quarta-feira, 29 de maio de 2013

Travessia Caeté a Sabará pelo leito da antiga estrada de ferro: 20 km de Beleza e História!

Detalhe da fachada do túnel existente no trajeto
No final de semana de 26 de maio decidi meio que no estalo fazer uma caminhada leve para não perder o costume. Pesquisa daqui e dali, acabei escolhendo ir de Caeté a Sabará pela antiga estrada de ferro da Cia Estrada de Ferro Espírito Santo a Minas, ramal Santa Bárbara-Sabará. Trata-se de um ramal ferroviário desativado que funcionou no século passado e que transportava mercadorias pela região de Belo Horizonte. Por se desenvolver pelo antigo leito da linha do trem, é uma caminhada quase plana e bastante light pelo fundo do vale, margeando o Rio Caeté, afluente dos Rios Sabará e Velhas. Não há trilhos ou dormentes pelo caminho, apenas as britas da antiga estrada de ferro. O final da caminhada se dá na histórica cidade de Sabará, perfazendo um total de aproximadamente 22 km de tranquilidade, inclusos os trechos urbanos das cidades de Caeté e Sabará. Ao percorrê-la, pode-se observar a variedade da flora da região, sempre com muitas cores. É uma caminhada interessante e acessível, ideal para manter o ritmo!

Matriz de Nossa Senhora do Bonsucesso em Caeté
Saí de casa por volta de 5h30 da manhã rumo à rodoviária de Belo Horizonte, onde no pátio sul embarquei às 6h10 no ônibus da linha 4810, com destino à cidade de Caeté, onde cheguei por volta de 7h45 da manhã. Ao se aproximar da cidade de Caeté, o tempo estava bastante fechado, inclusive chuviscando. Decidi então descer na Praça da Matriz (Praça Dr. João Pinheiro), onde definiria meu rumo. Ao desembarcar fui à belíssima e suntuosa Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso, uma histórica e imponente construção barroca creditada a Aleijadinho e construída em princípios do século XVIII. Participei da celebração da missa e ao seu término, o chuvisco já havia passado. Após uns clics pela muito bem cuidada praça, centro de poder local, defini que faria sim a caminhada. Às 9h00 deixei a praça da Matriz através da rua Getúlio Vargas, rua do Rosário; depois a Av. Carlos Cruz; Praça Getúlio Vargas e finalmente a rua Padre Vicente Cornélio, caminhando até o viaduto da antiga estrada de Ferro. Nesse trajeto, à minha esquerda estava lá o Morro do Serrote (aprox. 1.050m de altitude).

Início da "trilha" ao lado da Cia Ferro Brasileiro
Lá chegando tomei o sentido da esquerda, ao lado da antiga fábrica Cia. Ferro Brasileiro, que hoje é uma garagem de ônibus. Era o início da trilha, que é bem marcada, praticamente uma estradinha repleta de britas. Acima, à minha direita fica o morro do Ouro Fino (aprox. 1.070m de altitude).

Após caminhar por cerca de 1 km cheguei a um lugar interessante, o Funil, que é onde a estrada cruza o Rio Caeté. Há uma ponte estreita e o riacho desce abaixo por entre rochas, formando panelões e quedas d'água. O fato negativo é que o cheiro é ruim, pois o riacho recebe esgoto da cidade. É poluído! Observei por alguns instantes, cedi passagem para um motociclista (a ponte só permite um por vez) e prossegui na caminhada, que nesse trecho há algumas casas e sítios nas proximidades. O tempo continuava muito fechado e o Rio Caeté seria meu companheiro por toda a caminhada; quase sempre à minha direita.

Ponte e panelões no Rio Caeté
Cavalos curiosos
A caminhada segue sem problemas pois a trilha é praticamente uma estrada! Cruzei com dois cavalos muito bem cuidados que ficaram curiosos e me observando por longo tempo... Depois de uns 3 km desde o início da trilha, há uma bifurcação, onde uma estrada vicinal chega até ao antigo leito da ferrovia e há algumas residências e sítios. Nesse trecho os carros também utilizam o antigo leito da estrada de ferro. Pouco à frente há no lado esquerdo uma boa fonte para captação de água. Encontrei também os sinais de que por ali existiu uma estrada de ferro: um parafuso e uma arruela de ferro, corroídos pela ferrugem. Aproveitei para observar a vegetação ao redor, que é variada, com muitas flores às margens, alecrins do campo, quaresmeiras... tudo muito bonito!

Trecho em que veículos circulam pelo antigo leito da estrada
À esquerda, nesse ponto, há um pocinho
E a caminhada segue tranquila por aquele fundo do vale, escutando sempre o barulho das águas do rio Caeté se debatendo pelas pedras, ao lado direito. Aliás, se esse rio não fosse poluído, certamente haveriam vários lugares propícios para banho. Observei vários poços e pequenas quedas pelo seu leito. Após aproximadamente 5,5 km desde o início da trilha parei para fazer um lanche. Eram por volta de 10h45 da manhã. Fiquei um bom tempo sentado à beira daquela estrada, embaixo de um bambuzeiro. Um grupo de uns dez motociclistas passou por mim nesse momento. Adiante eu observava um cavalinho, quando um motociclista voltou e o espantou. Um outro cavalo surgiu, se levantando. Acho que o motociclista queria se certificar de que tudo estava bem por ali. Fiquei curioso com a cena e retomei a caminhada. Ao se aproximar dos animais, para minha surpresa eram mãe e filho. Lindos, muito lindos.Gosto muito de cavalos e ver o potro mamando e trocando carinhos com sua mãe foi um prêmio!

Marco da Estrada Real
Logo adiante, observei à direita um marco da Estrada Real e dois ciclistas a postos. Ao me aproximar me perguntaram se ali seguiria para Sabará. Confirmei, conversamos um pouco e logo eles seguiram. Observei que ao lado do marco direito (pois existe um à esquerda também) desce uma trilha usada por motociclistas e ciclistas.

Estação desativada: caindo aos pedaços
Logo após esse ponto existe uma pequena estação desativada, à esquerda. Adentrei e fui recebido por uma revoada de morcegos. Aliás, o lugar se parece mais com uma antiga casinha de apoio, é mais moderninha, com tilolinhos/revestimento à mostra. Mas encontra-se muito suja, com capim e mato por todo lado e muita pichação.

A Serra da Piedade parcialmente encoberta
Nesse momento o tempo se abriu um pouco mais e foi possível ver os ombros da Serra da Piedade, à nordeste. Mas infelizmente o ponto mais alto da Serra permaneceu encoberto. Ficaria para outra ocasião, porque dali em diante não seria mais possível vê-lo.

A estrada agora apresentava-se larga e revirada, com sinais de que pessoas recolhem dali os restos de brita da antiga estrada de ferro. Avistei então a Mina de Cuiabá (?) de propriedade da Anglo Gold Ashanti no alto do morro à frente. Foi um curto trecho de estrada revirada para enfim a monotonia que teimava em se aproximar se encerrar: a trilha começou a se fechar e aí sim, ficou boa.

A estrada se converteu e uma trilha cercada por capim alto em ambos os lados e tendeu-se para à esquerda, fazendo uma curva. Flores haviam por todos os lados. Matas também. Lá no fundo, do lado direito da trilha vinham os ruídos do Rio Caeté. Até que cheguei ao antigo belo túnel, distante aproximadamente 7 km do início da trilha lá no viaduto na cidade de Caeté.

A boca do túnel
Interior do túnel
O túnel possui cerca de cem metros e está em excelente estado de conservação. Nota-se o esmero construtivo característico do início do século XX. As paredes são feitas em tijolinhos e pedras. O teto é negro, resultado da fumaça dos trens. Adentrei ao túnel, de onde é possível ver o seu final. Fui observando: só há britas em seu interior. Bem ao centro há um pequeno escape, ao lado esquerdo. Observei uma aranha entre as pedras, quietinha, parecia dormir. Prossegui e cheguei ao final do túnel, que possui fachada idêntica ao início. Uma mata densa havia nos arredores. Sim, este foi o ponto alto da trilha!

A ponte caída
Após o túnel a trilha segue fechada, repleta de vegetação e com sinal de pouco uso. Porém é impossível se perder por lá, pois as britas não deixam... Porém esse belo trecho dura pouco, pois cerca de 1,5 km após chega-se à ponte quebrada. Trata-se de uma ponte que desabou, inclusive os pilares centrais. Porém permite passagem pulando sobre pedras e restos de concreto, de modo que não se precisa pisar nas águas poluídas do Rio Caeté. Procedi do modo mais fácil: Ao chegar à cabeceira da ponte, desci pelo lado direito. Ao chegar ao rio tive cuidado ao subir num dos pilares, pois o vão é um pouquinho maior, mas um esforço pequeno e um pouco de cuidado foi suficiente. Continuei pulando e subi também pelo lado direito, por onde desce uma água pura e cristalina (Dica: se pisar na água poluída do Rio, lave-se nesta água de mina).

Imediatamente após a ponte quebrada há marcos da estrada real, um ponto de água e é um ótimo local para descanso. É sombreado e é um ponto onde a trilha de motociclistas chega-se à estrada. Dois estavam por lá quando passei. Sim, escrevi estrada, pois após a ponte quebrada a trilha volta a ser como uma estradinha vicinal. E assim segue, bonita e sombreada. Adiante encontrei ruínas de uma antiga casa (ou seria estação de trem?). Creio que seria uma casa pois há uma portada de muro e restos de um belo jardim. Um pouco adiante cruzei canos de água e do outro lado do rio Caeté, que agora segue ao lado esquerdo da trilha, parece existir um ponto de bombeamento de água. 

A Estação de Mestre Caetano em Cuiabá
Novamente cruzei o Rio Caeté (agora ele voltou para o lado direito da trilha) através de uma ponte de concreto com agarras de ferro bem conservadas e adiante cheguei à localidade de Cuiabá, onde há uma antiga estação de trem, ora em ruínas. É a antiga estação de Cuiabá (ou de Mestre Caetano) inaugurada em 1908 como parte desse ramal de ferrovia Santa Bárbara-Sabará. O local está limpo, roçado e parece que houve um trabalho de capina mecânica. Será que irão restaurá-la?

Bem, prossegui a minha caminhada agora sim, após a localidade de Cuiabá uma verdadeira estrada. Novos motociclistas passam por mim e são muito simpáticos, param, perguntam curiosos o que faço por ali e me diz que se eu quiser posso ir por uma trilha do outro lado do rio até Pompéu. Mas preferi me manter nos "trilhos", melhor, nos rastros da antiga estrada de ferro. 

Campinho
Quando já estava sentindo novos sinais de monotonia cheguei ao campo de futebol de Pompéu, uns 14 km desde o início da trilha. Fiz uma parada grande por lá pra ver um pouquinho de futebol eheheh. Pouco adiante do campo de futebol cheguei ao arraial de Pompéu; município de Sabará, localidade conhecida pelo famoso Festival de Ora-pro-nobis que acontece anualmente por lá no mês de maio.

Capelinha de Santo Antonio de Pompéu
Pontilhão atual
Deixei a estrada, atravessei uma pinguela de aço ao lado direito e fui em direção à pequena e bela Igrejinha de Santo Antonio de Pompéu. A Capelinha possui campanário externo e fica no interior de um cemitério. Possui bela murada de pedras. Mas estava fechada. Apenas algumas fotos e prossegui a caminhada, deixando o "centrinho" do arraial e indo em direção ao asfalto (há estrada asfaltada entre Sabará e Pompéu). Mas enquanto este sobe o morro, me mantive às margens do rio, nos sinais da antiga estrada de ferro. Uns dois km adiante de Pompéu passei pelo gigantesco pontilhão da Estrada de Ferro Vitória Minas, uma obra impressionante, cujo trem passa a cerca de 100 metros acima de nossas cabeças.

última ponte: arriscado passar...
Depois do pontilhão, caminhei por uns 500 metros e pronto: cheguei à BR 262. Acabara então a trilha pela estrada de ferro. Observei à minha esquerda e vi um belo pontilhão de ferro. Voltei alguns metros, entrei à direita depois da curva, onde há alguns montes de terra (parecem que são para indicar que não se deve acessar o pontilhão). Observei algumas ruínas de uma antiga construção no local e acessei o pontilhão por cima. Dei alguns passos e pensei em atravessá-lo, pois não é alto. Mas não o fiz, pois haviam muitas pessoas lá embaixo e intenso trânsito de veículos; além de uma árvore que havia crescido sobre a ponte bem às margens do riacho que corre embaixo. Isto exigiria uma manobra mais arriscada eheh. Achei prudente não arriscar, pois também observei que ali era mesmo o fim da via...

Centro Histórico de Sabará
Igreja do Carmo
Deixei o pontilhão, voltei para a estradinha que a partir desse ponto é asfaltada (BR 262) e aí entrei de vez na área urbana de Sabará, através da Rua da Ajuda. Passei pela rodoviária, onde poderia pegar o ônibus para Belo Horizonte, mas como eram por volta de 14 horas, resolvi caminhar até o Centro Histórico de Sabará. Passei antes pela Igreja da Conceição, que estava fechada; depois pela Igreja do Carmo, que estava aberta. Fui visitá-la. Só posso dizer uma coisa dessa Igreja: é um lugar magnífico, uma jóia do barroco mineiro feita por Aleijadinho. Deixei a Igreja do Carmo por volta de 15 horas e me dirigi ao Centro Histórico. Parei pouco por lá, a tempo de apenas fazer algumas fotos. Assim, às 16 horas tomei o ônibus para Belo Horizonte, desembarcando por volta de 16h45 no centro da cidade, de onde tomei outro coletivo, desembarcando na Pampulha por volta de 17h30. 


Serviço

Uma bonita imagem durante a Travessia
Caminhada tranquila pelo leito da antiga estrada de ferro Santa Bárbara-Sabará, construída pela antiga Companhia Estrada de Ferro Espírito Santo a Minas no início do século XX.

Não há no percurso trilhos e dormentes e o traçado antigo segue serpenteando o fundo do vale às margens do Rio Caeté, que é um afluente do Rio das Velhas. 

A caminhada apresentada neste relato possui aproximadamente 18 km; porém incluídos os trechos urbanos que fiz, aumenta-se para aproximadamente 22 km. É uma caminhada tranquila, não há subidas; ao contrário, é uma descida, amenizada obviamente ao longo do percurso. 

A principal atração é o antigo túnel da ferrovia, que possui 100 metros de extensão e está em perfeito estado. Além disso, do trajeto é possível ver a Serra da Piedade e seus ombros e se deleitar com a beleza da vegetação nos arredores.

Ao fazer essa caminhada, procure também conhecer as construções históricas das cidades de Caeté e Sabará, especialmente suas igrejas, exemplares significativos do barroco no Brasil. Isto aumenta a caminhada, mas vale a pena. É um misto de natureza e história, características genuínas de Minas Gerais. Por fim, esta trilha é ideal para aqueles que desejam manter o ritmo através de uma caminhada agradável e com esforço moderado!


Como chegar ► cidade referência: Belo Horizonte

De ônibus:

Embarcar no ônibus da linha 4810 no terminal rodoviário de Belo Horizonte (pátio Sul) e descer na cidade de Caeté, após o viaduto da linha férrea; ou então na Praça da Matriz, caso vá conhecê-la.
Na volta, embarcar em ônibus coletivo na cidade de Sabará. Prefira o ônibus da linha número 4987, pois há mais frequência nos horários. Esse ônibus sai do terminal rodoviário de Sabará e vem pela avenida às margens do Rio das Velhas. Há pontos em toda a extensão da avenida.

► Atualização Fev 2016: Depois da implantação do sistema MOVE de transportes em Belo Horizonte, os ônibus com destino a Caeté partem da Estação São Gabriel. Para chegar à esta estação, embarque no centro de BH em ônibus da linha 83 e desça no final, na Estação São Gabriel do Move. 
Desloque para o pátio dos ônibus metropolitanos e lá embarque no coletivo para Caeté.

De carro:

Tomar o Anel Rodoviário de Belo Horizonte, depois BR 381 sentido Vitória. No trevo de Caeté entrar à direita, indo até à cidade (no viaduto da linha férrea ou Praça da Matriz, conforme desejar). O resgate seria feito em Sabará, cujo acesso se dá pela Avenida Cristiano Machado; Av. José Cândido da Silveira; Rodovia BR 262 até a cidade de Sabará.

► Como se trata de uma Travessia, não recomendo ir de carro, a não ser que tenha alguém que possa fazer o translado/resgate in/out boca da trilha.

Distâncias aproximadas de Belo Horizonte

Caeté: 56 km
Sabará: 22 km

Considerações Finais

► Procure levar água para seu consumo, pois apesar de margear o Rio Caeté em grande parte do percurso, este encontra-se poluído. Após a ponte quebrada há uma boa fonte de água, à direita.

► Há trechos sombreados pelo trajeto.

► Leve lanterna. Apesar do túnel ser pequeno e ser possível observar as extremidades, o ambiente é um pouco escuro.

► Na localidade de Pompéu há bar e restaurante.

► A partir de Pompéu, a caminhada torna-se um pouco cansativa devido a presença da vida urbana nos arredores e pela presença do asfalto.

► Indo realizar este trekking, procure ir acompanhado ou em grupo. Abaixo, um pouco do colorido encontrado no trajeto.








Bons ventos a todos!

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