez 2018). Aliás, uma reclamação que ouvimos há algum tempo é o modo incisivo em que se procura cobrar este acesso. Ocorre que ao cruzar Capivari e tomar a estradinha sentido Pico do Itambé os responsáveis pela cachoeira praticamente saltam à frente dos automóveis, cercando a passagem. Isto ocorreu conosco, inclusive! Além de intimidador há risco de acidentes.

Trilhas e Trajeto: O trekking realizado consiste num misto de estradinhas (30%) e trilhas (70%). A estradinha está concentrada no acesso à Cachoeira da Maria Bruna e à Tempo Perdido. É o trecho com incidência de "novos moradores"; portanto não há muito o que se fazer. Já no acesso à Três Marias apesar de ser uma estradinha, seu estado precário e erodido está mais para uma trilha ampla. Já os trechos em trilhas são interessantes e mantém-se, sobretudo devido a presença de gado. Sem dúvidas a descida da Trilha do Raio é o trecho mais interessante de todo esse trekking.

Logística de Acesso: Não é difícil, pois as estradas apesar do chão batido se mantém em boas condições. Além disso, ponto de início e final não são tão distantes; e se dão em arraial (Capivari) e no distrito (São Gonçalo). Para quem utiliza transporte público há ônibus tanto para o início; quanto ao final. Horários e frequências são escassos, mas isto é questão de planejamento.

Camping: Não há camping estruturado pela rota. Eventuais pernoites serão no estilo natural.

Água: Há fontes de água pela rota; porém em época de seca muitas delas desaparecem. Fique atento!

Exposição ao Sol: intensa; há pouca sombra pelo trajeto.

Época de realização: a época ideal para realização é no período das águas; obviamente tendo o cuidado de acompanhar as previsões do tempo, já que se vai cruzar riachos em alguns pontos. É nesse período do ano em que as cachoeiras estão com bom volume de água. Na época da seca as cachoeiras apresentam baixíssimo volume. Como exemplo, a Cachoeira Tempo Perdido praticamente desaparece na seca; não compensando a visita.

Duração e Sentido para realização: para os mais apressados em dois dias é suficiente para percorrer todo o trecho realizado; inclusive visitando outros atrativos. Nós fizemos em 4 dias porque tínhamos tempo disponível e objetivo diferenciado, que era curtir os lugares com calma. Quanto ao sentido terminando em São Gonçalo é o modo mais interessante, pois o Distrito apresenta maior e melhor estrutura que Capivari.

Segurança: Todo o trajeto realizado é relativamente próximo às localidades de Capivari e São Gonçalo. Até a Cachoeira das Três Marias e eventualmente Coqueiros, eventual rota de escape se direcione para Capivari. A partir da Trilha do Raio direcione para São Gonçalo; até porque o Distrito é maior e pode oferecer mais recursos em casos de necessidades. Há sinal de telefonia móvel em alguns pontos da rota.

Atenção: Ambientes naturais abrigam insetos e animais selvagens ou peçonhentos. Isto é natural e normal. Ao manusear suas roupas e equipamentos verifique com atenção e rigor se não há presença desses animais ou insetos peçonhentos; evitando acidentes. Use repelentes contra carrapatos. Também fique atento quanto a presença de animais selvagens de grande porte e evite assustá-los.

Cash: leve dinheiro trocado e em espécie. Pequenas localidades não aceitam cartões ou cheques.

Carta Topográfica: Rio Vermelho


► Pratique a atividade aplicando os Princípios de Mínimo Impacto

Bons ventos!!!

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2 Comentários

  1. Ler o relato me fez voltar detalhadamente a aqueles dias com muita saudade, foi otimo, marcou minha vida, agradeço de coração a você e a todos que estavam presentes. Grande abraço Chico!

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    1. Ei Fabi, que bom que gostou... O objetivo do relato é este mesmo: reviver... Fico feliz que tenha curtido a companhia, espero que estejamos juntos dentro em breve. Abração Fabi

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