Felício dos Santos ao Rio Preto

A Cachoeira do Sumidouro com grande volume d'água no início de 2019
Localizada no porção centro-norte do Espinhaço Mineiro, a Travessia Felício dos Santos x Rio Preto Via Sumidouro é uma opção de trekking que permite aproximar-se do Parque Estadual do Rio Preto vindo do Leste; com o diferencial de percorrer suas terras altas.

Sua variante inicial, trecho pouco percorrido por Montanhistas é ponto de partida para outras possibilidades naquela região, por isso se trata de um ponto estratégico. Foi pra essa região que nos mandamos no Carnaval 2019.

Relato Dia 1


Embarcamos em BH no início da madrugada do dia 02 de março 2019. Viagem tranquila rumo Felício dos Santos, cidade localizada na região centro-norte de Minas. Por volta de 7h00 desembarcamos na Praça da Matriz Sagrado Coração, seguindo de imediato para um café na Padaria Reymar.

O tempo estava carrancudo; inclusive no dia anterior havia chovido de modo esparso na região. Nos enrolamos na prosa na padaria e com alguns locais; modos que já beirava às 8h00 quando reembarcamos e deixamos a cidade rumo ao início da trilha; distante a cerca de 23 km.

Em minutos deixamos o casario de Felício e tomamos a estrada que leva para a cidade de Serra Azul, ao Sul. Dizem que se trata da MG 317, mas fato é que não passa de uma estrada de terra comum; que curiosamente estava seca e empoeirada; mostrando que a chuva de véspera fora minguada. Em pouco mais de 1h00 de sacolejo, em especial no esburacado desvio final da estradinha, chegamos ao ponto inicial da pernada.

A Sumidouro vista do início da pernada. Tempo carrancudo pela manhã
Desembarcamos num gramado ao lado da antiga escola municipal José Francisco Souza; poucos metros antes da ponte sobre o Alto Rio Araçuaí. Por ali ajeitamos as tralhas sem pressa, uma vez que a jornada prevista para aquele dia seria curta.

Nosso objetivo já era visto: a Cachoeira do Sumidouro despencando imponente no paredão rochoso à oeste. Até poderíamos seguir embarcados um pouco mais, mas a estradinha que sobe em direção ao paredão não é lá essas coisas para veículos maiores...

Pontualmente às 9h20 despedimos do nosso resgate e iniciamos a pernada. Passamos ao lado da escolinha abandonada e logo à frente, junto à matinha ciliar cruzamos através de uma ponte de madeira o Rio Araçuai, que por ali num passa de um corguinho.

Seguimos pela antiga estradinha que vai distanciando da margem esquerda do rio. Pouco adiante seguimos reto ignorando uma saída à direita que leva até uma fazenda. Não demora e a estradinha vai se tornando bastante íngreme; com lances cimentados nos trechos críticos.

Paredão da Sumidouro e Gavião: tempo abafado
À medida que subimos o sol vai saindo, trazendo consigo um calorão sufocante. Rasgamos uma capoeirinha e mais acima saímos em área arbustiva. Margeamos uma antena de telefonia celular pela sua direita; quando logo acima a estradinha dá uma estabilizada.

Aproveitamos escassas sombras nos arredores e fizemos uma parada para descanso, lanche e aglutinação pouco depois das 10h00. Região linda, com o paredão da Sumidouro e os topos da Serra do Gavião se destacando a oeste, porém ainda distantes... Enquanto descansávamos um veículo passou por ali...

Sete Quedas (zoom)
Somente às 10h40 retomamos a pernada. Descemos um curto lance e logo à frente deixamos a estradinha, que segue rumo a um sítio próximo à encosta onde há a Cachoeira Sete Quedas.

Tendo uma bonita placa artesanal indicativa no lugar, tomamos à direita através de uma trilha. Seguimos subindo entremeados pela capoeira e afloramentos rochosos. Há algumas saídas no trecho, mas nos mantivemos na principal, cada um no seu ritmo. Beirando às 11h00 fizemos nova parada para aglutinação.

Retomamos uns 10 minutos depois e sem alterações chegamos até uma bifurcação importante. Ali nos aglutinamos pois iríamos até a parte inferior da Cachoeira do Sumidouro.

Alguns dos amigos preferiram não ir até lá; optando por seguir direto para o topo da cachoeira, adiantando a pernada. Então os orientei que continuassem a subida e logo à frente teriam uma discreta saída à direita, que cortando a encosta em diagonal pela capoeira os levaria já no penúltimo e pequeno platô da subida para a Sumidouro.

Sumidouro despontando desde a trilha de acesso à sua parte inferior
Enquanto quem não iria à parte inferior permaneceu descansando na bifurcação, nós outros escondemos as cargueiras no mato e pouco depois das 11h30 tomamos a direita partindo rumo a parte inferior da Sumidouro.

Cruzamos uma fonte de água, ignoramos a tradicional subida para a parte alta da Cachoeira à esquerda e tocamos em nível pela ampla trilha; que se encontrava roçada e limpa. Adiante cruzamos uma porteira e percorremos suave declive até uma bifurcação.

Tomamos à esquerda e subimos rumo ao paredão; cruzando duas pequenas fontes de água que normalmente secam no inverno.

A trilha foi se tornando cada vez mais íngreme, inclusive com degraus; em especial quando aproximamos da Cachoeira. Sem alterações, pouco depois do meio dia chegamos à incrível e curiosa parte inferior da Cachoeira do Sumidouro.

Sumidouro. A foto primeira dessa postagem mostra mais da sua beleza...
Como indica o nome da Cachoeira, não há poço no lugar. As águas despencam do paredão sobre as rochas e desaparecem, despontando bem mais abaixo após grandes blocos rochosos. O paredão de cores características do Espinhaço e a viçosa vegetação nos arredores compõem um visual de encher os olhos.

A queda estava volumosa (veja foto que abre esta postagem), lançando respingos por todo lado. Impossível se aproximar e ficar embaixo da queda, tanto pelas rochas irregulares e escorregadias quando pelo incrível volume de água.

Da parte inferior da Sumidouro o visual para o vale do Araçuaí é amplo e magnífico. Num olhar mais atento é possível identificar vários lugarejos nos arredores. Também é possível admirar a variação da vegetação; denunciando pontos úmidos e aqueles mais secos. Um lugar incrível. Por lá encontramos somente um casal com filhos, os mesmos que de automóvel nos passou quando descansávamos lá embaixo próximo à antena...

Depois de apreciar o lugar, por volta de 12h40 iniciamos nosso retorno; fazendo o mesmo caminho da ida; e cada qual imprimindo o seu ritmo. O tempo continuava parcialmente nublado, com calor intenso e abafado; nos indicando que a chuva nos rondava e sua chegada seria iminente.

Voltando da Sumidouro...
Bastou meia hora de caminhada para chegarmos novamente até as nossas mochilas escondidas no mato. Foi quando ao conferi-las demos falta de duas amigas que haviam retornado da Sumidouro minutos antes de nós.

Como o trecho é curto, imediatamente imaginamos que haviam tomado a bifurcação contrária lá antes da porteira. Retornei sentido parte inferior da Sumidouro. Próximo à porteira as encontrei e realmente haviam trocado a bifurcação. Juntos retornamos às mochilas.

Foi o prazo de chegarmos e a chuva também chegou forte. Rapidamente colocamos nossas capas e seguimos subindo pela trilha batida rumo ao paredão. A chuva tornou-se cada vez mais intensa. Raios e trovões eram ouvidos, e pelo menos uns dois bem próximos de nós.

A trilha batida em aclive segue em meio a capoeira e pontualmente beirando cercas. Foi quando cheguei até uma tronqueira e dei conta que havia passado da antiga saída em diagonal! Tá certo, a chuva forte aliada ao capuz da capa atrapalhou minha visão no percurso; mas foi uma falha federal...

Isto me levou a concluir que; se eu que conhecia a discreta saída da trilha diagonal havia passado por ela sem perceber, certamente nossos amigos que não foram à parte inferior da Sumidouro também havia passado.

Numa rápida decisão, avisei os amigos que estavam por perto e apressei o passo pela trilha acima visando alcançar os dianteiros. Me preparei para andar bastante, uma vez que a diferença de horário entre nós era razoável.

Segui rapidamente pela trilha no interior da matinha, cruzei um trecho enlameado e logo à frente um curso d'água. Ao sair num ponto mais alto e com capoeira rala lancei um grito; e fui correspondido antes mesmo de utilizar o apito!

Os amigos estavam próximos e em minutos nos reencontramos. Como pensado, realmente haviam passado pela saída programada; e com isso caminharam bem mais que o necessário. Apesar da beleza do trecho em que caminharam, sabiamente desconfiaram do desvio e estavam retornando até nós...

Então nos juntamos e retornamos trilha abaixo visando a saída ignorada. A chuva havia dado uma trégua; permanecendo na trilha apenas os restos da forte enxurrada. Passada a tronqueira, atentamente segui observando à minha esquerda visando identificar a antiga trilha.

Porém, ao identificá-la constatei que sua continuação estava bem fechada; sinal de que ninguém mais a utiliza. Logo, com a vegetação molhada pela chuva recente não era razoável passar por ali. Descemos então novamente até a bifurcação; tomamos à esquerda; cruzamos o curso d'água e chegamos até entrada da trilha tradicional logo após 15h00, quando fizemos uma parada para descanso.

Velha porteira marcando a chegada ao topo (Foto Karina Pistache)
Como a temperatura havia caído após a chuva, a parada foi mais curta. Em uns dez minutos iniciamos a subida rumo ao topo da Sumidouro; logo após a passagem de alguns cavaleiros.

Seguimos pela trilha ampla e agora manejada pela Prefeitura de Felício, que colocou degraus de eucaliptos em grande parte do trecho. Em meio a capoeira e com pequenas curvas, a íngreme, porém boa trilha nos levou rapidamente até o topo, quando pouco depois das 16h00 chegamos até a tradicional e velha porteira.

Passamos junto à bonitas e curiosas rochas no topo do morro e ignoramos uma saída nordeste. Tomamos a discreta trilha rumo norte; que segue à boa distância, mas em paralelo ao precipício do paredão; pois queríamos observar o lugar através dos seus mirantes.

Porém, imediatamente a neblina envolveu o lugar, nos impedindo de observar a beleza dos arredores. Veio junto o friozinho comum dos descampados. Para completar a chuva também retornou, embora mais fina que aquela que nos pegou mais cedo lá embaixo.

A queda gigante após a chuva naquele fim de tarde...
Em poucos minutos chegamos no ponto pretendido para o pernoite. O objetivo era pernoitar próximo ao Córrego, mas com o tempo duvidoso optamos por uma área segura mais acima em paralelo à margem direita. O local não era dos melhores, mas em meio aquele cascalho generalizado até que não se revelou tão ruim.

O que incomodou a montagem do acampamento foi a chuva, que insistia em cair e formar veios de enxurrada... Mas como é costumeiro nessa situação, foi só montar as barracas que a chuva passou. Igualmente a neblina, levando consigo o friozinho da chegada.

Como era tarde e dada às condições climáticas, somente alguns de nós desceu até o córrego para banhar-se naquele fim de tarde. Não fazia frio e a água estava agradável. Corri no topo pra fazer umas fotos da Cachoeira do Sumidouro. Estava lindona, assim como todo o Vale do Alto Araçuaí lá embaixo.

Depois barraca e afazeres normais de um acampamento. Pela madrugada, além de ouvir vocalizações de animais silvestres, um céu repleto de estrelas nos cobriu, fato que sempre nos enche de esperança quando estamos numa travessia...

Relato Dia 2


Sumidouro em meio às brumas... Achei essa imagem bonita!
Após uma madrugada estrelada, o segundo dia no topo da Sumidouro amanheceu coberto pela neblina. Mas isto era esperado devido a umidade da tarde e noite anteriores. Então nada daquele nascer do sol que sempre é maravilhoso naquele lugar.

Desse modo, após acordar, tomar um café e cair fora das barracas, resolvemos descer até o topo da Sumidouro, afinal aquele era um lugar digno de visita. Além disso, alguns amigos não tinham estado por ali na tarde anterior.

O topo da Cachoeira do Sumidouro é um lugar significativo, com incrível visual. O terreno vem do Oeste em declive acentuado quando abruptamente é cortado por um paredão com aproximadamente uns 100 metros de altura em alguns pontos.

O curso d'água que acompanha o terreno desce formando poços convidativos até despencar pelo paredão, formando a Cachoeira. Observar a queda desde os vários mirantes à beira do precipício é ação obrigatória. Além disso poderá observar o Vale do Araçuaí lá embaixo, com aquele mundaréu de morros a se perder no horizonte...

Chegamos então ao topo da Sumidouro e devido a neblina não era possível nem ao menos ver a queda lá embaixo ao final do paredão; formando o sumidouro. Não desistimos de imediato; afinal ser paciente é característica de montanhista!

Fizemos hora por ali e como um prêmio o tempo começou a abrir. Corremos para o mirante para observarmos a queda e o sumidouro lá embaixo. É sem dúvidas uma das vistas de cachoeiras mais bonitas em Minas Gerais. E tornara ainda mais sob o bailar das brumas naquela manhã. Simplesmente incrível!

Por volta de 8h30 retornamos até as barracas para o ajeitar final e despedida do lugar. Passava das 9h00 quando iniciamos a jornada do dia. Tomamos a trilha que mira os campos interiores da Serra do Gavião.

Em suave aclive ignoramos adiante a saída para a parte inferior e tomamos rumo sul. Percorremos um trecho arenoso, margeando afloramentos; quando observamos marcas de pneus de motocicleta pela trilha. Há por ali boas áreas para acampamento. Pouco adiante, em uma guinada tomamos o rumo sudoeste, com a trilha em suave aclive e apertada por dois morrotes.

Banda norte da Gavião
Despontamos então em um amplo campo interior pouco depois das 9h30. Para o norte observamos ramificações da Serra do Gavião com elevadas e incríveis formações. Por ali desce o principal curso d'água da Sumidouro, formando alguns poções e corredeiras.

Aos pés da serra notamos um colorido diferente, que devido a distância não foi possível identificar se tratava de um rancho, curral, lona ou mesmo barracas de alguém... À nossa esquerda e bem próximo a trilha uma pequena lapa que antigamente era utilizada para pouso. Da última vez que passei por ali havia cobertura com palhas e capim, algo inexistente dessa vez...

Pequena Lapa
Ignoramos uma discreta saída rumo Norte e seguimos para o Oeste cortando o amplo e plano campo pela trilha relativamente marcada. Vamos sempre ignorando algumas saídas de trilha de vaca para ambos os lados.

Aproximamos de uma cerca e cruzamos uma porteira velha. Mais alguns metros e em torno de 10h00 chegamos até um veio de matinha ciliar cortado por uma boa fonte de água. Fizemos uma parada para reabastecimento e troca, pois a fonte de água apresentava-se límpida.

Na sequência, dando uma guinada para o Sul percorremos um curto trecho mais íngreme e com algumas velhas passagens erodidas. Ao estabilizar da trilha chegamos até um velho curral de arame. Nos aglutinamos e prosseguimos em aclive na direção de uma capoeirinha. Pelo trecho restos de carenagem de motocicletas... Adentrando à capoeirinha a trilha torna-se ampla e erodida.

Pico Dois Irmãos se destacando
A essa hora o sol começa a dar as caras de vez, trazendo consigo o habitual calorão. Pouco antes das 10h30 finalizamos a subida pelo interior da capoeira e nos abrigamos para um descanso nas suas últimas sombras.

Tínhamos à nossa frente à noroeste um vasto e belíssimo campo. Ao fundo e ainda bem distante o Pico Dois Irmãos na divisa do PE do Rio Preto já nos dava boas vindas. De onde estávamos era fácil compreender porque esse Pico leva o nome Dois Irmãos. Pelo ângulo duas formas piramidais se destacam; aparentando praticamente a mesma altura.

Fizemos um lanche aproveitando as sombras e o visual para o campo aberto. Pouco abaixo de onde estávamos, no sentido norte há um rancho em que me abriguei da chuva em uma das vezes que passei por ali. Dessa vez nem cogitei seguir até lá... Descansados vamos ajeitando nossa continuação quando uma das amigas constatou que o seu camelback havia se aberto dentro da mochila.

Fato contornado com sucesso, beirando 11h00 retomamos a caminhada pelo campo aberto. A trilha nos levou até um suave aclive, próximo a uma matinha que marca o encontro a uma velha estradinha que vem do Oeste.

Antes de atingir a estradinha tomamos o rumo noroeste/direita através de uma discreta trilha. Logo ela se perdeu no capim e passamos a percorrer trechos mistos, ora com trilha de vaca, ora sem trilha. Havia por ali sinais de que alguém havia percorrido o trecho recentemente...

Velho curral de arame
Nosso objetivo era atingir um curral de arame num ponto mais destacado adiante. Jornada visual, a pernada rende e às 11h15 mais ou menos chegamos até o curral. Por perto havia algum gado, que curiosamente não se sentiu atraído pela nossa presença... Mas compreendemos, afinal o pasto estava viçoso naquela época do ano...

Pedi que os amigos permanecessem por um instante ali nas imediações do curral e prossegui até o curso d'água próximo para verificar uma passagem sem ter que tirar as botas.

Ocorre que este curso d'água que é uma das nascentes da Cachoeira do Sumidouro apresenta naquele local estreitos remansos, porém largos o suficiente para complicar a transposição. Encontrei um ponto adequado que permitia cruzar o riachinho em um pulo sem tirar as botas. Sinalizei aos amigos que viessem; quando sem dificuldades fizemos a transposição.

Após cruzar o riacho seguimos em aclive pelo morrote da sua margem esquerda visando atingir mais adiante os restos do que outrora fora uma estradinha... Em poucos metros cruzamos uma tronqueira.

Foi quando me lembrei que não havia solicitado aos amigos que se abastecessem de água lá embaixo no riachinho. Isto seria problemático, pois a próxima fonte segura de água seria somente lá na Casa de Guardas; já em terras do PE do Rio Preto. Mas conforme resposta dos amigos, concluímos que tínhamos água suficiente para o trecho.

Itambé e Serra da Bicha vistos desde a rota
Prosseguimos a caminhada e logo à frente atingimos os restos da velha estradinha. Trilha agora mais ampla, mesmo com o calor e em aclive a caminhada rendia. Beirando meio dia a trilha nos levou até uma cerca, que cruzamos e passamos a acompanhá-la pelo seu lado esquerdo.

Sem alterações a trilha batida em suave aclive nos levou sem percalços até os limites do Parque Estadual do Rio Preto pouco depois de meio dia. Cruzamos a cerca divisória do Parque e fizemos uma boa parada para descanso e lanche.

O visual do lugar compensava. Já bem próximo e ao Norte tínhamos o imponente Pico Dois Irmãos. Na direção oposta e muito distante o Pico do Itambé. Para Oeste a região das nascentes da Sumidouro com bonitas elevações de onde vínhamos. Para o Oeste a porção interior do PE do Rio Preto que ainda iríamos percorrer.

Fazia calor e volta e meia nuvens pesadas roçavam os céus da região.  Nosso objetivo era seguir até o Pico Dois Irmãos; porém parte dos amigos optaram por encurtar a pernada e descer rumo a Casa de Guardas do Parque. Assim, escaldado pelo ocorrido no dia anterior, caminhei com eles pelo início da discreta trilha; prosseguindo até o ponto aonde se via a Casa de Guardas. Era pra lá que iriam...

Enquanto parte dos amigos desciam para a Casa de Guardas retornei até aqueles que iriam subir o Dois Irmãos e que permaneceram na divisa do Parque. Ao chegar, cobrimos as mochilas receosos que caísse uma chuva.

Somente com lanche e água partimos às 12h50 rumo ao Pico Dois Irmãos. Seguimos a marcha pelo aceiro do Parque. A rota é visual e praticamente plana até a base do Dois Irmãos.

Dois Irmãos já bem próximo...
Em pouco mais de 20 minutos de caminhada chegamos até a base; ponto que antigamente causava confusão no ataque ao Dois Irmãos.

Ocorre que havia dois caminhos. Um deles, mais complicado e inadequado atacava o cume pela sua face sul, que é íngreme, com muitas rochas entremeadas por vegetação arbustiva; sem trilha definida.

O outro caminho tomava a direita fora dos limites do Parque e atacava o cume pela sua encosta mais suave; porém o pisoteio nunca fora homogêneo. Agora o PE do Rio Preto sinalizou o local e acertadamente optou pelo trajeto mais suave.

Sinalização implantada pelo PERP
Desse modo cruzamos a cerca divisória do Parque e passamos a galgar rochas em terras particulares. Deparamos então com uma pequena fonte de água. Sim, era uma água temporária, mas foi suficiente para nos reabastecer, pois estávamos economizando o precioso líquido.

Matamos a sede, nos abastecemos e continuamos subindo, acompanhando o pisoteio já formado pela sinalização pintada nas rochas. Adentramos ao Parque e passamos a percorrer o trecho mais íngreme da encosta. Em torno de 13h30 botamos os pés no cume do Pico Dois Irmãos; que também é chamado de Morro Grande.

Pico do Itambé(E) e Serra da Bicha (D) vistos desde o cume do Dois Irmãos.
Com a didática das modelos tudo fica mais fácil e agora não erraremos mais... 

Ponto culminante do Parque Estadual do Rio Preto com 1.830m de altitude, o destaque desde o Pico Dois Irmãos é o incrível e amplo visual em 360 graus.

Para o sul e bem distantes os inconfundíveis Pico do Itambé e a Serra da Bicha. Para o Norte a faixa divisória do Parque e as vastas regiões de São Gonçalo do Rio Preto e Felício dos Santos, destacando a Pedra Menina à Nordeste. A Leste o trecho final da Serra do Gavião e os arredores do Vale do Araçuaí. Para o Oeste as terras interiores do Rio Preto e as Serras em direção à Extração, Salitre, Diamantina.

Pico Leste visto desde o cume do Pico Oeste-Principal
Curiosamente, do cume do Pico principal à Oeste, o pico gêmeo visto à Leste parece mais um ombro do Principal; sendo de fato bem mais baixo que seu irmão. Não há trilha para seguir até seu cume, que é formado por um amontoado de rochas entremeadas por vegetação.

Já o Pico Oeste e principal tem cume alongado Sul-Norte, porém irregular e repleto por rochas. No ponto mais elevado há uma caixa com o Livro Cume, no qual deixamos nossos registros. Importante salientar que não é permitido pernoite no topo do Dois Irmãos.

Chapada do Coito
Enquanto estivemos no topo do Dois Irmãos o tempo foi generoso. Mesmo com algumas nuvens, o sol predominou iluminando o Espinhaço. Depois de tanto tempo sem ir ao lugar, retornar foi uma experiência incrível...

Por volta de 14h30 deixamos o cume do Dois Irmãos. Pela mesma trilha da ida retornamos até as mochilas, pois era necessário passar pela Casa de Guardas do Parque. Assim, não utilizamos o atalho norte que nos levaria já bem abaixo do Posto de Controle.

Rochas aonde está o Livro Cume
De volta às mochilas, ajeitamos as tralhas e em torno de 15h15 tomamos a discreta trilha atalho para a Casa de Guardas.

Relativamente conservada, a trilha em suave declive corta a área de campos e desemboca em um afluente do Rio Preto, que apesar de pequeno forma alguns pocinhos bem interessantes para aquelas horas de calor... Porém passamos reto e em torno de 15h40 chegamos à Casa de Guardas.

Como sempre fomos muito bem recebidos, inclusive com um cafezinho. Procedemos os trâmites do nosso acesso; intercalado com uma prosa animada. Novamente aglutinados deixamos a Casa de Guardas da Chapada próximo às 16h00; seguido em direção à Casa do Mozart; nosso local de pernoite. Trata-se do trajeto comum para quem visita a Parte Alta do PE do Rio Preto.

Enquanto descíamos, logo após cruzar uma fonte de água, o tempo fechou de uma hora para outra. Observamos a chuva chegar e cobrir o Pico Dois Irmãos, criando uma bonita imagem entrelaçada com os raios de sol... Em minutos a rápida pancada de chuva nos atingiu, nos obrigando a colocar as capas. Desorganizado não localizei minha capinha e tive que me proteger com um moderno saco estanque de ração...

Casa de Guardas da Chapada (Foto 2017)
Sem delongas fomos descendo em grupos. A trilha batida não oferece risco para erros. Mais abaixo passamos pelo desemboque da trilha discreta que vem do Dois Irmãos. Descendo mais um pouco ignoramos a trilha da esquerda que passa próximo a Lapa do João Lúcio e outra Casinha de Guarda.

Tomamos a trilha da direita; margeando também pela direita um morrote de afloramentos. Trecho com trilha um pouco erodida, cruzamos a mesma água em dois pontos distintos e desembocamos no amplo gramado da Casa do Mozart pouco depois das 17h00.

Casa do Mozart (Foto: 2017)
A Casa do Mozart é uma construção pequena, porém grande pelo que foi um dia. Era moradia de um Senhor de nome Mozart, que em tempos anteriores ao Parque recebia tropas para pouso naquelas terras altas.

Bem conservada, inclusive as paredes internas originais em pau-a-pique, o PERP a transformou em Abrigo para Montanhistas, com banheiro e fogão a gás; além de algumas camas e energia solar. Os arredores são gramados, planos e bem cuidados, ótimos para armada de barracas.

Casinha de Guardas (Foto: 2017)
Distante uns 300 metros à sudoeste da Casa do Mozart há um Heliponto e outra construção destinada aos Guarda Parques. Juntamente com a Casa de Guardas da Chapada, localizada mais próxima à divisa Sul; esta é uma alternativa à estadia dos Guardas na parte alta do Parque.

Dependendo das circunstâncias esta casinha também pode ser utilizada por Montanhistas. Possui banheiro e algumas camas; além de pia e alguma mobília.

Adentramos à Casa do Mozart que como sempre estava impecável. Com liberdade cada qual foi se distribuindo pelo espaço. Alguns de nós preferimos armar as barracas no gramado, sabe como é, gostamos disso...

Restante da tarde e noite dedicada aos afazeres costumeiros. Mais tarde uma pequena serpente nos visitou e também queria a todo custo adentrar à Casa do Mozart. Com um balde a recolhi e soltei num ponto distante da casa. Depois o descanso recuperador...

Relato Dia 3


Foto de 2017.Vê-se o o Vale e o Morro do Alecrim.
À direita a Serra Mata dos Crioulos.
Nota-se o resultado do incêndio sofrido pelo PERP naquela ocasião
O terceiro dia da nossa pernada amanheceu também nublado e abafado. Beirava 8h00 quando deixamos a Casa do Mozart na Parte Alta rumo a Sede do Parque Estadual do Rio Preto. Há basicamente dois caminhos: a Rota da Crioulo e a Rota das Corredeiras. Optamos por realizar a Rota da Crioulo, pois isto já facilitaria nossa vida para o dia seguinte.

Trecho bastante conhecido em especial para quem realiza a Travessia Itambé x Rio Preto ou vá realizar o Circuito Parte Alta do Rio Preto, rapidamente passamos pela Segunda Casa de Guardas.

Tomamos a saída da direita e chegamos ao Rio Preto, que apresentava volume de água suficiente para nos obrigar a tirar as botas logo cedo. recompostos, passamos a percorrer suave aclive, nos distanciando da margem esquerda do Rio. Estabilizados, passamos por belos blocos rochosos; atingindo o ponto máximo do dia. Logo nos despontou o belo Vale e o Morro do Alecrim.

Iniciamos o longo aclive até o vale percorrendo a trilha antiga, erodida e com muito cascalho. Descendo mais lentamente, tivemos tempo propício para observarmos a recuperação do terreno que sofreu forte incêndio em outubro de 2017.

Perto das 9h00 atingimos as primeiras águas do Ribeirão das Éguas, adentrando no Vale do Alecrim. Fizemos uma parada para descanso e lanche. Uns 20 minutos depois retomamos a pernada pela trilha plana e arenosa.

Contornamos o Morro do Alecrim pela sua esquerda e iniciamos novo trecho em declive. Cruzamos uma tronqueira velha e tomamos o rumo Norte em definitivo. Destaca no visual a imponente Serra Mata dos Crioulos à Oeste, com suas milhares de rochas sobrepostas. Será nossa companheira visual pelo menos até a Cachoeira do Crioulo!

Cá na trilha ampla e em suave declive apresentávamos ótimo rendimento e às 10h00 fizemos curta parada para descanso. Nesse ponto há uma bifurcação importante. Para a esquerda há uma velha trilha que cortará as terras do Parque no rumo Noroeste, saindo pras bandas da zona rural de Couto. Portanto, nosso trajeto será pela saída da direita.

Trilha irregular pelo trecho...
Retomamos a caminhada e seguimos pela trilha por entre afloramentos e lajeados; sempre perdendo altitude. Tínhamos à nossa frente-norte o interiorzão do Rio Preto. Passamos por antigos sinais de garimpo e após uma descida por lajeado a trilha torna-se menos íngreme. Cruzamos águas temporárias e desviamos de muitas rochas.

Pouco antes das 11h00 passamos pela Lapa do Zé Bahiano à nossa esquerda. Percorríamos um trecho em que a trilha se confunde com a drenagem quando fizemos uma nova parada para descanso e aglutinação. Porém foi rápida, uma vez que o sol deu as caras e torrava nossos cocos...

Retomamos a pernada e pouco abaixo cruzamos um afluente do Ribeirão das Éguas sem necessidade de tirar as botas. A declividade prossegue e o calor também. A trilha bastante irregular torna-se um tanto cansativa e exige bastante dos joelhos. Necessário atenção constante para não ocorrer acidentes.

Margeando e cruzando afloramentos sempre muito curiosos voltamos a nos aproximar do Ribeirão das Éguas. À nossa direita há pelo menos duas Cachoeiras; todas com bom volume de água.

Brincando de seguir um rastro de felino pela trilha prosseguimos sempre em declive, porém menos acentuado. Beirando o meio dia e sob forte calor aproximamos novamente do Ribeirão das Éguas. Agora não teve jeito: tivemos que tirar as botas para cruzá-lo. Alguns amigos sempre mais modernos não precisaram fazer isto, pois seus calçados permitiam ou molhar e rapidamente se enxugar; ou então eram impermeáveis.

Cruzado o Ribeirão em meio a prosa, me esqueci de avisar àqueles que haviam tirado a bota para cruzar o ribeirão que metros à frente teríamos que cruzá-lo novamente!!! Pois então, descemos um lance e chegamos ao Éguas novamente. Tivemos que tirar as botas, exceto alguns que localizou um ponto de passagem um pouco acima; um pulo meio desajeitado.

Cruzando a ponte na cabeceira da Crioulo
Cruzado o Éguas pela penúltima vez, a jornada mais íngreme estava chegando ao fim... Após o Ribeirão seguimos pela trilha ampla e estabilizada. Nos aglutinamos próximo à bifurcação da trilha de fora. Tomamos à direita e às 12h20 desembocamos na trilha do Circuito Cachoeira do Crioulo do Parque.

Dali foram poucos metros e chegamos à ponte acima da Cachoeira do Crioulo; cruzando novamente o Ribeirão das Éguas. Curta pausa para cliques e fizemos o contorno pela trilha normal, chegando às 12h30 e sob intenso calor ao areião da Crioulo...

Foi quando deparamos com poucas pessoas no lugar; algo surpreendente para um carnaval... Conversando com um Guarda local, ele me informou que no sábado, primeiro dia do carnaval o parque estava cheio. Na parte da tarde houve uma forte chuva na região (certamente a mesma que nos pegou lá na subida da Sumidouro).

Com isto muita gente que estava pelo parque foi embora; principalmente no camping... Melhor pra nós que pudemos curtir o lugar sem os atropelos de ocasiões anteriores...

Cachoeira do Crioulo
A Cachoeira do Crioulo é uma joia do Parque Estadual do Rio Preto. Não pela queda em si, que é até pequena em altura; mas sim pelo conjunto vegetação nos arredores, rochas em variados formatos, grande e misto poço e considerável faixa de areia! É um lugar caprichosamente belo; uma legítima e agradável praia fluvial!

Tempo parcialmente nublado, quando o sol saía vinha tostando os miolos. O calorão era grande; propício para se curtir uma cachoeira. Então, tempo livre para cada qual curtir o lugar a seu modo e modas.

O Flavinho preferiu se adiantar e ir curtir os remansos do Éguas mais pra baixo. Eu preferi descansar numa sombra próxima ao poção e papear com outros visitantes; alguns deles me reconhecendo desse mundo virtual. Pouco tempo após chegarmos à Crioulo, o guarda parque aglutinou o grupo de visitantes que faziam o Circuito e desceu rumo a sede. Nós permanecemos por lá mais um tempo, uma vez que conhecemos o trajeto. 

Beirando 14h00 deixamos a Crioulo. Nosso destino era a Sede do Parque. Grande parte desse trecho percorreríamos as margens do Ribeirão das Éguas, ora pela esquerda, ora pela direita. Logo no início da pernada há uma pinguela a ser cruzada. Uma de nossa amigas escorregou e mergulhou nas águas. Mas foi prontamente auxiliada pelos amigos e nada de complicado ocorreu, a não ser uns piripaques no aparelho celular... 

Ribeirão das Éguas
Após a pinguela seguimos pelas rochas da margem esquerda do Éguas. Há uns pontos ruins para se passar com cargueiras, que era o nosso caso. Mas seguimos progredindo e logo à frente a trilha melhora, passando pela vegetação.

Após a vegetação chegamos até uma escadinha de madeira, local próximo a um grande remando do ribeirão. Por lá topamos com o Flávio se refrescando. Descemos a escadinha e seguimos pelo leito rochoso.

Cruzamos o Éguas agora para a margem direita. Descemos algumas rochas e prosseguimos. Esses trechos são sempre percorridos mais lentamente, afinal estávamos com cargueiras e toda a atenção é necessária. A cada passada o Ribeirão das Éguas vai revelando poços e corredeiras; ou seja, é um lugar que merecia um dia de umas 100 horas...

Cachoeira Sempre Viva
Percorremos então um trecho menos íngreme do leito, com visual se ampliando rumo norte. Para os lados Leste e Oeste incríveis formações rochosas pelas encostas íngremes e recobertas de vegetação arbustiva. Mais um pouquinho e às 15h20 chegamos à Cachoeira Sempre Viva.

A Sempre Viva estava lindona. O bom volume de água formava quedas em praticamente toda a sua extensão. Esta cachoeira não possui poço embaixo da queda, mas permite duchas relaxantes. O poção se forma alguns metros abaixo, sempre muito convidativo naquela tarde calorenta. Descemos a pequena parede pela direita e fizemos uma parada para apreciar o lugar...

Beirando às 16h00 retomamos a pernada pelo leito do Ribeirão das Éguas. Descemos uma escadinha instalada pelo Parque e prosseguimos pela margem direita do ribeirão. A declividade diminui um pouco e seguimos alternando trechos pelas rochas e outros pela vegetação ciliar.

Não demora e o leito do ribeirão faz uma curva para esquerda e prosseguimos acompanhando. Perdemos uma saída de rocha e isto nos fez percorrer um trechinho na matinha ciliar; mas logo concluímos que teríamos que pisar na água mesmo... 

Aproximando da Forquilha; lá naquela areia
Logo adiante prosseguimos pelas rochas da margem direita quando margeamos um grande poço. Estabilizados chegamos à Forquilha às 16h40, mais ou menos.

A Forquilha é o lugar onde o Ribeirão das Éguas deságua no Rio Preto. Há a formação de um amplo remanso, com profundidade variada e leito misto. É um lugar que sempre merece uma horinha de curtição. Mas naquela tarde estávamos com o tempo apertado, pois tínhamos que chegar à sede até às 17h00.

Tiramos as botas e alguns de nós colocamos roupa de banho; e com água acima da cintura vamos cruzando o remanso com as mochilas levantadas. Com a ajuda de todos não demoramos a efetivar o processo.

Aglutinados na margem esquerda do agora Rio Preto passamos a percorrer a sombreada e ampla trilha que leva até a sede. Em dez minutos desembocamos na Trilha que vem das Corredeiras e aquela que sobe para a Crioulo. Cruzamos uma pequena ponte sobre um fio d'água e às 17h10 chegamos aos sanitários do Parque.

A partir dali a trilha se torna uma estradinha interior do Parque. Serão quase 1,5 km com aclives, declives e curvas que parecem nunca acabar... Como não há a possibilidade de erros no trecho, cada qual no seu ritmo seguimos até o Restaurante do Parque, aonde chegamos em torno de 17h30. Por lá já nos aguardava a simpática Valéria, que nos serviu um caprichado almoço tardio.

Nos enrolamos no restaurante e lá pelas 19h00 desci rumo ao camping oficial do PE do Rio Preto; distante 500 metros do restaurante. Como já nos havia dito o Guarda lá na Cachoeira do Crioulo, o camping estava bem vazio. Nos instalamos na porção mais ao norte do lugar.

Foi uma noite agradável, com bastante papo e reencontro com alguns amigos que visitavam o Parque. Mais tarde silêncio absoluto e descanso. Tudo suficiente para repor as energias, já que aquele havia sido um dia intenso.

Relato Dia 4


Poço do Veado
O quarto e último dia da nossa empreitada seria preguiçoso; dedicado a visitar os arredores da sede do PE do Rio Preto; em especial o Poço do Veado. Pretendíamos também retornar a BH mais cedo, já que as estradas de acesso à Capital costumeiramente se apresentam complicadas em final de feriadão...

Acordei cedo com o cantar dos passarinhos, mas permaneci na barraca até mais tarde; pois pra variar o dia amanhecera nublado. Enquanto alguns amigos foram ao restaurante tomar o café da manhã eu permaneci no camping e por lá fiz o meu desejum; juntamente a outros amigos...

Praia fluvial
Passava das 9h00 quando nos juntamos e deixamos o camping em direção ao Poço do Veado. Tomamos a trilha atalho que parte do fundo Norte do camping e rapidamente desembocamos na estrada de acesso a sede, pouco antes da Ponte das Boleiras.

Cruzamos a ponte e tomamos a trilha sinalizada à direita. Praticamente em nível e pela margem esquerda do Rio Preto, às 9h40 chegamos ao Poço do Veado. 

Peixinhos e peixões no Poço do Veado
Localizado no curso do Rio Preto, o Poço do Veado é de uma beleza incrível. Suas águas acobreadas formam um belo conjunto; contrastando com a areia branca das suas margens e com o verde da vegetação do entorno.

O poço é bem grande, aberto e recebe ótima insolação. A profundidade vai de poucos centímetros a alguns metros nas proximidades da pequena queda que o precede. Acima da queda há o leito rochoso do Rio Preto, formando remansos e ofurôs. Na ocasião o Poção apresentava bom volume de água... 

Permanecemos ali nas sombras dos arredores e cada qual tratou de curtir o lugar do seu jeito. Como aquele era o último dia de carnaval, o Parque estava bem vazio. Então poucas pessoas apareceram no Poço do Veado enquanto estávamos por lá.

Como pretendíamos retornar mais cedo para BH não cogitamos descer até o Vau das Éguas, outro remanso bem abaixo do Poço do Veado. Isto porque depois da caminhada o que mais queríamos era descansar e curtir um pouco de preguiça...

Como a rota de retorno até o Camping é simples e sem possibilidades de erro, tivemos a liberdade de fazê-lo quando desejássemos. Assim, nós últimos deixamos o Poço do Veado por volta de 12h30 e em pouco mais de 20 minutos já estávamos novamente no Camping.

Ao chegar alguns amigos que retornaram antes de nós já haviam desmontado o acampamento. Fizemos então sem pressa e pouco antes das 14h00 fui o último a subir para o restaurante. 

De volta ao restaurante almoçamos tranquilamente, pois havíamos adiantado o nosso processo. Após o almoço permanecemos nos arredores do restaurante à espera do nosso resgate. Tempo para bater papo, rever amigos... Inclusive enquanto estávamos por lá amigos do Pé nas Trilhas de BH chegaram; finalizando a Travessia desde o Itambé.

Nosso resgate chegou pouco depois das 15h00. Como já estávamos no aguardo, rapidamente ajeitamos as tralhas e iniciamos nossa viagem de retorno próximo de 15h30. Enquanto percorríamos o trecho ente a Sede e a Portaria uma "poeirinha" de chuva passou pela região, porém não foi adiante. Interessante observar que estavam realizando melhorias nesse acesso, calçando com bloquetes alguns trechos mais críticos.

Por volta de 16h30 passamos por São Gonçalo do Rio Preto e de lá partimos non stop até Curvelo, quando fizemos uma parada no Posto-Restaurante próximo a rotatória de Cordisburgo; onde chegamos em torno de 19h00. Pós descanso e rápido lanche, seguimos viagem em torno de 19h30. Já na BR 040 curiosamente não enfrentamos o esperado trânsito de feriadão. Sem sobressaltos desembarcamos em BH pouco antes das 22h00, colocando fim à jornada. 

Amigos na pose no início da pernada. Foto: Tadeu Cambuquira
Além de permitir vivenciar o espetacular Parque Estadual do Rio Preto, essa variante iniciando em Felício dos Santos acrescenta atrativos e trechos interiores igualmente interessantes, com menos interferências como na rota vinda do Itambé.

Por ser menor em extensão, também se revela atraente opcional, podendo ser encaixada em períodos de três dias; sem exigir extenuantes jornadas diárias.

Também pode ser parte de outra rota na região, que é aquela que segue para as bandas de Diamantina, Via Pindaíbas, Acaba Mundo e Extração. Por tudo isso agradeço imensamente aos amigos por acreditarem nessa jornada. Foram tão dispostos, atenciosos e pacientes que serão sempre lembrados. Muito grato a todos, nos vemos nas trilhas. Inté! 

Serviço


A rota Felício dos Santos x Parque do Rio Preto Via Sumidouro tem início na Comunidade do Gavião, distante por estrada de terra cerca de 23 km da cidade de Felício dos Santos; e término na Área de Serviços do Parque Estadual do Rio Preto PERP; distante por estrada de terra cerca de 20 km da cidade de São Gonçalo do Rio Preto; ambas na região centro-norte de Minas. Totaliza aproximadamente 50 km de extensão; sendo que mais de 90% desse percurso são trilhas em variados níveis.

Inicialmente cruza áreas particulares, passando pela imponente Cachoeira do Sumidouro, para a seguir cruzar a Serra do Gavião e se aproximar da Parte Alta do PERP. Dentro do Parque inclui visita ao Pico Dois Irmãos e na sequência percorre a trilha Mozart-Crioulo-Sede. Convém não confundir esta rota com outra variante Felício x Rio Preto, que inicia na região do Codó e atinge o Parque pelo trecho final da rota das Corredeiras; já portanto bem próxima à Sede.

Apesar do trecho dentro do PERP ser bastante conhecido dos Montanhistas mineiros, pois é parte da rota Itambé x Rio Preto, sua ligação vinda da Sumidouro é pouco realizada. Esse trecho apresenta trilhas em toda a sua extensão e maior isolamento se comparado à outras rotas da região.

Além disso guarda pontos muito interessantes nos arredores e que não visitamos nessa ocasião, como as elevações norte da Serra do Gavião. Também é desse trecho que parte outra rota que se destina 1) à oeste, atingindo Pindaíbas, Acaba Mundo e Extração; 2) ao Sul, atingindo o PE Pico do Itambé pela Cachoeira do Rio Vermelho; porém esse trecho final atualmente não se encontra aberto à visitação.

Dentro do PERP é possível percorrer a rota Mozart-Corredeiras ao invés da Rota Mozart-Crioulo. Essa opção resulta em um menor percurso entre a Parte Alta e Baixa do Parque; e passa por pelo menos três lapas e algumas pinturas rupestres; em especial aquelas existentes na Lapa do Filó. Porém, essa rota não passa pelas Cachoeiras do Crioulo e Sempre Vivas; bem como pelo leito do Ribeirão das Éguas, que são atrativos clássicos daquela unidade de conservação.

Apesar dessa rota apresentar cachoeiras maravilhosas, como a Sumidouro com seu paredão inconfundível e a clássica Crioulo, consideramos o Pico Dois Irmãos o seu grande destaque. Isto porque além de ser o ponto culminante de toda a rota, com 1.830m de altitude; do topo do Dois Irmãos é possível observar praticamente todo o trajeto dessa bonita Travessia; além de grande amplitude em todos os quadrantes.

Distâncias aproximadas


Cidade referência: Belo Horizonte


Belo Horizonte a Felício dos Santos: aproximadamente 365 km, via BR's 040/135/259/317
Felício dos Santos a Comunidade do Gavião: 23 km estrada de terra
São Gonçalo do Rio Preto a Belo Horizonte: aproximadamente 350 km
São Gonçalo do Rio Preto à Portaria do PERP: 15 km estrada de terra
Portaria do PERP à Praça de Serviços: 5 km estrada de terra
São Gonçalo do Rio Preto a Diamantina: 55 km

Como chegar e voltar - de ônibus


Cidade referência: Belo Horizonte

Ida: Viação Pássaro Verde até Diamantina/Felício dos Santos → Táxi ou à pé até Bairro do Gavião
Volta: Táxi ou à pé até São Gonçalo do Rio Preto → Viação Pássaro Verde até Diamantina/BH

► Consulte no site da empresa de ônibus os horários e frequências.

Como chegar e voltar - de carro

Cidade referência: Belo Horizonte

Ida: BR 040 até Trevão de Curvelo → BR 135 até Curvelo → BR 259 até Trevo Diamantina → BR 367 até Trevo de São Gonçalo do Rio Preto → MG 214 até Trevo de Felício → MG 317 até Felício dos Santos → Estrada de terra para Bairro do Gavião (MG 317, mas sem asfalto)
Volta: Estrada Rural do PERP até São Gonçalo do Rio Preto → MG 214 até BR 367 → BR 367 até BR 259 → BR 259 até Curvelo → BR 135 até Trevão → BR 040 até Belo Horizonte

► Atente-se que início e fim da Travessia se dão em locais distintos e distantes. Necessário programar resgate. Em caso de chuvas intensas as estradinhas rurais podem estar danificadas.

Hospitalidade


Tanto Felício dos Santos quanto São Gonçalo do Rio Preto são cidades pequenas e apresentam infraestrutura básica.

Considerações Finais


► Trilhas e Trajeto: Predomina o sentido Leste-Oeste-Norte. A Travessia pode ser feita no sentido inverso. Sombreamento pontual; rota com alta insolação. Há subidas e descidas; algumas acentuadas. Não há sinalização em 80% da rota. Há muitas bifurcações que podem confundir os menos atentos. Não há nenhum obstáculo natural que em situação normal exija uso de equipamentos específicos.

► Trilhas e Trajeto 1: Nas áreas particulares que antecedem a entrada no Parque Estadual do Rio Preto PERP caracterizam por forte aclive inicial até o topo da Sumidouro. Na sequência os aclives permanecem, porém são suaves. Há várias saídas e bifurcações que requerem atenção na direção.

► Trilhas e Trajeto 2: Na área do PERP o acesso ao Pico Dois Irmãos é visual e sinalizado em sua parte final. Forte aclive na subido ao Pico. Entre a Casa de Guardas da Chapada, Casa do Mozart e a Cachoeira do Crioulo não há sinalização. Consiste em um trecho de antigas trilhas; sempre em declives e com a presença de cascalho e muitas rochas. Da Cachoeira do Crioulo até a área de serviços do Parque a trilha em declive é sinalizada.

►►Atenção: Os trechos que percorrem a Parte Alta do PERP são sempre realizados com acompanhamento de guarda do Parque; exceto em situações excepcionais.

►► Há variantes possíveis para esta Rota; em especial dentro do PERP. Entre a Casa do Mozart e a Sede é possível percorrer a rota mais à leste (rota das Corredeiras); mas nesse caso perde-se a belíssima Cachoeira do Crioulo, Sempre Vivas e o Córrego das Éguas.  Também é possível optar pela visita ou não ao Pico Dois Irmãos.

►►Reserva para Travessia: É necessária reserva e autorização para realização da Travessia. Esta solicitação é feita ao PERP (antonio.almeida@meioambiente.mg.gov.br). As autorizações são sempre limitadas; pois há número máximo de presentes na Casa do Mozart.

►► Acesso e Tarifas: No PERP é cobrado acesso e pernoite. Consulte a Unidade para ter sempre valores atualizados.

► Logística de Acesso: Como em toda Travessia, a logística de acesso-regresso costuma ser a parte mais complicada para o caminhante; pois quase sempre se tratam de pequenas localidades em que transporte público é escasso ou simplesmente não existe. Dependendo do dia e horário, essa situação exigirá a contratação de serviços de táxi ou então combinado com amigos; ou então restando a alternativa de se fazer longos trechos à pé por estradinhas vicinais. No caso dessa Travessia, tanto seu início quanto seu final estão a aproximadamente 23 km e 20 km por estrada de terra de Felício dos Santos e São Gonçalo do Rio Preto, respectivamente. Portanto, avalie bem antes de realizar a travessia para não correr riscos de ter que ficar mais um dia no mato sem ter se programado! Já para quem ir-retornar de automóvel, as estradinhas de terra encontram em bom estado; exceto em períodos sob chuva prolongada.

► Camping e Pernoites: No trecho inicial as áreas são particulares e eventual acampamento será no modo natural em local à escolha. Na parte alta do PERP o local para pernoite é a Casa do Mozart. Há fogão a gás e à lenha, banho frio e algumas camas com colchão. Há energia solar. Há amplo gramado em que pode armar barracas. Já na parte baixa do PERP há o Camping Oficial, com infra estrutura completa.

► Água: Há vários pontos de água por toda a rota, não sendo necessário transportar grandes quantidades. Mas no tempo da seca algumas fontes desaparecem. Nesses casos fique atento e abasteça sempre em carga máxima. Utilize purificador. O percurso mais longo sem fontes de água é o trecho entre o Curral de Arame da nascente da Sumidouro até a Casa de Guardas da Chapada; incluso eventual ataque ao Pico Dois Irmãos.

► Exposição ao Sol: Intensa. Há pouca sombra pela rota. Use protetor solar.

► Época e Tempo de realização: O melhor período para realização dessa travessia é de abril a setembro; que é a época mais seca na região; porém as cachoeiras estarão com menor volume de água. Em 3 dias e 2 noites é o formato que possibilita caminhar com calma e curtir os atrativos. É possível a realização em 2 dias e 1 noite; porém requer bom preparo físico e disposição para caminhadas mais longas.

► Segurança: É uma travessia cujas rotas de escape são reduzidas. Até o topo da Sumidouro e adjacências é possível retornar ao Gavião e Felício dos Santos. Já na aproximação da parte alta do PERP há a saída para Extração e Diamantina; porém são algumas dezenas de quilômetros em estrada de terra. Há sinal de telefonia celular em alguns pontos da rota; em especial na sua parte inicial. No PERPI há sinal de wi-fi no Centro de Visitantes. Em época de chuva prolongada pode ser impossível realizar essa Travessia, já que há vários cursos d'água a cruzar.

► Cash: leve dinheiro trocado e em espécie. Pequenas localidades não aceitam cartões ou cheques.

► Carta Topográfica: Rio Vermelho

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► Pratique a atividade aplicando os Princípios de Mínimo Impacto

Bons ventos!

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