segunda-feira, 30 de junho de 2014

Marins - Itaguaré: o mundo maravilhoso dos trepa-pedras!!!

Face Norte do Pico dos Marins vista desde as nascentes
do Ribeirão Passa Quatro
Divisor natural dos Estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, a grandiosa Serra da Mantiqueira ramifica-se ao nordeste/norte em direção à Serra do Brigadeiro e alcança até a região do Caparaó, na divisa leste de Minas com o Estado do Espírito Santo. Suas cristas quase sempre estão em torno e acima de 2000m de altitude, fazendo com que a região concentre proporcionalmente as mais altas elevações do Brasil. Por isto, este conglomerado montanhoso é o palco de algumas das mais belas e complexas travessias de todo o Brasil. São várias e consagradas rotas que povoam as cabeças dos montanhistas tupiniquins. Uma dessas Travessias é a Marins - Itaguaré, que é prima-irmã da famosa e badalada Travessia da Serra Fina, apresentando as mesmas características de altitude, clima, relevo e vegetação. Foi esse trajeto que percorri com alguns amigos no Corpus Christi de 2014.

Rota realizada e disponibilizada no Wikiloc
Além de possibilitar estudar e visualizar a região, você poderá baixar este tracklog (necessário se cadastrar no Wikiloc); e inclusive utilizá-lo no seu GPS ou smartphone (necessário instalar aplicativo). Recomendamos que utilize esta rota como fonte complementar dos seus estudos. Procure sempre levar consigo croquis, mapas, bússola e outras anotações que possibilitem uma aventura mais segura.
Quanto melhor for o seu planejamento, melhor será o seu aproveitamento.
Pratique a atividade aplicando os Princípios de Mínimo Impacto

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1 Havia 14 anos que fiz a Maringuaré, portanto já passava da hora da volta. Assim, me juntei à Sol Matos, Mateus e Patrícia de BH; Júlio de Governador Valadares; Lee e o Eduardo de São Paulo para essa empreitada. Deixamos BH na véspera do feriado e por volta de 4h30 da manhã chegamos à cidade de Passa Quatro, Sul de Minas, aonde já nos aguardava o nosso serviço de leva/resgate que nos deixaria na Base Marins.

Início da Travessia na Base Marins
Embarcamos na picape do leva e busca e com o dia escuro deixamos a cidade de Passa Quatro, sacolejando por aproximadamente 30 km até a Base Marins. Passamos pela estrada de terra que liga os bairros rurais de Caxambu e Sertão dos Marins, municípios de Passa Quatro e Marmelópolis e chegamos à Base Marins por volta de 7h00 da manhã. Lá já nos aguardavam o Lee e o Eduardo que pernoitaram na Base. O clima estava frio e a neblina cobria topos e vales nos arredores, a despeito do tempo aberto e claro por todo o Sul de Minas. Apresentações feitas, fizemos e tomamos um rápido café da manhã e por volta de 7h20 fomos o último grupo que deixou a Base Marins para fazer a Travessia.

Porteira que interrompe a passagem de veículos rumo ao Morro do Careca
Mergulhamos na trilha que sai à esquerda da fachada da Base Marins, percorrendo um trecho entre mata. A trilha é definida, não tem erro e é um atalho à estradinha que vai da Base Marins para o Morro do Careca. A trilha-atalho segue em leve declive para imediatamente começar uma subida por entre a mata. A trilha-atalho estava úmida fruto da chuvinha fina que caíra na noite anterior, porém em pouco mais de 20 minutos chegamos à uma porteira e interceptamos a estradinha. Prosseguimos por esta até a segunda porteira que agora divide a estrada e impede a circulação de veículos até o Careca. 

Início oficial da Travessia
Ainda pelo rastro da antiga estrada, prosseguimos em aclive e ao aproximarmos de uma cerca tomamos à direita deixando novamente a estradinha que segue contornando o morro pela esquerda. Chegamos a um pequeno platô descampado: era o Morro do Careca. Por lá, ultrapassamos um grupo de trekkers que descansavam. Seguimos rapidamente em leve descida novamente através dos sinais da estradinha que leva até o local e poucos metros adiante entramos em uma trilha à direita, chegando à placa que oficialmente marca o início da Travessia Marins-Itaguaré. Era em torno de 9h00 da manhã.

Orientados na Base Marins de que possivelmente não haveria água nas proximidades do Marins, nem no Itaguaré, fomos buscar água na fonte que fica a uns 200 metros à esquerda da placa de início da Travessia. A trilha até a água é bem marcada e por lá corria apenas um fio d'água. Abastecemos em carga total e retornamos à placa, reiniciando a caminhada. Após curto trecho na matinha, emergimos de vez na crista de subida. 

Pedra Partida: nada de visual
Doravante nos faria companhia pela trilha a vegetação típica de altitude da região, com moitas de capins e relevo com muitas pedras. Em pouco mais de 40 minutos de subida alcançamos e passamos um outro grupo de trekkers. Chegamos então à Pedra Partida e até esse momento não tivemos nenhum visual à distância! Fizemos uma rápida parada para lanche. Retomando a caminhada e os degraus começaram a se intensificar. Rochas por todos os lados e em diversos formados. Desvios, pula e trepa pedras ocorriam a todo momento, porém a trilha segue marcada pelo pisoteio e com algumas marcações em amarelo nas rochas; além de totens.

Pico dos Marins ao centro
Grande Totem
Pouco acima da Pedra Partida e para a felicidade geral a neblina deu uma dissipada e foi possível ver os Picos acima, com destaque para o Marins. Pausa para algumas fotos. Retomamos a caminhada e a trilha torna-se várias vezes exigente. É um intenso trepa, pula e raspa pedras que parece nunca acabar. Passamos pelo Grande Totem e chegamos ao local onde há uma rocha um pouco inclinada e uma corda fixa para auxiliar na subida. O uso da corda não é imprescindível, pois é perfeitamente possível caminhar/subir pela rocha por aderência. Vencido o trecho sem dificuldades, continuamos a ganhar altura galgando degraus e contornando os maciços pela sua esquerda. 

Mar de morros do sul das Gerais
O sol ameaçou de vez dar as caras, especialmente pelo lado do Sul de Minas, sendo possível ver o vale lá embaixo, além das pirambeiras que cortávamos em diagonal. Realmente um belo visual daquele mar de morros! Esse trecho da trilha não oferece grandes possibilidades de erro. Há algumas saídas erradas normalmente próximas a algum obstáculo maior, mas que não levam a lugar nenhum e logo se percebe que a rota é equivocada. Basta retornar alguns metros e prestar atenção no solo e em alguns totens que se encontra facilmente a trilha correta.

Por volta de 13h00 estávamos nos aproximando do contorno do último maciço antes da base do Pico dos Marins. Após subida em algumas lajes, chegamos a um ponto onde há uma rocha de uns 4 ou 5 metros de altura, onde se sobe através de uma fenda. Nesse mesmo ponto havia um grupo à frente que estava terminando a passagem. Enquanto eles utilizavam uma passagem mais à direita, nós fomos subindo pela fenda mais à esquerda e içamos algumas cargueiras. Trecho vencido sem dificuldades, caminhamos por mais um percurso em rocha sentido sul e chegamos em um ponto ao norte do Marins antes do charco por onde corre a nascente do Ribeirão Passa Quatro. 

Ponto em que nos estabelecemos: solzinho ainda se fazia presente...
Preferimos nos estabelecer por ali, apesar do lugar ser bastante exposto. Como fazia muitos anos que por ali estive, nem fui procurar as áreas melhores para acampamento que existem do outro lado da nascente. Quando passei por ali estas não eram tão nítidas. Além disso, pretendíamos subir o Marins no estilo ataque e optamos por não ir acampar nos locais avançados do pico, muito menos no cume, pois se fôssemos, teríamos que subir e no dia seguinte descer carregando peso. Seria um gasto de energia desnecessário. Assim, cortamos capim, forramos o chão e montamos as barracas por ali mesmo. Era por volta de 13h30.

Marins quando iniciamos a subida.
Em minutos a neblina tomou conta de toda a região
O tempo não estava dos melhores. O vento fazia presente e ao contrário de horas atrás, a neblina não dava mostras de que se dissiparia de vez. Apesar disso e após forrar o estômago decidimos ir ao topo do Marins, exceto o Júlio, que ficou no acampamento. Deixamos o acampamento, e por entre capim e charco cruzamos as nascentes do Ribeirão Passa Quatro, que dizem estar impróprias para consumo. Passamos pelas boas áreas para acampamento após o fio d'água e seguimos em direção ao Marins. A trilha é marcada pelo pisoteio e vai galgando rochas. Aos pés do Marins sobe-se por aderência em pedra e seguindo os totens chega-se ao acampamento avançado do Pico, localizado no seu ombro norte. Trata-se de uma grande área abrigada, que cabem muitas barracas. 

Após o acampamento base, em subida e escalaminhando em alguns poucos pontos chegamos ao topo do Pico dos Marins, que é irregular e com algumas boas áreas para acampamento. Nada de visual, apenas neblina e um frio intenso, modos que apenas algumas fotos e tocamos para baixo de volta ao acampamento. Rapidamente chegamos à sua base e além da neblina começou a chuviscar, aumentando a sensação de frio. Apressamos os passos entre as rochas e capins, passamos pela água do Ribeirão Passa Quatro (que não passa de um rego d'água) e chegamos ao acampamento. Doravante nenhuma trégua ou melhora do tempo, fato que nos obrigou a fazer a janta nos avanços das barracas e delas não mais sairmos. Dormi feito anjo, só acordando à noite com a chegada de um grupo que se instalou nos nossos arredores. 

Foto do dia anterior, onde se vê o Morro da Baleia à esquerda
Visual desde o Morro da Baleia: nebular
2 O dia seguinte amanheceu fechado. Assim, nem levantei para ir ver o nascer do sol no topo do Marins como desejava. Saí da barraca por volta de 6h40 da manhã e apesar de planejar deixar o acampamento mais cedo, só deixamos o lugar às 8h40 daquela fria manhã. Passamos pelo capim molhado, pela água do Ribeirão Passa Quatro e chegamos ao acampamento onde há a discreta bifurcação que segue para a Travessia. Passamos pela bifurcação e somente após um trecho em capim notei que estávamos errados. Voltamos e tomamos a trilha correta que vai em direção ao pequeno morrote à nordeste. A trilha é discreta, porém bem marcada por totens e vai serpenteando o morrote até atingir o seu cume.

Pico do Marinzinho (ou Do Leste; ou Pico do Piquete)
Também bem marcada, a trilha desce o morrote em direção a um pequeno brejo com tufos de capins, nos levando em direção a um paredão do próximo morro, que é anterior ao Pico do Marinzinho. No charco encontramos com dois aventureiros de Campinas que faziam a travessia ao inverso. Dedo de prosa, despedimos e nos aproximamos do paredão na sequência da trilha; e por fendas e saliências ganhamos altura. Encontramos então com um outro aventureiro solo que estava no circuito Maeda-Marinzinho-Marins. Rápida conversa, continuamos subindo e vencemos o trecho íngreme. Essa subida já demonstrava que o trecho não seria brincadeira e requereria esforço extra para escalaminhar e trepar pedras.

O temido lance da corda
Continuamos na trilha que tende para a esquerda/nordeste, passamos por uma pequena área para acampamento e nos dirigimos para o Marinzinho através de intenso trepa pedras. Chegamos então ao cume do também conhecido Pico Leste ou Pico do Piquete às 10h20 da manhã. Pausa apenas para algumas fotos, prosseguimos descendo uma rocha íngreme e logo adiante passamos sob algumas apertadas pedras, que nos obrigaram a abaixar e raspar as cargueiras. Continuamos a descida do Marinzinho por trilha bem marcada, porém bastante íngreme. Trilha movimentada, encontramos com outro aventureiro do circuito Maeda-Marinzinho-Marains. Adiante chegamos à tão falada descida das cordas. Trata-se de uma rocha com uns 5 metros de altura, onde no momento (junho 2014) encontram-se três cordas instaladas: duas na cor branca e uma na cor vermelha. As cordas na cor branca já parecem estar velhas...

Ficamos aguardando por mais de 30 minutos a descida de um grupo que estava à nossa frente, fato que nos atrasou bastante. Na nossa vez, fizemos uso das cordas e em pouco mais de 10 minutos descemos a rocha e continuamos ladeira abaixo até o fundo do vale. A vegetação beira trilha é bem fechada e nos agarrava na descida. Mal chegamos ao fundo do vale e começamos a subir novo trecho rochoso na base do trepa pedras. Alcançamos e passamos o grupo que estava à nossa frente lá na descida das cordas. No topo do morrote fizemos uma parada para lanche. Note-se que esse trecho que estávamos caminhando quando em tempo aberto é de rara beleza. Pode-se ver todo o trecho de crista que irá se caminhar. Infelizmente não tivemos esse privilégio, pois a neblina não dava trégua...

Pedra Redonda: depende do ângulo de visão
Nosso próximo objetivo era a Pedra Redonda. Para isso fomos caminhando pela crista. Passamos por um trecho onde há uma pirambeira e se caminha por um corte na rocha. Adiante, em pequeno declive passamos por um local de recente acampamento improvisado e exposto. Mais uns vinte minutos pela crista e chegamos à Pedra Redonda por volta de 13h20. Parada apenas para registros e deixamos o lugar, chegando pouco tempo depois às áreas para acampamento da Pedra Redonda. São muito boas, cabem várias barracas e são bem abrigadas.

Rochas e capins pós Pedra Redonda
A essa altura e pelo ritmo da nossa caminhada eu calculava que antes das 18 horas não chegaríamos ao Itaguaré. Iniciamos a descida após o acampamento da Pedra Redonda através de trilhas por entre moitas de capim. Em certos pontos há algumas saídas erradas, certamente devido aos perdidos dos aventureiros. Em tempo aberto é fácil notar o erro, mas com neblina não é a mesma coisa. Por isso, tivemos que consultar o GPS várias vezes... Após a descida o terreno dá uma nivelada e a vegetação de capim fica mais baixa, deixando a trilha mais nítida. Passamos por uma nova área de acampamento para várias barracas. Seguimos sem grandes aclives e declives até outra área menor para acampamento, localizada antes de uma pequena descida. 

Itaguaré no melhor estilo assombração
Após essa pequena descida há uma outra subida leve e curta, para se estabilizar permeando trechos com capins, vegetação arbustiva e algumas passagens de rochas. Nesse trecho em uma abertura da neblina foi possível ver a silhueta do Itaguaré ainda bem distante... Já cansados chegamos ao último acampamento antes do Itaguaré chamado Castelinho. Quando passei por aqui anos atrás, desse ponto tinha-se uma bela vista do Itaguaré e das suas enormes fendas. Dessa vez nada vimos... 

Passava das 3 horas da tarde e ainda tínhamos dois selados a vencer até o Itaguaré. O ritmo da caminhada caiu bastante. Após transpor algumas rochas iniciamos a descida sentido sudeste rumo ao fundo do primeiro vale. Como a descida é curta logo começamos a subir novamente. A vegetação beira trilha sempre fica mais alta nos vales e atrapalharam bastante a caminhada. Além disso, pedras e degraus eram constantes. Escalaminhar pedras já estava nos cansando...

Ao chegar ao topo, passamos por algumas rochas onde há uma saída falsa rumo a uma pirambeira. Saímos pela esquerda e por entre capins nova descida. Há até uma pequena florestinha no trecho. Após a trilha se nivelar inicia-se nova subida, agora rumo à base do Itaguaré. Esse trecho foi de lenta caminhada e a noite chegava rapidamente. Passava das 17h30 quando chegamos à pequena toca onde se tem que tirar as cargueiras para passar sobre as rochas. Todos estávamos cansados e não foi fácil arrancar forças para o exercício.

Nem bem recolocamos as cargueiras nas costas e logo acima tivemos que retirá-las novamente para fazer a passagem de novo degrau em rocha. Trata-se do lugar aonde se retira a cargueira, põe sobre a pedra acima e passa-se por debaixo da rocha, emergindo acima e do outro lado; e pulando novamente a pedra prossegue a trilha. Claro, se o sujeito conseguir escalaminhar a rocha não precisará desse exercício... Já beirava 18 horas e a noite havia chegado de vez. Passei primeiro e procurei a trilha. Não vi e fui checar o GPS: a trilha era óbvia e estava à minha direita. Fizemos então a passagem e sem delongas prosseguimos a subida até a base do Itaguaré, lá chegando em 20 minutos. Após checagem da trilha, descemos um pouco e chegamos ao primeiro acampamento na base do Pico Itaguaré. Sem hesitar por lá nos instalamos! Era aproximadamente 18h30 e a noite estava um breu!

Após a montagem das barracas fui ao ponto de água do Itaguaré atrás do precioso líquido, que fica no fundo da ravina na trilha de descida, pois alguns de nós estávamos com pouca água. Havia água por lá, mas muito pouca e estava empoçada, porém suficientes para consumo. Nesse momento pensei em quanto peso extra carregamos na iminência de não ter água por ali. Na verdade poderíamos ter caminhado bem mais leve... Colhi a água e voltei ao acampamento, aonde jantamos e devido ao frio, mergulhamos nas barracas. Só consegui dormir depois de 21h30, pois na noite anterior havia dormido bastante...

Amontoado de rochas no topo do Itaguaré
Eu
3 O terceiro e último dia da Travessia amanheceu também fechado. Mesmo assim, às 7h30 da manhã me animei e fui ao Pico do Itaguaré. Ninguém mais topou sair da barraca em face do tempo completamente fechado. A subida foi rápida: segui por trilha demarcada até o sopé do Pico. De lá, segui os totens em zigue-zague e não tive erro, eles me levaram até a fenda do Pulo do Gato. A partir da fenda, faz-se a transposição e segue pela esquerda de uma grande rocha e em trepa pedras chega-se ao cume.

O cume do Itaguaré é pequeno e irregular, não havendo locais para se armar acampamento. Não consegui ver grandes coisas lá de cima. O tempo realmente não abriu. Apenas vi céu azul sobre minha cabeça, mas os aredores permaneceram cobertos por neblina; além disso fazia muito frio. Mesmo assim, só desci do topo uma hora depois, chegando novamente ao acampamento às 9h00 da manhã.

Nosso acampamento visto da descida do Itaguaré
Desmontamos e deixamos o acampamento às 9h40 daquela manhã. A trilha é bem demarcada, passa pelo ponto de água e subindo um curto trecho chega-se a outra área de acampamento, maior e mais abrigada que aquela que pernoitamos. Cumprimentamos alguns montanhistas que estavam por lá e sem delongas subimos o morrote à frente em direção à Base Itaguaré. Passamos por várias rochas e descemos um lajeado, adentrando a mata. E tome descida. A trilha encontra-se bastante erodida, bem marcada e não há a menor possibilidade de erro no trecho. Depois de pouco mais de 2h de caminhada desde o acampamento a trilha se nivelou. Passamos pelos pontos de água (3) e chegamos à Base Itaguaré às 12h00.

Itaguaré visto do morrote após o camping "oficial"
Lá o Milton da Base Marins já aguardava o Lee e o Eduardo para resgatá-los. Nos despedimos e ficamos aguardando o nosso resgate para Passa Quatro, que chegou às 13h00. Minutos antes, um grupo que também fizera a Travessia chegou na Base e trocamos algumas figurinhas. Resgatados, por volta de 14h30 já estávamos em Passa Quatro. Após uma limpeza geral, a primeira depois de 3 dias, ainda fomos ao Pé de Pano (Trevo de Passa Quatro) almoçar.

Sãos e salvos após o intenso trepa pedras
Depois me despedi dos amigos: enquanto eles voltariam para BH às 22h00 daquela noite, eu embarcaria para Itamonte e depois Alagoa às 18h30. Fato curioso é que, enquanto meus amigos chegaram domingo cedo em BH, cerca de 400km de distância, eu só consegui chegar em Alagoa, distante 60 km de Passa Quatro somente ao final da tarde de domingo! Finalizando agradeço aos meus amigos pela paciência em mais essa aventura. Apesar de não termos conseguido tempo aberto, foi uma experiência incrível e uma convivência intensa e bela. Ficou o desejo da volta: o visual dessa rota é daqueles que justifica qualquer esforço para um retorno. E em breve estaremos juntos novamente trepando e pulando aquelas mesmas pedras espetaculares!


Serviço

Aberta na década de 90, a Travessia Marins Itaguaré é uma das Travessias mais altas do Brasil. Percorre as divisas dos Estados de São Paulo e Minas Gerais, ligando três pontos principais: Pico dos Marins (2421m); Pico do Marinzinho (2432m, ponto culminante da Travessia) e o Pico do Itaguaré (2308m). Ao todo, excluindo os acessos por estrada de terra, e marcando desde a Base Marins e até a Base Itaguaré essa Travessia perfaz aproximadamente 18 km, incluso ida e volta aos topos do Itaguaré e Marins. 

Rota no GE
A despeito da sua curta distância, o fator que pesa e dificulta essa Travessia é a enorme quantidade de pedras pela trilha. São vários os locais que exigem escalaminhada, além de incontáveis trepa pedras. Em pelo menos dois locais, exige-se atenção especial: O primeiro é na descida da corda após o Pico do Marinzinho. Trata-se de uma rocha com alguns pontos de apoio possíveis de serem vencidos até sem corda, mas requer cuidado e atenção redobrados. O outro é a fenda do Pulo do Gato no topo do Pico do Itaguaré: é um local realmente perigoso em que não há segunda chance! Enquanto o primeiro é uma passagem obrigatória, o segundo é opcional, somente sendo deparado por quem queira subir o cume verdadeiro do Pico Itaguaré.

Portanto, irmã e distante apenas alguns km da Serra Fina, a Marins - Itaguaré possui as mesmas características desta, como relevo, clima e vegetação. Igualmente por se desenvolver em cristas e possuir pontos elevados, é uma Travessia que possibilita amplos visuais do Vale do Paraíba paulista e do mar de morros do Sul de Minas Gerais; além da densa vegetação de matas das suas encostas. É rota indispensável a todo montanhista!

Como chegar /voltar - cidade referência: Belo Horizonte

De ônibus:
Ida:
Em Belo Horizonte, embarcar non stop em ônibus da Empresa Útil, comprando passagem para o trecho Belo Horizonte (MG)-Cruzeiro (SP). O desembarque se dará no chamado Posto Pilão, às margens da rodovia MG 158 na cidade de Passa Quatro. Avise o motorista, pois este ônibus não adentra a cidade; nem passa na rodoviária.
Em Passa Quatro, contratar o traslado para o início da trilha na Base Marins.

► Do Posto Pilão em Passa Quatro até a Base Marins serão aproximadamente 32 km de estrada de terra.

Volta:
Combinar o resgate na Base Itaguaré, voltando para a cidade de Passa Quatro.
Da Base Itaguaré até Passa Quatro serão aproximadamente 15 km de estrada de terra.
Em Passa Quatro embarcar non stop para Belo Horizonte, via Empresa Útil comprando passagem para o trecho Cruzeiro (SP)-Belo Horizonte (MG).
O embarque ocorrerá no Posto Pilão às margens da rodovia MG 158 em Passa Quatro.

► Não se esqueça de comprar a passagem da volta antecipadamente, pois não há venda de passagem no ônibus; nem na rodoviária da Passa Quatro.
►Confira os horários e frequências no site da Viação Útil

►► Para quem vem de Ônibus de São Paulo ou do Rio de Janeiro, o melhor é ter a cidade de Piquete (SP) como referência. De lá contratar serviço de traslado até a Base Marins; bem como contratar o resgate ao final da Travessia para a cidade de Passa Quatro. De lá, como opção, poderá embarcar de ônibus para a cidade de Cruzeiro, onde terá mais opções em horários para a volta para RJ ou SP.

De carro:
Ida:
Opção 1 - Eleger Passa Quatro como sua cidade base:
Siga pela rodovia Fernão Dias até a cidade de Campanha. Depois siga pela BR 267 até Caxambu. De lá tomar a rodovia BR 354 até o Distrito de Capivari, quando deverá entrar na MG 158 indo até a cidade de Passa Quatro. Em Passa Quatro contratar serviço de leva ao início e de busca ao final da Travessia.

Opção 2 - Eleger a própria Base Marins como sua base:
Seguir pela rodovia Fernão Dias até o trevo de Pouso Alegre. Entrar à esquerda pela rodovia BR 459 passando por Santa Rita do Sapucaí, Itajubá e indo até Delfim Moreira. Após Delfim Moreira, seguir por 6 km após a cidade e entrar à esquerda na estrada de terra que segue para a Fazenda Saiqui. Da rodovia até a Base Marins serão aproximadamente 15 km de estrada de terra. Na Base Marins combinar algum tipo de resgate para o final da Travessia na Base Itaguaré, que lhe levará de volta à Base Marins pela estrada de terra interna, por aproximadamente 15 km.

Volta:
Fazer o trajeto inverso da ida.

►► Para quem vem de carro de São Paulo ou do Rio de Janeiro, a melhor opção é seguir até Piquete (SP) e de lá para a Base Marins. Contratar resgate para o final da Travessia, voltando para a Base Marins e de lá fazer o retorno até as cidades de origem, passando novamente por Piquete.

Considerações finais

Trilhas: trepa pedras, escalaminhada básica e raspa-raspa em rochas: estes são os aspectos marcantes dessa Travessia. Prepare suas pernas! De um modo geral, a trilha encontra-se bem marcada pelo pisoteio, especialmente no trecho Base Marins - Pico dos Marins. Fique atento ao solo. É comum a trilha ficar pouco visível em trechos com lajeados. Os totens estão relativamente bem posicionados e são boas fontes para orientação. Apesar disso, só vá fazer essa Travessia se tiver experiência em navegação e orientação. Em tempo aberto e limpo não terá problemas, mas em caso de neblina como ocorreu conosco, quem não tem experiência poderá se perder facilmente. 

Lance de corda na subida para o Marins: eu achei desnecessário, mas é um bom auxílio sobretudo para menos experientes.
►►Atualização Ago 2015: passando novamente no trecho, não encontrei mais esta corda.

Lance de corda após o Marinzinho: apesar de existir saliências na rocha que em tese possibilitam a descida, realmente a corda é um grande auxílio no trecho. Mas não se preocupe: é um trecho fácil para se transpor. Somente fique atento ao estado da corda. Eu recomendo que se leve um pedaço de corda na cargueira, pois não se sabe se chegará ao local e a corda fixa esteja por lá e em boas condições. E isto se torna imperativo em caso de fazer a Travessia com iniciantes. Não custa se precaver. 

Fenda Pulo do Gato no Itaguaré: essa profunda fenda fica no topo do Pico do Itaguaré, onde há uma rocha irregular entalada. Esse acidente é inclusive visto de um determinado ponto no trajeto da Travessia. Para transpô-la é preciso caminhar sobre essa rocha entalada, que possui pouco mais de 1 metro de largura; porém não é plana; tem uma espécie de cumeeira bem ao meio. Mas fique tranquilo, o trajeto da Travessia passa aos pés do Itaguaré, que só é atingido mediante ataque através de uma bifurcação. Portanto, somente irá até essa fenda quem quiser atingir o cume verdadeiro do Itaguaré, que fica a uns 6/7 metros (+ ou -) mais alto que o ponto aonde está a fenda. De qualquer modo, caso desejar ir ao topo verdadeiro do Itaguaré, o Pulo do Gato é o ponto mais perigoso em toda essa Travessia. Só recomendo transpô-la quem não tenha medo de altura e esteja seguro. Se a rocha estiver molhada não aconselho ultrapassá-la, pois é um lugar que não se permitem erros. A título de curiosidade, esse nome Pulo do Gato deriva do fato de alguns preferirem pular a fenda ao invés de passar sobre a rocha entalada. Requer boa dose de coragem para isto!


Água: há escassez de água nessa Travessia. Pontos confiáveis existem somente na Base Marins, Morro do Careca, na base do Pico Itaguaré e ao final da Travessia. Portanto é essencial carregar um pouco mais de água em caso de pernoites na serra. Apesar de relatos da existência de água em outros pontos, como próximo ao Marinzinho; ou ainda, próximo ao Morro da Gruta, fica claro que essas fontes ficam secas em períodos prolongados sem chuvas. Já a água do Ribeirão Passa Quatro que se localiza em um ponto estratégico aos pés do Marins dizem estar contaminada, o que é uma pena. Existe uma placa de análise da UNIFEI que afirma isto, mas não há data de quando essa análise foi feita. De todo modo, existe uma área de acampamento a uns 5 metros dessa água, aonde inclusive vi restos de papel higiênico. Então, essa água deve mesmo estar cheia de coliformes fecais. Se precisar usar essa água, use purificador. Ademais, existem charcos (brejos) próximo à base do Pico dos Marins e do Marinzinho. Sabe-se que, em emergência, basta fazer um buraco no brejo e aguardar algum tempo: a água empoçará. Aí, é só colher e purificar. Mas para fazer isto você deverá estar com tempo suficiente... 

Quantidade de água a transportar: É muito difícil aconselhar quanto de água uma pessoa deverá levar em uma travessia, pois vários fatores fazem com que se consuma menos ou mais água. De todo modo, em travessia de 3 dias, caso vá acampar na última noite na base do Itaguaré, creio não ser necessário levar mais que três litros de água, que seriam colhidos no Morro do Careca. 

Acampamentos: há boas áreas nas redondezas das nascentes do Ribeirão Passa Quatro, próximas à bifurcação/sequência da trilha para o Marinzinho (não me refiro àquela que contamina a nascente, que aliás, deveria-se fazer uma interferência ali e acabar com aquele ponto). No ombro do Marins há uma área bem grande e outra menor no topo do Pico. Na base do Marinzinho há outra área, porém pequena. Após a Pedra Redonda há uma área maior que cabem várias barracas. Continuando no sentido do Itaguaré há outros 3 pontos com menor capacidade. Na base do Itaguaré há dois locais: um antes do curso de água, menor; e outro bem maior, após o curso de água e próximo à base do Itaguarezinho. 

Bagagem: Recomendo evitar o transporte de equipamentos pelo lado externo de cargueiras nesta Travessia: capins, bambuzinhos e rochas vão adorar o adorno e certamente causarão estragos aos equipamentos e ao aventureiro. 

Comunicações: Apesar de inconstante, há sinal de telefonia móvel em alguns pontos dessa Travessia. 

Resgate: Utilizamos o resgate do Sr. Edson, nosso velho conhecido de Passa Quatro. Além da Marins-Itaguaré, ele faz resgates para a Serra Fina. Se quiser o contato, é só solicitar na seção comentários.

Infraestrutura - Atualização Ago 2015: Na Base Marins, que agora é administrada pelos proprietários do lugar pode-se encontrar café da manhã, almoço e jantar. Há também alguns espaços para pernoite.

Formato: Realizamos a Travessia sem nenhuma pressa, portanto os tempos gastos são com folga! Também nos provou que a divisão no Formato Tradicional visando por e nascer do sol nos picos Marins e Itaguaré e que realizamos não é o formato ideal. Poderíamos ter caminhado menos no segundo dia e mais no terceiro dia. A menos que se faça questão de assistir o por/nascer do Sol nos topos dos Picos; ou que esteja com horários marcados para retorno à cidade de origem, não faz sentido caminhar apenas 2h no último dia. Ideal seria pelo menos acampar em alguma área antes do Itaguaré no segundo dia (Castelinho por exemplo); prosseguindo a caminhada no terceiro dia, terminando a travessia ao final da tarde. Mas isso deve levar em consideração um fator imprescindível: a água! Também foi importante constatar o quanto a gente se esquece de um trajeto no decorrer dos anos. Tá certo, a neblina foi um complicador nessa Travessia, mas confesso que nem me lembrava mais de muitos pontos dessa bela Travessia.
►► Aos mais experientes é perfeitamente possível realizar esta Travessia em 2 dias, acampando na Pedra Redonda ou nas imediações; ou mesmo em 1 dia no estilo speed.

► Comparação com Serra Fina: Apesar do intenso trepa pedras e de alguns lances mais técnicos que a Serra Fina, eu diria que esta continua mais difícil e pesada que a Maringuaré. Os motivos são vários: maiores desníveis; vegetação mais resistente e bruta; trajeto e maior isolamento. De toda forma, sendo irmãs, a Maringuaré é uma travessia exigente, também não recomendada a acostumados a parques urbanos ou bate e volta aleatórios. Não quer dizer que um iniciante não possa fazê-la; ocorre que o cansaço será muito maior! 

► Confira algumas Dicas Básicas para a prática de Atividades Outdoor.

► Pratique a atividade aplicando os Princípios de Mínimo Impacto


Bons ventos a todos!!!
Última atualização: Mar 2016

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