Extrema a Lapinha

Ribeirão Soberbo
A Travessia Extrema x Lapinha é uma rota do Espinhaço Mineiro ligando o arraial de Extrema, município de Congonhas do Norte ao arraial da Lapinha, município de Santana do Riacho; região central de Minas Gerais.

Trecho de grande beleza no Espinhaço, há pelo menos três variantes nessa rota, todas com mesmo início e final; perfazendo aprox. 40 km de caminhada...

A variante principal e mais conhecida dessa Travessia é aquela que percorre toda a extensão da velha Estradinha Transamante.

A outra variante é um corta caminho da principal; evitando o trecho mais elevado da Transamante. Já a variante que consideramos mais interessante é aquela que privilegia trilhas; aproveitando parte do corta caminho da principal; além de margear o Ribeirão Soberbo e o Córrego Fundo. Foi essa rota que realizamos em princípio de fevereiro.

Relato Dia 1


Deixamos BH na madrugada do dia 02 de fevereiro. Viagem tranquila pela rodovia MG 10 até Conceição do Mato Dentro. Na sequência rumamos sentido Congonhas do Norte.

Por volta de 5h00 da manhã, pouco antes de atingirmos Santa Cruz entramos à esquerda pela estrada de terra que leva ao arraial de Extrema. Cerca de meia hora depois chegamos à bifurcação de acesso à Estradinha Transamante. Devido ao horário nem cogitamos adentrar no arraial cerca de 1 km adiante...

Adentramos à direita no acesso da Transamante e seguimos até o mata burro, ponto também de início da Rota para Fechados. Ainda embarcados seguimos à esquerda pela Transamante até o acesso das Perobas; pois a estradinha estava em boas condições e isto adiantaria nossa pernada.

Pouco antes das 6h00 da manhã desembarcamos. Como era cedo fizemos tudo sem pressa, aproveitando inclusive para comer alguma coisa que havíamos levado, afinal aquele era um ponto isolado e sem comércio algum.

Tempo bom e indicando um dia calorento, por volta de 6h30 da manhã iniciamos nossa pernada sentido Norte-Sul. Seguimos pela Transamante em campo aberto e em suave aclive. Pouco adiante cruzamos uma porteira e adentramos em uma matinha. Mais adiante após curto aclive chegamos a um triângulo na estradinha, com uma placa de vende-se terreno à direita.

Seguimos pela estradinha à esquerda e em aclive; passando por um mataburro semi-enterrado. A estradinha se estabilizou e metros adiante percorremos um declive, chegando até uma outra porteira. Analisando a situação da estradinha poderíamos ter chegado esse ponto sem problemas, pois a estradinha havia sido limpa recentemente.

Após a porteira seguimos em aclive acentuado ainda no interior da matinha. Quando a estradinha se estabilizou tínhamos a matinha somente ao nosso lado esquerdo; e do lado direito um pasto. Nesse ponto, próximo de 7h00 da manhã deixamos a Transamante em favor de uma discreta trilha à direita, que cruza o pasto em diagonal.

Seguindo o terreno a trilha faz uma curva para a direita e se firma; quando em suave aclive chegamos ao alto de um pasto intermediário, com postes de energia e gado por perto. Região muito bonita e com visual amplo para o oeste e norte; inclusive sendo possível observar o início da Rota para Fechados ao norte.

Ignoramos uma saída à direita que leva até um sítio e descemos a encosta por uma antiga trilha; que nos levou até um fio de mata ciliar no fundo do raso vale. Corria por lá uma boa fonte de água; mas sabemos que essa fonte praticamente seca no inverno. Após cruzar o fio d'água e a matinha ciliar saímos em campo aberto, com trilha em aclive e repleta de cascalho.

Os primeiros campos do interior da rota
Após o curto aclive adentramos em vasto e belo campo aberto. O sol da manhã proporcionava um belíssimo visual; uma campina de primeira, tempo e local excelente para belas imagens.

Era possível visualizar a continuação da trilha e os conjuntos de serra ao sul que cruzaríamos. Na última vez que passara por ali tudo estava coberto pela neblina! Esse é um ponto realmente bonito dessa rota.

Hora e local sempre proporcionam imagens bonitas...
Seguimos pela trilha batida no campo e aproximamos do Ribeirão Congonhas. Sem dificuldades cruzamos o riacho pelas rochas e fizemos uma paradinha para abastecimento pouco depois de 7h00.

Impossível não se lembrar da última vez em que estivemos por ali em 2018. Com a chuvarada da véspera na ocasião o riacho estava nervoso e foi uma trabalheira cruzá-lo!

Após o riacho seguimos pela trilha que segue cruzando o campo plano. Isto nos levou a aproximação com a serra ao sul. Porém, a trilha não sobe a serra, mas desvia à direita por uma abertura entre os morrotes. Seguíamos cada um no seu ritmo, uma caminhada bem tranquila.

Ao galgarmos a virada de serra percorremos uma passagem antiga, que segue pela drenagem, em declive e com alguns poucos degraus em rocha. Nesse ponto fizemos uma paradinha, pois parte do nosso grupo havia ficado para trás. Com o formato do terreno e uma bifurcação para a direita após a descida da trilha poderiam confundir...

Aglutinados seguimos para a esquerda, beirando uma matinha ciliar pelo colo interior da serra. Curiosamente a fonte de água por ali estava completamente seca! A trilha nos levou a contornar a matinha e logo à frente junto a umas rochas no fundo do vale fizemos uma paradinha rápida para descanso e lanche.

Pouco depois retomamos a pernada em aclive. A trilha seguiu pelo interior da Serrinha. Cruzamos um fio d'água e passamos por algumas rochas; quando beiramos uma matinha pela direita. Logo à frente a trilha em aclive nos leva até um amplo campo superior, um lugar de rara beleza na rota da Lapinha Extrema.

Vasto campo na região mais elevada de toda a rota
Trata-se de um grande campo aberto e plano no ponto mais elevado de toda a travessia. O visual enche os olhos; em especial para o lado sul, onde é possível observar as encostas oeste do Intendente e pontos norte da Serra do Abreu. Outro trecho espetacular dessa rota que faz valer a pena todo o esforço da caminhada... 

Seguimos pela trilha plana pelo campo e cruzamos uma porteira. Seguimos cruzando o amplo campo que apresentava alguns pontos úmidos.

Ao final do trecho iniciamos suave declive, cruzando um trecho com muitas rochas, o que deixa o lugar com aspecto cinematográfico; se assemelhando a "outro planeta"...

Foto de outra ocasião desde a região do Mirante das Cabeceiras do Soberbo
Ao fundo cumes da Serra do Abreu
Animados cruzamos o trecho rochoso e chegamos ao mirante das Cabeceiras do Córrego do Soberbo pouco depois das 8h30 da manhã. É um ponto também muito bonito, destacando os amplos campos e serras ao sul, tendo um sítio logo abaixo em primeiro plano.

Desse ponto é possível observar os topos da Serra do Abeu bem ao sul. Nos ajeitamos nas rochas e fizemos uma parada para descanso, lanche e ouvir as histórias de aventuras do Elias...

Uma meia hora depois voltamos a caminhar descendo o trecho encascalhado pós Mirante. Vencido o trecho cruzamos uma porteira velha e a trilha se estabilizou. Rapidamente por volta de 9h15 chegamos ao sítio observado desde o Mirante.

Por lá um rapaz tirava leite, contrastando com outras vezes que passamos por ali, quando quase sempre não encontramos ninguém. Cumprimentamos o rapaz, pedimos autorização e tomamos à direita na porteira ao lado do curral, beirando a cerca de arame e contornando a área cercada do sítio.

Em bom ritmo seguimos pela trilha batida que em suave declive nos levou até um afluente do Ribeirão Soberbo. Desviando da passagem de gado cruzamos o afluente através de uma ponte de madeira. Lembrei novamente da vez anterior que por ali estive, quando as águas do riacho cobriam toda a ponte e impediram nosso avanço.

Região é bonita mesmo Uchoa: Prepara que vai fazer calor...
Cruzado o riacho seguimos pela trilha batida rumo sul. Em suave aclive seguimos cortando o amplo campo. O visual nos arredores era de cair o queixo!

Já o Sol mostrava indícios que esquentaria de vez! Seguimos em bom ritmo e o que era trilha passa a ser dois sulcos pelo campo, pois antigamente havia por ali uma estradinha.

Vínhamos sempre no sentido sul; porém a rota em declive nos leva a dar uma guinada para o oeste, fazendo-nos aproximar do Ribeirão Soberbo.

Estabilizados, cruzamos uma tronqueira e uma pequena ponte sobre um rego d'água no interior de uma matinha ciliar. Despontamos novamente em campo aberto e estabilizados. Poucos metros à frente e às 10h00 chegamos até outro afluente do Ribeirão Soberbo, quando aproveitamos para nos abastecer e realizar nova parada para descanso e lanche.

Para retomar a caminhada e cruzar o afluente do Ribeirão Soberbo tivemos que tirar as botas. Exceto um de nós que não me lembro quem, que pulou o riacho num ponto mais acima aonde havia uma pinguela velha e pouco confiável sobre o leito.

Ao cruzar o córrego ignoramos uma saída à esquerda que se trata da rota Corta-Caminho, a outra variante da Extrema x Lapinha. Nosso rumo pendeu para o oeste...

Tomamos uma trilha quase imperceptível e que segue pela margem esquerda do Ribeirão Soberbo. Cruzamos uma drenagem natural e prosseguimos por terreno plano, tendo à nossa esquerda graciosos morrotes de afloramentos.

A discreta trilha foi nos levando a aproximação do Ribeirão Soberbo, cujos remansos são cada qual maior que o outro. Do outro lado do Ribeirão, à margem direita uma encosta mais suave, com campos que tomam rumo norte a perder de vista.

As primeiras quedas do Ribeirão
Caminhando agora mais lentamente, pois era preciso prestar atenção pra não perder a discreta trilha seguimos margeando o Ribeirão. Não paramos nos primeiros remansos, pois os melhores pontos estão mais abaixo.

Prosseguimos então em suave declive, quando margeamos pequenas corredeiras e um lageado no leito do Ribeirão. Na sequência e pouco abaixo chegamos ao rumo da primeira queda do Ribeirão Soberbo. Então, deixamos a trilha e deslocamos à direita rumo ao Ribeirão às 11h00.

Trecho do Ribeirão nos arredores da primeira queda
A primeira queda do Ribeirão Soberbo é pequena em altura, porém o bom volume de água resulta em um poção magnífico. Observa-se na sequência uma cascata e um poção gigantesco logo abaixo. É um lugar espetacular no estreito Vale do Ribeirão Soberbo.

Lugar aberto, com intensa insolação, rodeado ao norte e ao sul pelos morrotes de afloramentos. Com clima favorável e muito calor permanecemos por ali curtindo o lugar até às 13h00; tempo suficiente até para almoçar...

Pouco depois das 13h00 começamos a deixar o lugar. A trilha segue como antes: discreta e margeando o Ribeirão pela esquerda. A trilha logo desaparece entre as canelas de ema; distanciando do Ribeirão que mais abaixo faz uma curva para a esquerda; tendo nas margens uma matinha ciliar.

Enquanto aguardei os últimos amigos deixar o lugar, parte do grupo adiantou o passo rumo oeste. Pouco tempo depois os alcancei e então juntos cruzamos o Ribeirão Soberbo; pois isto era necessário para continuar a pernada. Cruzamos o ribeirão um pouco mais abaixo que o ponto tradicional. Isto nos obrigou a saltar e subir rochas maiores, porém fizemos sem problemas.

Na outra margem do Soberbo subimos acentuado porém curto aclive. No alto da margem tendemos à esquerda para observarmos a segunda queda do Ribeirão Soberbo. Considero esta a mais bonita queda do Ribeirão. É graúda, única, no fundo do mini cânion e por isso mais apertada. Resulta em um poço grande e aparentemente profundo.

O inconveniente é o acesso à essa queda e poço. Não há trilha definida para alcança-la. Mas isto é possível, primeiro caminhando em sentido contrário à queda, pois a inclinação não permite aproximação direta. Na curva seguinte do Ribeirão desce pelas rochas e assim atinge o leito; subindo por este até o poção.

Segunda queda no Ribeirão e seu poção
Os amigos contentaram em apenas observar a belíssima cachoeira; exceto o Rodrigo que ficou bastante interessado em descer e até fui mostrar como era o acesso. Mas como éramos minoria e tínhamos ainda muito a curtir ficou para uma próxima.

Retornamos então aos amigos e cortamos um trecho sem trilha definida, visando atingir uma velha trilha de gado que vem de uma rancho que há nas proximidades, ao norte e à direita do Ribeirão Soberbo. Nesse ponto distanciamos bastante do leito do Ribeirão, que prossegue ao sul de um morrote de afloramentos.

Uma das vistas desde o Mirante do Ribeirão Soberbo
Rapidamente atingimos a velha trilha que vem do rancho norte e fomos rasgando, uma vez que a vegetação beira trilha dr encontrava bem alta; e em alguns pontos cobrindo as passagens.

Imediatamente iniciamos um trecho em declive tomando rumo sul; para imediatamente caminharmos em aclive; o que nos levou ao alto do morrote no Mirante do Ribeirão Soberbo. É um ponto de grande beleza onde se descortina toda a vertente oeste da Serra do Cipó e o final do Vale do Ribeirão Soberbo.

Também já é possível observar as cabeceiras das encostas sobre o Vale do Córrego Fundo e parte da face oeste por onde desce o Rio das Pedras. É um lugar magnífico!

Porém, começa ali o trecho mais exigente dessa Travessia. Trata-se da descida do Mirante, trecho com grande inclinação em que não há trilha definida. A descida deve ser feita com paciência e escolhendo as melhores passagens.

Iniciamos a descida ainda por uma velha trilha rumo noroeste. Pouco abaixo essa trilha segue seu rumo; porém nós tínhamos que tomar o rumo oeste. Passamos então a percorrer campos sujos em forte declive, desviando de alguns trechos mais úmidos. Em grupos seguimos, com alguns amigos vencendo a descida rapidamente.

Esse está aí há uns bons anos...
Permaneço na intermediária e sigo apontando os pontos de passagem. Descemos um primeiro paredão, mas sem dificuldades. Alguns totens estão no local, coisa que eu mesmo coloquei alguns bons anos atrás.

Mais abaixo vencemos outro pequeno paredão e a rota começa a melhorar; apesar dos arbustos e capim alto. Mais alguns metros e o trecho se estabilizou.

Cruzamos o terreno em diagonal no sentido da curva do Ribeirão ao sul. Pontualmente às 15h00 atingimos novamente o Ribeirão Soberbo! Estávamos bem cansados e o calor era de matar... Mas agora a jornada do dia havia se encerrado... Então teríamos o resto da tarde para nos refrescar naquelas águas convidativas; uma vez que nosso pernoite seria ali, à margem esquerda do Ribeirão.

Como o sol ainda estava alto ninguém se animou a ir montar barracas, exceto o Elias e a Wal que descolaram uma sombra bacanuda. A maioria de nós já ficou por ali se refrescando nos pequenos poços do ribeirão.

Nesse ponto o Ribeirão Soberbo apresenta vários poços e pequenas quedas antes de iniciar o seu despencar final que vai dar lá embaixo na "proibidona" Rubinho. É um lugar sensacional e que procuramos curtir ao máximo.

Pequenas quedas e vários poços no acesso pelo leito
Um bom tempo depois e já refrescados alguns trataram de armar as barracas. Convidei então para que fôssemos visitar a cachoeirinha que estava um pouco acima de onde nos instalamos. Poly, Guilherme, Uchoa e Rodrigo se animaram...

Rapidamente fomos subindo o leito do Ribeirão, galgando rochas e mudando de margem várias vezes. Passamos por um pequeno e profundo poço e na sequência uma bonita cascata. Mais acima despontamos naquela que é uma das mais singelas quedas do Ribeirão Soberbo.

O belíssimo e preservado lugar
Trata-se de uma queda pequena e entrecortada, encravada ao sul  do morrote do Mirante do Ribeirão Soberbo. Abaixo da queda um poção de respeito. Juntam-se os arredores afunilados e preservados, de modo que o conjunto é simplesmente admirável.

Mas uma vez acertávamos na escolha da visita, uma vez que o volume de água na queda deixava tudo muito mais bonito... Poly nem bem chegou e caiu na água... Minutos depois chegaram o Rodrigo, Uchoa e Guilherme... Só sei que se divertiram bastante por lá, sorte deles...

Depois de quase 1h00 no lugar retornamos à área do pernoite refazendo o mesmo caminho da ida. Somente aí fui armar minha barraca, aproveitando os últimos raios de sol. Acampamento ajeitado, o restante do tempo foi dedicado aos afazeres normais.

Me lembro que havia muita comida gostosa no acampamento... Ganhei do Fred um espagueti delicioso eheheh... Mais tarde um céu espetacular sobre o Espinhaço. Milhões de estrelas, além de ser possível observar o vai e vem de satélites e aeronaves, inclusive uma que nos enganou escandalosamente rsrs... Depois cama e descanso!!!

Relato Dia 2


Aquele domingo dia 3 de fevereiro amanheceu parcialmente nublado como é tradicional nos pontos mais altos do Espinhaço. Indício de mais um dia de muito calor. Beirava as 8h00 da manhã quando deixamos o ponto de pernoite.

Seguimos em aclive rumo sudeste por um trecho sem trilha, mas que seguia a drenagem natural. Após interceptamos velha trilha de gado e passamos a caminhar em declive.

Mais adiante a trilha torna-se mais marcada, fruto de um caminho antigo que desce a serra e se junta ao sentido que tocávamos... Trecho marcado cortando a inclinada encosta em diagonal; rodeada por vegetação arbustiva e matas de galerias. 

Cachoeirão
Após meia hora de caminhada aproximamos do Rio das Pedras. Dali observamos o Cachoeirão, cujo acesso somente a nado.

Adentramos o leito do Rio das Pedras pulando as rochas. Devido ao bom volume de água tivemos um pouco de dificuldades em cruzar o primeiro lance sem tirar as botas.

Na sequência seguimos descendo o leito, desescalaminhando rochas em meio às cascatas. Mais abaixo saímos à margem esquerda do Rio, seguindo pela capoeirinha.

Sequência do Rio das Pedras
Esse trecho é um pouco confuso devido a vegetação e vários pequenos platôs rochosos, cujas passagens são íngremes, estreitas e em alguns pontos únicas.

Seguimos descendo visando atingir a parte inferior da Cachoeira Rio das Pedras; uma bonita queda com grande poção logo abaixo.

Num deslize meu fomos enganados pela drenagem, mas logo retornamos ao ponto mais indicado para a descida.

Trecho mais enjoado, com desescalaminhadas em sequência; somente às 9h40 chegamos à parte inferior; ponto já estabilizado.

A Cachu que não fomos dessa vez...
Nesse ponto visando ganhar tempo resolvemos abandonar a ideia de parar e curtir a Cachoeira próxima. Igualmente não fomos ao ponto de encontro do Córrego Fundo, Ribeirão Soberbo e Rio das Pedras, um outro lugar interessante naquele trecho.

Ocorre que em locais com próximos e variados atrativos como aquele, quase sempre há que se escolher um para aproveitar com calma. Foi o que procuramos fazer!

Poço do Soberbo
Tomamos então a discreta trilha entre a capoeira, fato que nos rendeu umas saídas erradas, já que o trecho encontrava-se todo pisado. Porém, corrigimos e chegamos ao leito do Córrego Fundo, que cruzamos sem dificuldades.

Dali foram alguns poucos passos e saímos da capoeira, interceptando a larga e conhecida rota que leva ao Poço do Soberbo. Trecho óbvio, às 10h00 chegamos ao Poço do Soberbo.

O Poço do Soberbo é um dos maiores da região. Segundo os estudiosos sua origem é antropogênica; resultado da atividade de mineração e garimpagem no Rio das Pedras.

Por lá estão restos de construções e maquinaria desse período. O que importa é que o lugar é realmente digno de uma visita. Nos estabelecemos por ali, na margem esquerda e fomos aproveitar o lugar, cada qual ao seu modo. Estava por lá um outro casal visitante; únicos aventureiros que vimos pela rota.

Topo da Rio de Pedras
Pulando rochas, alguns de nós seguimos até o topo da Cachoeira Rio de Pedras, localizada na sequência do Rio das Pedras logo abaixo do Poço do Soberbo.

É um lugar especial e que proporcionou muita curtição nos poços antes da queda; graças ao bom volume de água; coberto por um céu sem nuvens e intenso calor. Depois retornamos às margens do Poção já visando deixar o lugar.

A partir daí só com equipos
Enquanto alguns ainda se divertiam pelas águas procurei uma sombra para me abrigar do sol escaldante. Pouco depois recebemos a visita do proprietário das terras ao norte do Soberbo, que gentilmente nos fez algumas recomendações.

Não demorou muito e começamos a nos organizar para deixar o lugar, pois tínhamos uma boa jornada pela frente.

Pontualmente às 12h45 deixamos o Poço do Soberbo. A trilha ampla, única e batida que segue pelo Vale do Córrego Fundo permitiu que cada um imprimisse seu ritmo.

O inconveniente era o excessivo calor que fazia naquele dia. Quem conhece o Espinhaço sabe o quanto isto pode causar problemas. Com isso, caminhamos em ritmo moderado e nas fontes de água pelo trajeto sempre paramos pra hidratação e refresco...

Por volta de 14h00 chegamos ao córrego junto à Casa do Córrego Fundo, onde fizemos uma parada para hidratação, descanso e lanche! 

Caminhando para o final da pernada...
Cerca de meia hora depois retomamos a caminhada. Logo após passar pela Casa do Córrego Fundo tomamos a trilha que sobe a encosta oeste, deixando a cansativa e desgastada estradinha 4x4 que leva ao lugar.

Com aquele calorão seguimos a dica de sempre: subimos sem paradas para não perder o ritmo; pois a trilha encascalhada não é longa; nem apresenta platôs.

Em quinze minutos vencemos o trecho e chegamos ao último platô oeste superior do Espinhaço. Ali fizemos uma parada para descanso, aproveitando a sombra de algumas árvores; algo sempre raro pelo Espinhaço.

Beirava 15h00 quando retomamos a caminhada, interceptando logo a frente a estradinha que havíamos abandonado lá embaixo no Vale do Córrego Fundo. Trecho sem possibilidade de erro, cada qual no seu ritmo.

Curiosamente uma nuvem carregada apareceu e até caiu uns pingos de chuva; mas infelizmente um bom refresco não veio. Ao contrário, o sol voltou a brilhar forte, nos forçando a várias paradas.

Aproximando já do trecho final da pernada, às 15h40 fizemos mais uma parada para descanso junto a algumas rochas e a umas sombras mixurucas. Por ali nosso amigo Daniel nos presenteou com laranjas e uvas frescas e salvadoras, algo inacreditável naquele calorão.

Aproveitamos para consumir as últimas guloseimas e nos divertir com papo alegre e animador; porque o cansaço era grande e estava estampado no rosto de todos...

Construções no Poço do Soberbo
Energizado pelas uvas e laranjas, pouco depois das 16h00 retomamos a pernada. Logo atingimos a porteira e cerca principal do acesso. Devido ao calorão e visando encurtar caminho optamos pelo atalho em declive pela encosta; que era o antigo acesso ao Poço do Soberbo.

Sem delongas, o atalho nos levou às 16h30 até estradinha Transamante que não víamos desde o dia anterior. Pouco à frente chegamos junto ao nosso resgate, colocando fim à nossa jornada. Estávamos bem desgastados devido ao intenso calor. Não é exagero, naquele dia o sol caprichou, mas caprichou mesmo naquela porção do Espinhaço!

Ajeitamos as tralhas e embarcamos, percorrendo os últimos quilômetros da Transamante rumo ao cotovelo da Lapinha. Sem passar pelo arraial seguimos sacolejando para Santana do Riacho, aonde chegamos às 17h30.

Junto à ponte da entrada da cidade fizemos uma parada num bar e pastelaria pra forrar o estômago e clarear a mente...Reembarcados pouco depois das 18h00 tocamos non stop para BH, aonde chegamos beirando 21h00.

Mais uma vez essa rota se mostrou magnífica. Seus amplos campos emoldurados por morrotes; seus trechos entre afloramentos rochosos e seus cursos d'água resultam no que chamaríamos de uma Travessia Completa.

Mesclando trechos simples com outros mais exigentes e abrigando bonitas quedas, corredeiras, poções e remansos torna-se uma das mais bonitas rotas do Espinhaço Sul... Obrigado aos amigos pela alegria da companhia: sem dúvidas esse é um fator que deixa qualquer rota especial.

Serviço


Travessia com aproximadamente 40 km ligando o arraial de Extrema, município de Congonhas do Norte ao Arraial de Lapinha, município de Santana do Riacho. Essa quilometragem pode ser encurtada para apenas 32 km graças às ligações inicial e final por estradinhas vicinais; trechos quase sempre percorridos de modo embarcado.

Há pelo menos duas outras variantes ligando essas duas localidades; sendo a principal aquela que percorre a Estradinha Transamante. A vantagem do Trajeto Via Córrego Fundo em relação aos outros dois é percorrer trechos mais isolados; em sua maioria trilhas ou curtas ausências destas; além de permitir visitar cachoeiras, remansos e poções mais afastados e ainda preservados. Seus atrativos principais são as quedas e poções no Ribeirão Soberbo e no Rio das Pedras.

► A rota percorre áreas de particulares. Portanto, para realizar essa variante é necessária autorização de proprietários locais. 

Distâncias aproximadas

Cidade referência: Belo Horizonte

Belo Horizonte ao Arraial de Extrema: aprox 210 km, sendo 6 km em estrada de terra (da Rodovia Conceição-Congonhas ao Arraial)
Belo Horizonte ao Arraial de Lapinha: aprox 132 km, sendo 12 km em estrada de terra (de Santana do Riacho a Lapinha)

Como chegar e voltar


Cidade referência: Belo Horizonte


De ônibus

Ida: Viação Serro (31 3201-9662) até Conceição do Mato Dentro → Viação Serro de Conceição do Mato Dentro ao acesso de Extrema → Táxi ou à pé do Acesso ao Arraial de Extrema
Volta: Táxi ou a pé de Lapinha da Serra a Santana do Riacho → Viação Saritur (0800 039 88 46) de Santana do Riacho a Belo Horizonte

► Faça consultas virtuais ou telefônicas às empresas de ônibus confirmando horários e frequências.
► Não há atendimento por ônibus no arraial de Extrema ou ao Arraial de Lapinha
► É possível contratar táxi para realizar os trechos Conceição x Extrema ou Lapinha x Santana do Riacho. Basta combinar com antecedência.

De carro

Ida: MG 10 até Conceição do Mato Dentro → Rodovia Conceição a Congonhas até Acesso à Extrema → Estrada de terra para o arraial de Extrema
Volta: Estrada de terra de Lapinha a Santana do Riacho → LMG 816 até Serra do Cipó → MG 10 até BH

► Atente-se que início e final da Travessia se dão em locais distintos e distantes. Necessário programar resgate.

Considerações Finais


► Para realizar essa variante é necessária autorização de proprietários locais. 

► Trilhas e Trajeto: Predomina o sentido Norte-Sul. O trecho entre Extrema e as cabeceiras do Ribeirão Soberbo dá-se inicialmente pela Estradinha Transamante. A seguir deixa a Transamante e passa a percorrer campos suaves e trilhas antigas à direita desta. Entre as Cabeceiras do Ribeirão Soberbo e o Poço do Soberbo no Rio das Pedras não há trilha definida: o que há são restos de antigas trilhas ou trilhas de gado; ou ausências destas. As trilhas apresentam uso moderado a baixo; havendo várias saídas de trilha em pontos diversos. Recomendável manter sempre as direções.

► Trilhas e Trajeto 1: A partir do Poço do Soberbo e a té a Lapinha a rota é ampla e batida, sendo a mesma que leva a esse atrativo; finalizando pela Transamante. É uma rota que requer disposição física, pois há trechos com aclives e declives acentuados. Sob chuva forte ou intensa normalmente não é possível realizá-la, pois há vários riachos e ribeirões a serem cruzados.

► Logística de Acesso: Há ônibus que liga Conceição do Mato Dentro à Congonhas do Norte, passando pelo acesso à Extrema. Do acesso ao arraial são 6 km de estrada de terra em bom estado. Já a parte final não há ônibus que liga Lapinha da Serra à Santana do Riacho. Já de Santana do Riacho há ônibus até Belo Horizonte. As estradinhas de terra tanto no início quanto ao final apresentam estado regular; porém sob chuvas pode não ser possível percorrê-las devido a lama.

► Camping: não há camping pela rota. Eventuais acampamentos são no estilo natural. Não há camping em Extrema. Em Lapinha da Serra há vários camping.

► Água: Há vários pontos de água no trecho entre Extrema e o Córrego Fundo. A partir desse ponto não há mais fontes de água; ou seja os 10 km até a Transamante são  a seco. Em períodos de seca várias fontes desaparecem. Fique atento e use sempre purificador!

► Tempo de realização: Dois dias são suficientes para a realização da Travessia com bom proveito dos atrativos. Para aqueles mais experientes e ágeis é possível percorrê-la em apenas 1 dia no modo speed; porém esteja ciente que será uma empreitada considerável.

► Segurança: Dada à sua localização mais isolada esta é uma travessia sem opções de escape. Excluindo a parte inicial e até as cabeceiras do Ribeirão Soberbo, quando se pode retornar ao início, não há um ponto de escape favorável a seguir. Portanto esteja ciente dessa dificuldade. Não há sinal constante de telefonia celular pela rota. Em períodos de chuva  pode não ser recomendável realizar a rota, pois há vários riachos e ribeirões a cruzar.

► Exposição ao Sol: como é comum pelo Espinhaço, há pouca sombra pela rota. Use protetor solar.

► Tarifas: É cobrado o acesso à região do Poço do Soberbo. Procure o Receptivo Lapinha.

► Cash: leve dinheiro trocado e em espécie. Pequenas localidades não aceitam cartões ou cheques.

► Cartas Topográficas: Presidente Kubitschek e Baldim


► Pratique a atividade aplicando os Princípios de Mínimo Impacto

Bons ventos!

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3 Comentários

  1. Chico, como sempre, que belo relato e que travessia maravilhosa!

    A região do poço do soberbo reúne alguns dos dias mais felizes que já vivi ao relento, com tanto poção e cachoeira concentrados em uma área relativamente tão pequena! É realmente um paraíso!

    Chico, se me permite, tenho uma pergunta fazer: percebo que em seus últimos relatos não há mais a disponibilização do wikiloc da travessia realizada. Você sempre fez questão de publicar seus trajetos e inclusive já escreveu um artigo de opinião lá nos idos de 2014 a respeito da divisão entre os montanhistas sobre a divulgação ou não dos relatos e caminhos percorridos em travessias. Gostaria de saber se essa ausência dos trajetos em seus últimos relatos é uma coincidência ou uma mudança de posicionamento da sua parte.

    De toda forma, com disponibilização de wikiloc ou não, continuarei degustando seus relatos e travessias e me inspirando para fazer minhas próprias incursões cerrado adentro, inclusive esta belezura de Extrema à Lapinha!

    Agradeço-o pelo trabalho extraordinário que você presta a todos os montanhistas e - te parafraseando! - desejo a ti sempre bons ventos.

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    1. Ei Rodrigo, bacana receber seu comentário e depoimento. Sem dúvidas a região do Poço do Soberbo é um lugar espetacular, daquele pra se ir mil vezes. E que bom tenha curtido a pernada relatada; é também belíssima em suas outras partes.

      Pois então Rodrigo, minha opinião não mudou. Se não disponibilizo tracklog é porque ou não usei GPS (sim, meu GPS anda meio capenga e não uso smartphone para gravação); ou então há algum impedimento (áreas de Parques ou outro tipo de UC's que ainda não definiu trajetos para o público); ou ainda quando algum proprietário de terras por onde percorri solicita a não publicação de rotas (sim, cada vez mais eles estão por dentro dessas tecnologias e possibilidades; logo pedidos tem acontecido com bastante frequência).

      De toda forma, nos relatos em que não publico tracklogs uma leitura bem apurada é capaz de se tornar uma boa proposta. Pelo menos me esforço por isso, realçando direções ou tomadas em bifurcações importantes; ou ainda descrevendo alguma referência significativa. É claro que apenas com um relato, por mais completo que seja, quem desejar repetir a rota relatada precisará ter pelo menos um mediano entendimento em navegação e experiência em caminhadas. Mas espero que em breve estejamos mais atuantes nos tracklogs.

      No mais, bons ventos pra você também, muito grato pela gentileza e pelo contato. Abraços

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    2. Com tracklog ou sem, me espelho nos seus relatos para replicar ou criar traçados nas minhas andanças por aí, e por isso sou sempre grato ao conteúdo inspirador que você disponibiliza!

      Espero que haja uma consciência cada vez maior por parte dos trilheiros em relação às marcas que deixam (alô, SPC das trilhas!) e também dos proprietários com relação a ceder a passagem pra terceiros que só querem curtir uma natureza na boa.

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(p)
:-s
(m)
8-)
:-t
:-b
b-(
:-#
=p~
x-)
(k)