sexta-feira, 7 de junho de 2013

Vestuário: como se vestir pelas trilhas no Brasil

Tabelinha prática do Vestuário para Trilhas no Brasil
O vestuário é um item democrático nas trilhas: modelitos diversos, cores variadas e infinitos detalhes desfilam emoldurando corpos pela natureza afora. Naturalmente, com o passar do tempo e a experiência individual, cada um estabelece o seu estilo. Por isso, é muito comum depararmos com diferenças nesse quesito, desde aqueles aventureiros mais espartanos até aqueles assumidamente fashion e que não dispensam “o último grito em Paris” do mercado de aventura, mesmo que seja no mato! Embora o aspecto visual tenha pouca influencia na prática; o mais importante a se observar no mundo do vestuário é a sua capacidade em facilitar a vida do aventureiro. E isto está ligado diretamente aos seus objetivos, que obviamente determina por quais regiões irá se aventurar.

De um modo geral, o mercado do vestuário para os aventureiros é marcado por materiais diversos, desde os mais simples até aqueles altamente tecnológicos, frutos de anos de pesquisas em laboratórios de grandes empresas. Apresentam objetivos comuns: visar o bem estar dos usuários conforme seus objetivos. Seguem a tendência da praticidade e do conforto, aspectos importantes para aqueles que normalmente tem pouco tempo para dispensar às suas roupas quando estão em ação. É o tão falado conceito easy care aplicado aos tecidos e ao vestuário (easy care = do inglês, literalmente significa ‘de cuidado fácil’)! 

Neste post, sem me apegar à terminologia técnica dos tecidos, que é bastante variada e cansativa para quem não seja especialista da área, procurarei descrever as principais peças básicas do vestuário de aventuras, suas finalidades e a tendência geral de vestimenta indicada para o clima brasileiro. Para facilitar a leitura e o entendimento, vou relacionar no quadro abaixo os tipos básicos de vestuário com o clima, pois são as condições climáticas o principal fator que determina o que e como o aventureiro se vestirá; ou quais peças do vestuário levará consigo. Na sequência, irei descrever de modo mais simples as principais peças lançadas no quadro; além de opinar sobre cada uma delas.


Descrevendo as peças apresentadas no quadro

Calça para Trekking:
Aqui reina a democracia é a regra é única: essa peça deve ser de tecido sintético, porque estes são leves, pouco volumosos e possibilitam secagem rápida. Algumas variações são permitidas, como a presença parcial do tecido cordura. A cordura (que foi inventado pela Dupont muitos anos atrás) é um tecido mais grosso e resistente à abrasão e é indicado para uso em áreas em que se torna-se impossível evitar o atrito, seja em pedras ou em ambientes com vegetação ‘nervosa’ e espinhosa (caatinga, por exemplo). Quanto ao modelos das calças, estes são variáveis; desde aqueles mais "clean” até aqueles repletos de bolsos; com modelagens diversas.
►► Minha opinião: 
Aqui vale experimentar; se você for mais fashion poderá adquirir modelos último grito em Paris; ou se é mais espartano, poderá então adquirir aquelas simples peças de lojas de comércio popular. Só não vale ir de calça jeans; pois o jeans não é confortável para caminhadas; pois é pesado e se molhar vai ser um problema sério! Por outro lado, não entendo porque muitas marcas colocam aquela variedade de bolsos nas calças para trekking, afinal caminhar com itens nos bolsos, além de correr o risco destes ficarem pela trilha, é pra lá de desconfortável! Para carregar tralhas existem as mochilas. Quanto à calça de cordura, particularmente não gosto, especialmente aquelas 100% cordura, pois o tecido é grosso e atrapalha bastante os movimentos.

Camiseta ou camisa:
A regra é adquirir aquelas de tecido sintético, que secam rápido e resultam em pouco volume. Uma das dicas para aquisição são aquelas de tecido tipo dry (dry = do inglês, significa secar; conceito aplicado aos tecidos, significa aqueles que secam rapidamente). Atualmente há disponível no mercado brasileiro uma linha tecnológica de tecidos para camisetas, inclusive com tratamento antibacteriano, que evitam por um tempo a presença de odores indesejáveis; além de apresentarem fator de proteção solar. Apesar de um pouco mais caras, vale a pena investir nestas peças. Prefira aquelas com mangas longas, pois protegem do sol e eventuais ranhuras causadas pela vegetação. Prefiram também aquelas que não possuem costuras nos ombros, pois as costuras favorecem o atrito com as alças das mochilas, podendo causar lesões. Por outro lado, as camisetas podem ser substituídas por camisas, que podem ser encontradas no mercado com tecidos também tecnológicos. Mas a opção por camiseta ou camisa é um gosto pessoal e não influenciam no resultado final!
►►Minha opinião: 
Há coisas que são como sabão em pó: não vale a pena ficar inventando moda. Invista logo em uma peça específica, tecnológica e estamos conversados. Não que não possa caminhar com a camisa da pelada do fim de semana; mas vai por mim, não invente moda, por favor. E vá sempre de manga longa! Não irá se arrepender!

Segunda Pele:
A segunda pele ou a chamada Base Layer ( do inglês, literalmente significa a camada base) é uma peça importante e até comum no trekking, mas não é raro se fazer uma confusão com o Underwear Polar. Esclareço: enquanto a primeira tem a função de levar para fora a transpiração, mantendo a temperatura corporal; o segundo além de cumprir a função da transpiração, possui a capacidade de aquecer o corpo. Portanto tratam de peças com tecidos diferentes e o Underwear Polar é mais utilizado em temperaturas extremas. Quanto ao material, as principais composições dos base layer são o poliéster ou o polipropileno (como o Coolmax®), que são tecidos leves e de secagem rápida. Para os underwear normalmente são confeccionados em Power Stretch® (criação da Polartec); ou de outro material similar. Estas peças são feitas para serem usadas sobre a pele, embaixo da calça e/ou camisa/camiseta de trekking. Compõem a primeira camada de roupa do aventureiro e se faz necessária em ambientes mais frios, como o Sul do Brasil e Mantiqueira. E somente cumprirão seus papéis se forem peças ajustadas ao corpo! Nunca compre uma segunda pele de tamanho superior ao seu e que fiquem folgadas ao se vestir!
►►Minha opinião: 
Se você for se aventurar somente pelo Brasil, basta a aquisição de uma base layer. Em situações de clima agradável você somente a utilizará à noite e no máximo nas primeiras horas da manhã! Caso faça mais frio, farão diferença na caminhada, pois realmente tem a capacidade de transferir o suor para longe do seu corpo!

Agasalho Fleece:
Inventado há aproximadamente 30 anos por uma empresa norte americana que o batizou com o nome de Polartec® (o nome foi tão forte que hoje a fabricante chama-se Polartec), esse tecido confeccionado à base de poliéster não retém água, é leve, pouco volumoso, transpirável, não precisa ser passado e possui grande capacidade de aquecimento; além de proporcionar uma sensação de aconchego ao se vestir. Possuem gramaturas de 100, 200 e 300, que se referem às espessuras das tramas; isto é, quanto maior a gramatura, maior a capacidade de aquecimento. Assim, um fleece 100 seria para um lugar pouco frio e é mais leve; já o 300 seria indicado para lugares muito frios e é um pouquinho mais pesado. Possui algumas variações e especificidades, desde aqueles para locais extremos até os tipos corta ventos! No mercado nacional há bons fabricantes do produto, que cumprem bem o seu papel. Além da presença em agasalhos, hoje o fleece está presente em calças, gorros, luvas e em vários outros acessórios!
►►Minha opinião: 
Não dá para se aventurar por aí sem um agasalho fleece, especialmente no período do inverno. Os motivos são os descritos acima. Boa dica são aqueles em formato canguru, assim poderia substituir o gorro! E como os tipo canguru possuem um grande bolso na parte dianteira, em dadas situações podem dispensar o uso de luvas.

Calça de Fleece:
O tecido e suas variações, bem como as finalidades são as mesmas do agasalho de fleece e seu uso é feito por debaixo da calça para trekking; e eventualmente por cima da segunda pele. À noite, pode ser usada para dormir, pois é aconchegante!
►►Minha opinião: 
Só vale a pena ter uma calça dessas se for para lugares bastante frios; como a região sul do Brasil ou a Mantiqueira durante o inverno. De um modo geral, normalmente no Brasil não se necessita de uma peça dessas. Duvidou? Faça uma pesquisa nas lojas que comercializam vestuário para aventura, raramente se encontra calça de fleece...

Anoraque:
É uma espécie de ‘jaqueta’ com capuz, sendo uma peça indispensável no guarda roupa do aventureiro. Normalmente os anoraques são peças pouco volumosas e leves, pois são feitos de materiais sintéticos. Sua principal finalidade é a proteção contra o vento e a chuva. Então, não é uma peça que se usa o tempo todo, a não ser sob essas condições. Os materiais usados na fabricação de anoraques são variados, mas o Gore-tex® é reconhecidamente o melhor e mais utilizado mundo afora. Isto porque, além de proteger contra chuva e vento, os anoraques feitos de Gore-tex® são respiráveis. Anoraque respirável é aquele que permite que o suor do corpo gerado pelos movimentos possa transpor as fibras, permitindo que o aventureiro permaneça seco e consequentemente não sofra queda de temperatura corporal.

Para melhor compreensão, usemos o exemplo de ser obrigado a sair na chuva, e na ausência de uma peça específica acabamos por utilizar uma capa ou guarda chuva ou um saco plástico. Quem já viveu essa situação sabe o que é uma proteção que não permite a dissipação da transpiração corporal. Em poucos minutos o suor toma conta de todo o nosso corpo e imediatamente começamos a sentir frio! Pois bem, o objetivo do material respirável é justamente agir ao contrário do plástico comum; apesar de que o Gore-tex® seja também uma espécie de teflon, porém finíssimo e com microporos; o que possibilita a sua respirabilidade.

Outro aspecto importante a observar na aquisição de um anoraque é a sua capacidade de coluna d’água, que é a quantidade de chuva em milímetros que a peça suporta. Quanto maior essa capacidade, melhor a peça se sairá debaixo de chuva. Aliás, enquanto nos polos a principal preocupação são os ventos, aqui no Brasil é a chuva que tira o sono dos aventureiros!
Convém também esclarecer que o anoraque não é uma parka. Embora parecidos, a principal diferença é que a parka é uma ‘jaqueta’ que vem com o interior forrado por um fleece, na maioria das vezes removível. A parte externa da parka cumpriria também o papel de anoraque, pois normalmente são impermeáveis. Entretanto, a parka é mais volumosa e pesada que o anorak, portanto de menor praticidade. Além disso, a maioria das parkas vem com o fleece 100 na forragem interna; e sabemos que nem sempre essa gramatura é indicada para dados lugares; além de que sua parte externa possuir menor capacidade de coluna d’água.
►►Minha opinião: 
Não tem jeito, dessa peça não se pode escapar. Eu prefiro os anoraques às parkas, pois os anoraques são mais práticos, leves e menos volumosos que as chamadas parkas! Quanto à respirabilidade dos anoraques, mesmo aqueles confeccionados em Gore-tex®, recomenda-se ter em mente que, na prática, nenhuma peça com essas características funciona perfeitamente no Brasil; ao contrário do que ocorre nos polos. Isto porque o Brasil é um País quente e úmido e até hoje não há tecido que dê conta do suor dos aventureiros em terras tupiniquins, mesmo sob chuva! Claro, o Gore-tex® ajuda, mas não resolve totalmente! Se for se aventurar pelo Brasil, eu sugiro valorizar mais a capacidade de coluna d’água (volume de chuva em milímetros que a peça suporta) do que a respirabilidade! E claro, adquira de marcas confiáveis e que possuam tradição no ramo e muitas vezes apresentam aberturas estratégicas em dados pontos, que são alternativas e auxiliam a respirabilidade do tecido!

Calça impermeável:
A finalidade é parecida com o anoraque: proteger do vento e da chuva. O material também é parecido. Ao adquirir, dê preferência para aquelas com fibras transpiráveis e de boa procedência.
►►Minha opinião: 
Para navegar pelo Brasil, apesar da ocorrência de chuvas, essa peça só faz sentido se você não tolerar calças de trekking molhadas. A única grande vantagem que vejo na calça impermeável é a proteção adicional às botas: com a calça impermeável poderá evitar a entrada de água pela parte de cima da bota.

Chapéu/boné:
A finalidade é óbvia e os materiais dos chapéus e bonés devem ser leves, pouco volumosos e de secagem rápida. Há modelos que possuem partes aeradas, que facilitam a evaporação do suor e mantém a cuca fresca; além de proteção para o pescoço (são os chamados bonés legionários).
►►Minha opinião: 
Também não dá para ficar sem um deles Brasil afora, afinal é um País tropical. Vale inclusive de palha; ou você acha que nossos trabalhadores do campo são bobos? Chapéu de palha é leve e respirável eheheh...

Gorro/Balaclava:
O gorro é óbvio e a balaclava é aquela peça que cobre toda a cabeça, deixando acesso somente à boca, nariz e olhos. Os tecidos são variáveis, como por exemplo o Polartec® (fleece) ou o Coolmax®. Ao contrário dos chapéus e bonés, a finalidade do gorro ou balaclava é manter a temperatura ca cabeça, pois essa parte do corpo desprotegida em ambientes frios pode causar sérios problemas. Além disso, fornecem proteção contra queimaduras causadas pelo vento e/ou frio! Não fique sem proteger a cabeça em períodos frios, pois comprovadamente é através das extremidades que perdemos maior quantidade de calor.
►►Minha opinião: 
Prefiro a balaclava que o gorro, pois além da praticidade, protege toda a cabeça e mesmo sendo de um tecido mais fino, como o Coolmax® faz grande diferença. Para o Brasil é mais que suficiente.

Luvas:
Materiais como Polartec® (fleece); Coolmax® e outras são as fibras sintéticas mais empregadas na confecção das luvas. Há também luvas impermeáveis cuja finalidade é óbvia! Uma aquisição de qualquer desses materiais é suficiente para uso no Brasil! Inclusive, em dadas situações podem ser utilizadas sobreposições de luvas, como por exemplo, uma luva de Coolmax® e outra impermeável! O que vale lembrar é que, proteger as mãos é importante em períodos mais frios, pois comprovadamente é através das extremidades que perdemos maior quantidade de calor.
►►Minha opinião:
Ao adquirir uma luva meça o tamanho das mãos. Luva não foi feita para ficar sobrando. Também procure adquirir aquela que menos interferirá no tato. Não tem erro! E cuidado com luvas impermeáveis: poucas marcas no mercado mundo afora realmente oferecem luvas impermeáveis de verdade!

Meias:
O mercado oferece uma gama variada de meias aos aventureiros, quase todas compostas por fios tecnológicos, que são mais leves e retém pouca umidade. Há aquelas com alto poder de aquecimento, como as feitas de lã de merino (Merino é o nome de uma raça de ovelha originária da Oceania que produz lã de qualidade superior). Há também alguns modelos impermeáveis! Lembre-se apenas de uma regra básica: evite aquelas 100% algodão, pois quando molhadas demoram mais para secar. Evite utilizar meia molhada pois provocam bolhas nos pés devido ao atrito. E por último, não deixe de usá-las (secas, é claro), especialmente em períodos frios, pois comprovadamente é através das extremidades que perdemos maior quantidade de calor.
►►Minha opinião:
Apesar das meias de merino serem magníficas, uma meia simples também é capaz de cumprir seu papel com louvor, até porque o Brasil não pode ser considerado um País frio! Também sugiro evitar invencionices, como usar duas meias. Podem até funcionar, mas não é nada prático!


Em climas frios vista-se em camadas!

O melhor modo de se vestir durante a prática de trekking em ambientes mais frios é a utilização de camadas de tecidos. Composta por tecidos diferentes e de finalidades diferentes proporcionam uma racionalização no modo de vestir, facilitando a vida do aventureiro! No Brasil, a vestimenta em camadas só se justifica se estivermos em ambientes mais frios, como o sul do Brasil e a Mantiqueira, por exemplo. À medida que a temperatura se eleva, as camadas vão sendo retiradas; ou vice e versa! Simples e prático, não é mesmo?

Assim, a vestimenta em camadas no Brasil (e outras partes do planeta) obedece a seguinte ordem: 
►Camada 1 – Segunda pele (ou base layer). 
►Camada 2 – Calça e camiseta para trekking; ou ainda, peças em fleece se for o caso. 
►Camada 3 – Anoraque e calça impermeável. 


Considerações finais

Não abordei neste simples escrito sobre a vestimenta para climas extremos. Embora o modo de se vestir em camadas seja o indicado e utilizado para esses ambientes, o material das peças a serem utilizadas sob condições severas deverão ser específicos e sempre de qualidade superior; porque não se proteger adequadamente em uma situação dessas pode lhe custar a vida! Então, nem sempre o material made in Brazil é suficiente para tais situações. Não que não existam por aqui excelentes fabricantes de vestuário outdoor, mas como somos um País tropical, ainda não temos a tradição e a experiência na confecção de roupas tão específicas; muito embora alguns deles venham se especializando nos últimos tempos!

Caso vá viajar para ambientes hostis e sob temperaturas baixas e ou extremas, por favor, procure trocar ideias com pessoas experientes, que inclusive já tenham vivido tal situação. Caso esta viagem seja esporádica, muitas vezes vale mais a pena alugar vestuário no local de destino do que imobilizar capital em peças de maior custo que passarão a maior parte do tempo decorando o armário aqui no Brasil. O aluguel de vestuário é muito comum, sobretudo para peças de uso externo; ou de última camada!

Por último, não se esqueça de que cada um é único; e por consequência o modo de se vestir será sempre individualizado. Não obstante haver algumas regras básicas, como a vestimenta em camadas, que comprovadamente possibilitam melhores resultados; o que definirá o seu modo de vestir é o seu gosto e principalmente a sua capacidade de adaptação, tanto aos diferentes tecidos, quanto aos climas e ambientes variados!


Bons ventos a todos!!!

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