terça-feira, 23 de outubro de 2012

Lapinha-Tabuleiro: uma Travessia ímpar!

Cachoeira do Tabuleiro
Seja qual for a rota escolhida, é pra lá que convergem
aqueles que realizam a Travessia Lapinha a Tabuleiro
A Travessia Lapinha a Tabuleiro é uma das rotas mais bonitas e significativas do Brasil; não só porque tem a magnífica Cachoeira do Tabuleiro no seu coroamento; mas também porque oferece uma verdadeira imersão no mundo Espinhaço. A riqueza do relevo e da vegetação fizeram com que esta rota se transformasse em um clássico do Montanhismo Nacional. Há várias rotas possíveis para realizar a Lapinha a Tabuleiro; porém duas se destacam: A Rota Tradicional que contorna o Pico do Breu, sendo mais fácil de ser realizada; e a Rota Via Pico do Breu, que apresenta um nível maior de dificuldade devido aos desníveis na passagem pelo alto da serra. Retornado ao trekking depois de um tempo parado, e respondendo ao convite de um amigo, me juntei a um grupo para realizar a Travessia Via Pico do Breu; uma vez que esta variante oferece um visual mais amplo da região.

►► Leia também nosso relato da Travessia Lapinha a Tabuleiro pela Rota Norte
 Pratique a atividade aplicando os Princípios de Mínimo Impacto

Quando estava planejando minha ida ao Pico da Bandeira em maio-junho de 2012, ao procurar companhia em um fórum na internet, acabei conhecendo algumas pessoas interessadas, dentre estas o James, residente em Belo Horizonte. Posteriormente, James me convidou para fazer a Travessia Lapinha a Tabuleiro no feriado de 7 de setembro. Eu animei, pois também tinha planos de realizá-la. Passamos a fazer parte de um grupo em uma rede social e fomos conhecendo mais pessoas interessadas em fazê-la. Fomos surpreendidos positivamente, acabando por fechar um grupo com 15 pessoas para a Travessia. O grupo era misto, tanto em idade, sexo e experiências em trilhas. Havia pessoas que já realizaram trekking em várias partes do Brasil e exterior, bem como outras cuja Travessia seria o seu batismo. E a pernada foi um sucesso...

Os planos basicamente consistiam em três dias de trekking, passando pela rota do Pico do Breu. No primeiro dia, sete de setembro, partiríamos de ônibus para Santana do Riacho logo pela manhã. De lá seguiríamos de táxi/van para a Lapinha, com previsão de chegada por volta de 11h00 da manhã. Imediatamente iniciaríamos a Travessia, passaríamos pelo Pico da Lapinha e terminaríamos nosso primeiro dia no Pico do Breu, acampando nas redondezas.

No segundo dia sairíamos das redondezas do Breu, passaríamos pela Prainha no rio Parauninha, casa da D. Ana Benta (para reconhecimento) e dirigiríamos para a casa da D. Maria. Dependendo do horário da chegada, decidiríamos se armaríamos acampamento por lá ou mais próximo à Cachoeira do Tabuleiro. Nesse dia, pretendíamos visitar a parte alta da Cachoeira do Tabuleiro e após, retornar ao acampamento. No terceiro e último dia, visitaríamos a parte baixa da Cachoeira do Tabuleiro, aproveitando ao máximo os seus belos poços naturais. No final do dia voltaríamos para Belo Horizonte, via Tabuleiro-Conceição do Mato Dentro.

Diante desse planejamento, a ordem para todos era levar comida suficiente para a Travessia, porque as informações obtidas eram de que a trilha estaria congestionada, com muitas pessoas disputando a alimentação fornecida pelas D. Ana Benta e D. Maria. Outra dificuldade que tivemos foi quanto à logística na região, pois apesar das tentativas, tornou-se impossível firmar com antecedência o nosso transporte de Santana do Riacho para Lapinha; bem como a volta de Tabuleiro para Conceição do Mato Dentro. Desse modo, os fiadores de nossa travessia éramos nós mesmos, baseados na infra de cada um.

1 Assim, na manhã de sete de setembro, cheguei à rodoviária de BH um pouco depois de 7h00. Dei uma olhada pelo saguão que estava superlotado, mas não reconheci ninguém do grupo. Desci então para a plataforma de embarque, porque lá era o ponto em que todos deveriam passar. Minutos após chegar à plataforma, encontrei com James e Igor. Eles já haviam conhecido outros participantes da viagem no saguão superior e estavam ajudando na descida das cargueiras para as plataformas.

Nesse intervalo, nosso amigo Igor deu uma entrevista para uma Rede de TV (rsrs). O resultado dessa brincadeira foi pro ar (os segundos do 10 ao 22 da reportagem foram dedicados aos aventureiros). Eu permaneci na plataforma inferior e circulei em direção ao “nosso” ônibus; quando conheci a Sol. Nos apresentamos e ficamos conversando até a chegada do restante do grupo. Apresentações básicas, pois o ônibus já estava partindo... E infelizmente uma notícia desagradável: o casal de São Paulo (Lee e esposa) que iria conosco não conseguira chegar a tempo em BH. Estavam presos no trânsito nas imediações da Cidade Industrial, em Contagem. Bom, o jeito foi seguir viagem...

Da janela do ônibus: Cânion das Éguas
Embarcamos no ônibus da Viação Saritur por volta de 7h40... Fotos, vídeos, enfim, animação total. Viagem tranquila até chegar à Lagoa Santa. Um congestionamento infernal tomava conta da rodovia MG 10, que dá acesso à Serra do Cipó. Além do elevado número de veículos, essa estrada é de pista simples, com uma ponte estreita na saída de Lagoa Santa, o que piorava ainda mais a situação. O jeito foi se acalmar e assim vencemos o trecho. Passamos por São José de Almeida, depois pelo Distrito da Serra do Cipó. De lá, passamos por um curto trecho de estrada de terra (retorno do ônibus), depois asfalto e chegamos a Santana do Riacho por volta de meio dia.

Chegando na Lapinha
Estávamos aí com um problema. A essa altura planejávamos estar já com 1h00 de caminhada, chegando ao Pico da Lapinha. Além disso, o Lee havia chegado a BH e conseguido embarcar para Santana do Riacho em um ônibus extra. Logo, iríamos esperá-lo chegar à Santana do Riacho para somente aí seguirmos para a Lapinha. Enquanto aguardávamos sua chegada, combinamos o transporte até à Lapinha com um proprietário de uma van. Lee chegou por volta de 13h00, embarcamos na van, seguimos pela esburacada estradinha de terra e chegamos à Lapinha por volta das 14h00.

Objetivo inicial: contornar aquele pico
Nem sentamos para descansar, apenas abastecemos os cantis e nos hidratamos. Fazia sol forte e era 14h00 quando passamos pela ponte defronte a represa da Lapinha, portanto, 3 horas de atraso perante o nosso planejamento oficial. Apenas uns cliques, contemplação da bela Serra da Lapinha e pé na trilha. Passada a ponte de concreto, logo adiante há uma bifurcação: para quem vai contornar o Pico do Breu, segue-se à direita. Para quem vai subir os Picos da Lapinha e Breu que era o nosso caso, toma-se o rumo da esquerda. A trilha é bem marcada e sinalizada com tocos de madeira fincados no solo, com a indicação do Pico da Lapinha.

Passamos nos arredores da Cachoeira do Rapel, que estava com pouquíssima água. Impressionante observar a Cachoeira do Paraíso, também praticamente seca. Cruzamos também alguns regos d’água acima da mirrada Rapel e seguimos fazendo zigue-zague morro acima pela trilha, que alterna bons trechos com outros com erosões bem profundas. Lá embaixo o visual era de tirar o fôlego: o arraial da Lapinha à direita e à esquerda o belo lago da Lapinha! É sem dúvida uma das vistas mais belas de toda a Travessia. Várias foram as paradas para fotos e admiração da paisagem e da diferente vegetação!

Lapinha da Serra vista da subida
Fomos subindo e margeando sentido leste do pico da Lapinha. A subida é efetivamente mais longa do que se parece, porém de tão demarcada torna-se impossível de se perder. Cargueiras pesadas, cansaço da viagem, grupo ainda se integrando, modos que a caminhada não rende muito. O consumo de água era elevado, pois fazia muito calor. Levamos quase duas horas para subir esse trecho, chegando então a um ponto de água. Fomos captar água logo acima, à direita da trilha, próximo a uma matinha rala. Descansamos um pouco e retomamos a caminhada.

Vale à leste do Pico da Lapinha
Pico da Lapinha ao fundo
Logo adiante, uma bifurcação e tomamos erroneamente a trilha da esquerda, que nos levou a um rancho. Logo percebemos o erro; retornamos e retomamos a trilha da direita, que é a correta. Descemos e passamos por um mergulho; cujo terreno estava um pouco úmido; e continuamos a subir na mesma trilha que leva ao Pico da Lapinha. Logo acima, no grande e descampado vale, deixamos para trás o Pico da Lapinha. Devido ao adiantado da hora tomamos uma decisão de não atacar o Pico da Lapinha. Isto porque o nosso maior objetivo era o Pico do Breu, que tem um acesso mais distante. Ir somente ao Pico da Lapinha é mais fácil e possível de realizar em outra ocasião. Então, “hasta la vista” Pico da Lapinha!!! Trilha adiante e o sol indo embora... Este trecho é formado por vegetação de campos rupestres, salpicado por afloramentos rochosos. Percorremos um trecho por trilha antiga pelo vale no sentido leste; até que demos uma guinada para o sul/sudeste, agora percorrendo um trecho sem trilha definida.

Entardecer na Serra da Lapinha
Aproximava das 17 horas quando caímos na real de que não conseguiríamos chegar ao Pico do Breu. Isto porque, além da distância, ocorreu um problema com o GPS de um dos nossos amigos cuja trilha havíamos discutido e finalizado. Nosso amigo Lee também estava com uma rota em GPS e aí, a sua orientação foi fundamental. Entretanto, logo percebi uma diferença nas marcações: enquanto a rota que havia estudado e perdemos seguia em direção à crista; a rota que estava com o Lee mandava contorná-la! Para complicar e por desleixo meu, eu não havia levado mapas; nem carta e bússola! Certamente teria sido útil...

Por do sol sob o Pico da Lapinha
Mas o problema com a navegação era o menor, pois no caso poderia ir no visual! Naquele momento a urgência era encontrar um local para armar acampamento; pois escurecia rapidamente. Como estávamos margeando a crista pelo vale, as chances de um lugar assentado era maior; apesar do terreno pedregoso. Mesmo assim, alguns do grupo foram adiante e localizaram um ótimo local, completamente plano, aos pés de um morrote secundário. Não tinha jeito, era lá mesmo e o Pico do Breu só no outro dia! Às 18h30 e sob iluminação das lanternas montamos nossas sete barracas, graças a Deus!

A noite foi maravilhosa. Preparamos nossa comida; jantamos e ficamos jogando conversa fora! Animação total, muitas risadas, fotos... A temperatura caiu, mas nada muito frio. Refizemos o planejamento e decidimos que sairíamos bem cedo do acampamento, no máximo às seis da manhã para cumprirmos o plano inicial. Sabíamos então que o dia seguinte seria puxado! Então tomamos um vinho pra comemorar e por volta das 22 horas todos já dormiam o sono dos justos. Noite perfeita! Nota: Nesta noite nasceu então o Grupo Extremos Trekking.


Amanhecer nebular no acampamento no alto da serra. 
2 Levantamos no dia 8 de setembro por volta das cinco da manhã. A neblina tomava conta de tudo ao redor. Tomamos café, desmontamos acampamento e às seis da manhã deixamos o local seguindo a marcação, já que era impossível navegar visualmente devido à densa neblina no alto da sera. Fomos então margeando o lado oeste da crista, sem trilha definida. O trecho foi um pouco mais difícil, com alguns degraus e passagens mais complicadas. Porém, a beleza da paisagem derrubava qualquer eventual desânimo e cansaço! Até que chegamos ao final da base da crista, onde segundo a marcação deveríamos virar 90 graus à leste para atingir o Pico do Breu. Passamos por um trecho mais exposto, com algumas lajes sobrepostas e um precipício abaixo, onde qualquer erro poderia resultar em sérios problemas. Todos passaram com louvor e logo após um curto aclive chegamos até um platô, onde fizemos uma conferência.

Trecho de passagem pelas rochas onde giramos à leste
A questão era a seguinte: Diante da dificuldade de orientação devido à neblina/GPS e perante o objetivo do dia, deveríamos ainda subir o Pico do Breu ou abandonar essa opção, tomando o rumo da trilha que o contorna e que passa um pouco abaixo de onde estávamos? Acertadamente venceu a opção pela subida; uma vez que àquela altura, as distâncias seriam as mesmas. Assim, tomamos rumo leste num descampado rumo ao Pico do Breu. Atravessamos uma velha cerca de arame, seguimos por um trecho sem trilha definida, mas de fácil caminhada e logo adiante chegamos ao pé do Pico do Breu. Passamos a examiná-lo e como nem tudo que reluz é ouro, constatamos que a sua subida não seria tão simples. Além disso, a neblina não permitia ver muita coisa além de uns 20 metros adiante e acima!

Trecho da subida íngreme do Pico do Breu
Foto: Thiago Silva
Tratava da face norte/noroeste do Pico do Breu, um trecho complicado, com rochas irregulares e forte inclinação, o que exigiria uma 'escalaminhadinha' básica. Se fosse só isso não seria nada, uma vez que examinando o trecho, era possível observar que não necessitava de nenhum equipamento técnico para subi-lo. Entretanto, estávamos com um grupo grande, inclusive com pessoas cuja travessia era o seu batismo nas trilhas; e as cargueiras estavam pesadas...

Decidida pela subida, permaneci na base do Breu, com o intuito de que, caso fosse necessário abortar a subida, eu poderia auxiliar na descida, que normalmente é sempre mais complicada. Enquanto isso, alguns foram, explorar a face do Breu, para definir qual seria a melhor rota. Alguns minutos de pesquisas, escolheu-se o melhor caminho e um a um foram subindo. Finalmente também subi com facilidade, apenas com cuidado redobrado para se evitar acidentes. Confesso que fiquei um pouco preocupado nesse trecho, sobretudo com os novatos: Mas deu tudo certo, graças a Deus!

Topo do Pico do Breu
Poucos passos após esse trecho complicado, chegamos ao cume do Breu. Era por volta de 8h00. A densa neblina havia plantado a imagem de que esse trecho seria muito mais difícil do que realmente foi. Corremos rápido para o totem do cume do Breu. Felicidade total, enfim, nosso grande objetivo havia sido atingido. Infelizmente a neblina continuava firme e forte, modos que o visual foi comprometido. Apenas algumas aberturas rápidas que permitiram ver muito pouca coisa. E estava muito frio e ventava bastante. Também não era pra menos, estávamos a aproximadamente 1.650m de altitude!

O cume do Pico do Breu é abaulado, com inclinações para os “quatro” lados. Apesar da existência de algumas rochas, estas são pequenas, tornando a área bastante exposta. Por esse motivo a área não seria recomendável para acampamento. Porém, para quem não se importa com vento e tem equipamento adequado, é perfeitamente possível acampar por lá, sendo uma experiência incrível!

Visual sul com o Vale do Parauninha e a Prainha
Permanecemos por pouco tempo no cume, uma vez que não tínhamos visual. Nos dirigimos para o lado mais ao sul do Pico do Breu para iniciarmos a descida. Não há trilha definida para a descida do Pico do Breu: é no visual mesmo! Iniciada a descida, a neblina começou a dissipar e aí foi possível ver o vale do Rio Parauninha, a famosa prainha um pouco mais abaixo em direção à casa da D. Ana Benta, bem como a longa descida. Decidimos então que não iríamos à D. Ana Benta, pois estávamos apertados com o horário. Como era possível ver a trilha logo após o Parauninha, decidimos pegar esse atalho para ganhar tempo.

Pico do Breu após a descida: exigente
A descida do Pico do Breu é um pouco exigente. Não que haja trechos expostos ou perigosos. Ocorre que o desnível de cerca de 400 metros aproximadamente exige muito dos joelhos. Chegados aos pés do Pico do Breu paramos para um descanso. Fui então até o Rio Parauninha para comprovar se era possível atravessá-lo no ponto desejado para cortar caminho. Como era possível, acenei positivamente e em instantes o grupo chegou junto ao rio. Novo momento para descanso. Aproveitei para tomar um banho, bem como o restante do grupo. Em dado momento, uma bela cobra que parecia ser uma jararaca veio nos visitar, descendo mansamente na flor d’água no rego que desaguava no Parauninha. Logo a espantamos e ficamos mais um tempo por lá, cerca de meia hora, apenas para refrescarmos do calor, que já era intenso.

Pico do Breu visto desde as imediações da trilha para Ana Benta
A neblina já tinha se dissipado...
Reiniciamos a caminhada por uma trilha que segue no pasto acima, no lado esquerdo do Parauninha. No final do leve morro, atravessamos uma cerca de arame e entramos na trilha que vinha da D. Ana Benta. Tomamos o rumo à esquerda, passamos em frente a um curral, cruzamos uma porteira (que estava trancada com cadeado) e mais adiante, próximo a uma matinha, à sombra, paramos para comer alguma coisa. A parada foi longa, por mais de meia hora. Após o merecido descanso, atravessamos o leito de um rego d'água, com uma grande erosão e mais adiante, captamos água. Nesse momento, ao apoiar-me nas pedras, acabei por desequilibrar-me e molhei meu pé esquerdo. Mas foi bom, refrescou o calor!

Vista do Pico do Breu desde a região da Cascalheira
Após o incidente, seguimos trilha adiante, distanciando cada vez mais do Breu. Paisagem linda, linda, linda!!! Nesse ponto, nosso grande grupo de dividiu. Enquanto uma parte seguiu um pouco mais apressada, o outro grupo, inclusive eu, ficou um pouco para trás. Tivemos que fazer uma parada, pois um dos nossos começou a sentir fortes cãibras. Minutos depois, retomamos a caminhada e veio uma subida mais forte. Erosões profundas e areia na trilha por um pequeno trecho em cascalho! Novamente nosso amigo voltou a sentir cãibras, modos que fui até ele e ofereci a única ajuda que poderia: carregar a sua cargueira. Ele agradeceu e retomou a caminhada. Alguns metros adiante ainda na subida íngreme, as cãibras continuavam... Dirigi-me a ele e dessa vez obtive sucesso: peguei a sua cargueira e subi morro acima. Outro amigo também auxiliou no transporte e assim fomos revezando, vencendo a subida. Logo adiante, os que estavam à frente ficaram à nossa espera e passou a nos ajudar no transporte das cargueiras.

Grupo reintegrado, pé na trilha, e chegamos a uma bifurcação, onde há uma porteira. Tomamos o rumo à direita, pois à esquerda-reto segue sentido Estrada Transamante e  Cachoeira do Bicame. Há ao longe um cruzeiro, à esquerda, visto ao longo da trilha que orienta bem esse trecho. Adentrávamos em terras do PE do Intendente e desse ponto em diante acabaram grandes subidas e descidas. A trilha é ótima, praticamente plana, bem demarcada. Adiante, corre à direita um ribeirão, com pouco volume d’água; um dos muitos afluentes do Ribeirão do Campo. Nova parada para breve descanso. As cargueiras extras que carregávamos foram devolvidas aos seus donos, pois eles já estavam 100%.

Aproximando da casa da Dona Maria
Houve nesse trecho todo apenas uma dúvida, em uma bifurcação próxima a uma mata. A trilha correta e que nos levaria à D. Maria é a da esquerda, conforme nos confirmou um nativo que passava à cavalo pelo lugar naquele momento. A trilha sobe um morrinho, para depois descer, passar por uma cerca/porteira e chegar a uma matinha. Nesse trecho passa um rego d’água, onde há uma pinguela, resultado de uma árvore tombada. A trilha passa por ela e segue suave, margeando outro afluente do ribeirão do Campo. Não tem erro e logo adiante já é possível avistar a cerca de 1 km a casa da D. Maria. Atravessamos mais um rego d’água e pronto; chegamos à D. Maria por volta de 15h30.

Parecia que havia festa na casa da D. Maria. Havia umas 50 pessoas no terreiro da casa. Muita gente mesmo; e falavam muito alto! Confesso que por alguns momentos pensei na privacidade daquela família! Mas os moradores do interior são muito tolerantes! Ponto pra Eles! Naturalmente havia barracas aos montes e por todos os lados. Na área de acampamento abaixo da casa e à esquerda da trilha da Cachoeira do Tabuleiro eu contei umas 30 barracas. As melhores posições de acampamento já estavam ocupadas.

Tomamos então duas decisões: a primeira que acamparíamos por lá, porque parte do grupo estava bastante cansado. Na verdade, todos nós estávamos um bagaço, fruto do calorão que fizera naquele dia! A outra decisão foi a de se dirigir à parte alta da Cachoeira do Tabuleiro antes que o sangue esfriasse. Também tivemos a informação de que, dada à quantidade de gente no lugar não poderíamos deliciar com a janta da D. Maria. Uma dorzinha no coração; mas isso não seria problema, nossas dispensas estavam abastecidas! Mais tarde soube que alguns sortudos do nosso grupo conseguiu saborear a janta da D. Maria. E nem me avisaram... 

Escolhemos a nossa área para acampamento um pouco acima da casa, à esquerda, próximo a um poste (Sim, na casa da D. Maria há energia elétrica). Nós que iríamos à parte alta nem montamos nossas barracas, apenas deixamos as tralhas no local para demarcação de espaço. Outros três membros do nosso grupo permaneceram no acampamento. Tomamos a trilha para a parte alta do Tabuleiro saindo à esquerda da casa da D. Maria. Na bifurcação logo abaixo, seguimos à direita, numa subida leve. A trilha é demarcada e não tem erro. Segue tranquila, com algumas subidas e leves descidas. Depois de pouco mais de 1 hora de caminhada é possível ver o cânion por onde desce o Ribeirão do Campo lá embaixo. E para atingi-lo há uma descida de tirar o fôlego, um teste para os joelhos, com uma trilha repleta de pedras e degraus.

Uma das várias quedas que existem no interior do Cânion da parte superior
No trajeto para a parte alta, o grupo acabou se dividindo em três. Os primeiros apressaram o passo para chegar à parte alta, já que a área é evacuada por volta de 17 horas. Um grupo mais lento ficou para trás. Permaneci no grupo intermediário, seguindo o meu ritmo, nem acelerado, nem devagar. Assim, por volta de 17h15 chegamos à margem do Ribeirão do Campo, no local de acesso ao cânion e à parte alta da Cachoeira do Tabuleiro. Para nossa surpresa, lá estava um guarda parque, que nos avisou que a área não mais poderia ser acessada aquela tarde. Explicamos pra ele que estávamos em um grupo, vindo desde o Pico do Breu naquele dia; e que parte do grupo já havia adentrado ao cânion. Simpaticamente ele permitiu nossa entrada e até nos acompanhou à garganta da Cachoeira do Tabuleiro, aonde chegamos 10 minutos depois.

Garganta da Cachoeira do Tabuleiro
A área é de fácil acesso, requer apenas cuidados para não se machucar. Foi só ir descendo os degraus e como havia pouca água, foi tudo muito simples. Impressiona as formações dos paredões à direita e esquerda. A garganta é precedida de um poço propício a um mergulho. Lucas e Mateus aproveitaram bem o poço! Aliás, por todo o cânion há poços semelhantes, porém não entrei em nenhum deles! Ao chegar à garganta, não tive palavras. É impressionante! Talvez uma das imagens mais marcantes que já vi em toda a minha vida!

Queda - Foto: Valéria Alberto
Desde a garganta da Tabuleiro foi possível observar toda a trilha de acesso à parte baixa da Cachoeira do Tabuleiro, que nos esperava no dia seguinte; bem como os paredões de tons avermelhados à direita e à esquerda da queda d’água. O conjunto impõe respeito! Apesar do frio na barriga, impossível não dar aquela olhadinha básica na queda d'água grudada à rocha! Como já estava escurecendo, voltei logo cânion acima, enquanto o restante do grupo ficou navegando por lá, inclusive aqueles que chegaram mais tarde! Infelizmente o tempo foi curto para explorar essa área, que mereceria até um dia inteiro!

Por volta de 18h30 retomamos a trilha de volta à casa da D. Maria, que é o mesmo caminho da ida. Percorremos a subida íngreme, cheia de pedras, que lembra as trilhas de acesso ao Pico da Bandeira. Completamos essa subida já no escuro, utilizando as lanternas. Devido ao cansaço e à escuridão saímos da trilha por duas vezes, mas logo retomamos a direção correta. Mesmo assim estávamos alegres pela aventura! Chegamos ao acampamento por volta de 20h30; quando constatei que o Lee havia montado a minha barraca. O restante do pessoal logo armou suas barracas. Assim foi só preparar a nossa janta. Alguns foram encarar o chuveiro gelado ao lado da casa da D. Maria e tomaram banho. Algumas “trekeiras” foram mais sortudas e ficaram na fila do banho quente na residência da D. Maria. Somente após jantar fui ao chuveiro gelado. A intenção era tomar um banho completo, mas o vai-vem de lanternas na trilha ao lado me desencorajou... Então tomei um banho de gato mesmo. Voltei para o acampamento e mergulhei pra dormir.

Nascer do sol na Dona Maria
3 Curiosamente naquela noite não dormi bem. Talvez porque havia jantado pouco, estava bastante cansado e além de tudo, tinha tomado banho de gato. Além disso, a barraca estava em um ponto inclinado e havia dormido muito na noite anterior! Acordei à noite várias vezes e nem acreditei quando era quatro horas da manhã. Caí fora da barraca, fiquei fazendo hora e fui premiado com o lindo nascer do sol, por volta das 05h00. Estava tão lindo que acabei acordando praticamente todo mundo para contemplar essa hora tão abençoada.

Como havia jantado pouco, não fiz de rogado e preparei um tremendo almoço no café da manhã: arroz, feijão, batata palha, bacon e lingüiça defumada. Que delícia! Grupo de pé, café da manhã no papo, por volta de 8h30 deixamos a casa da D. Maria sentido parte baixa da Cachoeira do Tabuleiro. A trilha é uma longa descida, porém sem dificuldades, pois é marcada, masi parecendo uma avenida. De um jeito ou de outro acabará saindo na portaria do Parque Municipal do Ribeirão do Campo, onde fica a Cachoeira do Tabuleiro.

Depois de pouco mais de 1 hora de caminhada morro serra abaixo, começamos a nos aproximar do Mirante da Tabuleiro. Ao atingir o Mirante, a belíssima Cachoeira do Tabuleiro mostrando todos os seus 273 metros de queda d’água impressionava. Aquela imagem conhecida, com os paredões formando um coração é realmente marcante! Parada no mirante para fotos, muitas fotos e contemplação! Após essa parada, dirigimos sem pressa para a portaria do Parque Muncipal do Ribeirão do Campo (Atual Parque Municipal do Tabuleiro), chegando em pouco mais de 15 minutos, através de uma leve descida.

Chegando na parte inferior da Cachoeira do Tabuleiro
Chegando à portaria, pagamos a entrada no Parque e fomos até o Centro de Visitantes, onde fomos recepcionados gentilmente por uma simpática funcionária. Ela permitiu que deixássemos nossas cargueiras em um cômodo da sede e então leves, dirigimos à parte baixa da Cachoeira. A trilha segue sinalizada, demarcada e bem batida, com alguns lances que requer atenção, pois a descida é íngreme e há vários degraus encravados na rocha. Terminada a descida, chegamos à margem esquerda do Ribeirão do Campo, onde através de um intenso trepa e pula pedra chega-se ao poço da Cachoeira do Tabuleiro. 

Parcial do Poção da Tabuleiro
O poço é grande e a água tem coloração de coca-cola. A queda d’água impressiona, porém como era época de seca, havia pouca água, que ao sabor do vento, dançava de um lado para o outro fazendo um balé. Os paredões são majestosos e confesso que me impressionou mais que a queda d’água em si! Enquanto uns mais corajosos cruzavam o poço a nado de um lado pra outro, preferi descansar à beira do espelho! 

Ficamos por lá até umas 15 horas, quando iniciamos o retorno para a portaria. Alguns pareciam não quererem deixar o local! Paramos a certa altura no meio do leito do Ribeirão do Campo. Algumas das meninas não resistiram e caíram na água novamente! Nessa hora da subida eu estava cansado. Senti cada degrau na subida, que sem dúvida foi a mais íngreme de toda a Travessia. E o sol castigava, parecia cozinhar os meus miolos! O grupo se dividiu no caminho, modos que eu cheguei à portaria novamente por volta de 16 horas.

Conferidas as cargueiras e estando tudo ok, iniciamos a saga atrás de transporte para o Tabuleiro, Conceição do Mato Dentro ou BH. Não cogitamos ir finalizar a Travessia no arraial do Tabuleiro por vários motivos. Alguns tinham horários marcados para viagens em BH; outros compromissos profissionais; além disso, o cansaço era geral. Após várias tentativas, conseguimos uma Kombi e mais dois táxi em Conceição do Mato Dentro, que foram nos resgatar lá na portaria do Parque.

Guarita no Parque Municipal do Ribeirão do Campo
Esperamos por cerca de 1 hora, tempo suficiente para descanso, muita prosa e para presenciar o belo pôr do sol na Portaria, quando a Kombi branca chegou. Embarquei nessa leva, cujo dono do veículo era de BH; logo viríamos direto da Portaria do Parque Municipal de Ribeirão do Campo a BH. Quanta sorte! Despedimos do restante do pessoal e pé na estrada. No trajeto, encontramos com os táxi que iriam à portaria resgatar o restante do grupo. Os mesmos nos ultrapassaram na estrada, já de volta, ainda no arraial do Tabuleiro. Estavam a mil por hora! 

"Nóis"
Quando chegamos à Conceição do Mato Dentro, ao passar pela rodoviária, encontramos com o restante do grupo que havia vindo de táxi e que não tinha encontrado passagem para BH. Estavam aguardando ou carona; ou alugaria uma van; ou ainda algum ônibus extra. Soube depois que uns vieram para BH de carona e outros embarcaram em um ônibus extra que a Viação Serro disponibilizou. A nossa viagem de volta foi tranquila, porém, pra variar, enfrentamos novo congestionamento na região de Lagoa Santa. Somente por volta de 22h00 desembarquei na região da Pampulha, em BH, cansado, mas de alma lavada! Ao finalizar, deixo meus agradecimentos ao James, Danielle, Lucas, Mateus, Sol Matos, Déia, Luiz, Raissa, Rodolfo, Thiago, Igor, Lee e Choon, companheiros nesta jornada. Obrigado a todos!


Serviço

Normalmente realizada em três dias, a Travessia Lapinha a Tabuleiro inicia no arraial de Lapinha da Serra, no município de Santana do Riacho e estende-se até o arraial do Tabuleiro, município de Conceição do Mato Dentro, cruzando o Espinhaço no sentido Oeste-Leste. Esse formato tradicional em três dias permite-se desfrutar de todos os atrativos do percurso, podendo acessar as partes alta e baixa da Cachoeira do Tabuleiro. Entretanto, e dependendo do ritmo do caminhante, a Travessia poderá ser feita em dois dias; ou mesmo em apenas 1 dia no modo speed.

Há basicamente dois trajetos principais para a realização dessa Travessia: via Picos da Lapinha e do Breu, que é mais difícil; ou contornando os Picos da Lapinha e do Breu, que é mais fácil. Essa classificação fácil ou difícil é relativa, e depende da experiência do caminhante. Em ambos os trajetos, é tradição pernoitar a primeira noite na casa da D. Ana Benta e a segunda noite na casa da D. Maria, que inclusive, em época de menor movimento, servem jantares aos caminhantes. Entretanto, outras variáveis também são possíveis. Se a caminhada iniciar logo cedo, é possível ir direto para a casa da D. Maria, ficando o segundo dia para curtição da parte alta da Cachoeira. O terceiro dia seria dedicado inteiramente à parte baixa.

Dependendo do trajeto escolhido, as atrações podem variar, mas a parte final é sempre passando pela Cachoeira do Tabuleiro. Igualmente pode variar a quilometragem, mas normalmente fica entre 35 e 45 km, dependendo do trajeto escolhido. A vegetação predominante é o cerrado, com colorido intenso; vida animal variada e visual espetacular! Mesmo em época de inverno ou seca é possível encontrar água por toda a rota.

Como toda região de relevo acidentado, normalmente se faz frio no inverno, mas nada exagerado; bem como há a presença de neblina pelas manhãs. Muito embora haja trechos da Travessia com trilhas paralelas e algumas bifurcações, tendo o aventureiro bom conhecimento quanto à orientação/navegação, caminhar pela região torna-se bastante fácil e simples. É sem dúvida uma das mais tradicionais Travessias do Brasil.

Como chegar/voltar - Cidade referência: Belo Horizonte

De ônibus

Ida:
Embarcar na rodoviária de BH em ônibus da Empresa Saritur, descendo no final, em Santana do Riacho. De Santana à Lapinha não há linha regular de ônibus, necessitando então a locação de táxi ou van.

Volta:
Tomar táxi ou van no arraial do Tabuleiro (ou na portaria do Parque Municipal de Ribeirão do Campo) para Conceição do Mato Dentro. Desta, embarcar em ônibus da Viação Serro e descer na rodoviária de BH.

► Para horários e frequências, consulte as empresas Viação Saritur e Viação Serro.

De carro

Ida:
Seguir pela rodovia MG 10 sentido Aeroporto Internacional de Confins, entrando e passando pela cidade de Lagoa Santa, sentido Serra do Cipó. No Distrito da Serra do Cipó entrar à esquerda na rotatória após a ponte estreita, sentido Santana do Riacho; e desta, pegar a estrada de chão batido até o arraial de Lapinha da Serra.

Volta:
Do arraial do Tabuleiro (ou na portaria do Parque Municipal de Ribeirão do Campo) seguir para Conceição do Mato Dentro, via estrada de chão. Desta, pegar a rodovia MG 10, passando pela Serra do Cipó, Lagoa Santa e depois BH.

► Atentar para o fato de que a Travessia em início e final em locais distintos. Portanto, programe sua logística in/out boca da trilha.

Distâncias aproximadas

BH a Santana do Riacho: 120 km
Santana do Riacho a Lapinha: 12 km estrada de chão
Tabuleiro a Conceição do Mato Dentro: 20 km estrada de chão
Conceição do Mato Dentro a BH: 168 km

Considerações finais

► Ao realizar a Travessia Lapinha a Tabuleiro Via Pico do Breu, procure iniciar a caminhada no máximo por volta de 8 da manhã. 

► Não faça a Travessia afiançado nos jantares de D. Ana Benta ou de D. Maria. Seria muito bom jantar nesses locais, mas em trilhas imprevistos podem acontecer! 

► Os pontos de pernoite pela rota são básicos, não oferecendo infra estrutura completa de camping. 

► Se não tem experiência em navegação não faça a Travessia Via Pico do Breu sozinho. É comum a densa neblina no alto da serra; e quando baixa perdem-se todas as referências. 

► Em períodos de chuva, normalmente o acesso à parte alta/baixa do Tabuleiro são fechadas. 

► Leve dinheiro em espécie, pois cartões de crédito/débito são raramente aceitos por lá. 

► É cobrado o acesso à Cachoeira do Tabuleiro. 

► Reserve um tempinho para visitar os arraiais de Lapinha e Tabuleiro. 

► Reserve um bom tempo para visitar a parte alta da Cachoeira do Tabuleiro, se o clima colaborar. Ir ao Tabuleiro e não visitar a parte alta é a mesma coisa que ir a Roma e não ver o Papa!

► Atualização Janeiro 2014: Desde o ano de 2013 o nome do Parque aonde está inserida a Cachoeira do Tabuleiro mudou de nome, passando a se chamar Parque Natural Municipal do Tabuleiro.

► Atualização Janeiro 2015: A Dona Ana Benta faleceu nos fins de 2014. Um parente seu continua residindo na região.


►► Leia também nosso relato da Travessia Lapinha a Tabuleiro pela Rota Norte

►► Confira algumas Dicas Básicas de Segurança para a prática de Atividades Outdoor

►► Pratique a atividade aplicando os Princípios de Mínimo Impacto


Bons ventos a todos!
Última Atualização: Mar 2016

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