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Travessia Petrópolis a Teresópolis em dois dias: surpreendente a cada volta...

Clássica - Foto: Jonatan Oliveira
O Parque Nacional da Serra dos Órgãos Parnaso é um lugar obrigatório para os praticantes de trekking. Sua clássica Travessia ligando Petrópolis a Teresópolis possibilita uma experiência incrível ao oferecer trilha um pouco mais exigente e em troca premiar os trekkers com paisagens espetaculares. Alguns dos acidentes geográficos locais são reconhecidamente ícones do Montanhismo Brasileiro, o que torna a visita ao Parque significativa e marcante!
► Leia também nosso FAQ sobre a Travessia Petrópolis-Teresópolis, clique AQUI

Em fins de julho passado recebi o convite do meu amigo Robson Trilhando para liderar um grupo de trekkers por essa consagrada rota. Rapidamente aceitei o convite, afinal, qual doido dispensaria uma volta à Serra dos Órgãos? A data escolhida fora o feriadão da independência, mas devido à grande disputa por vagas junto ao Parque, tivemos que nos contentar com uma travessia em 2 dias, a realizar em 6 e 7 de setembro. Reservas feitas, restava agora controlar a expectativa e aguardar o momento para a desejada visita...


Resumo da Travessia realizada em 2 dias

O que: Travessia Petrópolis a Teresópolis
Onde: Parque Nacional da Serra dos Órgãos, Estado do Rio de Janeiro.
Quando: dias 6 e 7 de setembro de 2015
Participantes: Alessandra Lima; Ângela C. F. Miranda; Dayana S. Oliveira; Fabio M. Teixeira; Francisco A. Cardoso; Glauciane N. Nogueira; Igor O. A. Pereira; Jonatan T. Oliveira; Joselaine A. R. Filgueiras; Juliana S. Guimarães; Luiz F. F. A. Clarke; Marlon B. Avelar; Robson E. Oliveira; Rogério A. Souza; Rômulo D. Ramos; Rosângela Ramos; Stephanie F. Cunha; Thibault Perrigault.
Pernoite: Castelo do Açu

Distância total: aprox. 24 km (Portaria Petrópolis/Barragem Teresópolis, sem ataque à Pedra do Sino).
Altimetria: 2.310m aclive acumulados | 2.116m declive acumulados
Distância percorrida no primeiro dia: aprox. 8 km
Distância percorrida no segundo dia: aprox. 16 km
Tempo de caminhada no primeiro dia: aprox. 5h50 (incluso tempos de parada)
Tempo de caminhada no segundo dia: aprox. 10h30 (incluso tempos de parada)
Ritmo de caminhada: lento, sem pressa, mesmo no segundo dia.

Condições climáticas: nublado com chuva a qualquer hora no primeiro dia. Discreta abertura na manhã; com chuva e trovoadas a partir da tarde no segundo dia. Presença de vento moderado a forte e neblina em grande parte do percurso nos dois dias. Temperatura agradável, com mínima de 11ºC; máxima de 22ºC

Condições da trilha: de um modo geral bem marcada pelo pisoteio. Sinalizada com totens e chapas de aço nos trechos lajeados. Erodida em alguns pontos. No primeiro dia trilha úmida e sem pontos lisos até o Chapadão. Na sequência encharcada devido à chuva pontual. No segundo dia, trilha úmida até o Morro do Elevador. Barrenta na mata nebular no Vale da Luva. Lisa na subida do Morro da Luva. Após o Morro do Elevador e até o Mergulho presença de barro, lama e enxurrada, em especial pela subida do Dorso da Baleia devido à chuva pontual. Após o Cavalinho, úmida até a Barragem, dentro da normalidade e sem pontos críticos.


Relato da Aventura

► Leia também nosso FAQ sobre a Petrópolis-Teresópolis, clique AQUI
► Leia também o relato de outra nossa visita ao Parnaso, clique AQUI

Aproximada a data da viagem e conferindo a previsão do tempo, alguns diriam que São Pedro fora pouco sensível com os aventureiros do Sul e Sudeste no feriadão da independência de 2015. Eu, porém, discordaria, afinal quem gosta e pratica trekking sabe que sol, chuva, calor, frio, vento, neblina etc são fenômenos a que estamos sujeitos; pois trekking não se pratica dentro de casa. Cabe a nós, simples mortais avaliar os riscos frente a uma empreitada. Assim, analisando as previsões e conhecedor da região, não vi necessidade de cancelamento ou adiamento da aventura. Pelo contrário, seria uma oportunidade imensa de aprendizado e experiência aos participantes!

Embarcamos em BH pouco depois das 22h30 de sábado e por volta de 4h30 da manhã do domingo já nos aproximávamos da Portaria Petrópolis do Parnaso, mesmo após bater um pouco a cabeça pelas mal sinalizadas ruas de Itaipava. Confesso que não sou bom navegador em território urbano; mas mesmo assim conseguimos chegar ao indecoroso acesso da Portaria Petrópolis, apesar da incredulidade do nosso motorista eheh... O acesso à Portaria Petrópolis do Parnaso é um exemplo do descaso das autoridades ao usuário cidadão. Está lá para quem queira e possa ver! Aquilo é pior que muitas estradinhas vicinais do interior do Brasil; pois mal passa uma carroça por ali... E pra piorar o nosso caso, a poucos metros da Portaria havia uma motocicleta estacionada às margens da já apertada estradinha, o que impossibilitou nosso progresso...

Rota realizada e disponibilizada no Wikiloc
Além de possibilitar estudar e visualizar a região, você poderá baixar este tracklog (necessário se cadastrar no Wikiloc); e inclusive utilizá-lo no seu GPS ou smartphone (necessário instalar aplicativo). Recomendamos que utilize esta rota como fonte complementar dos seus estudos. Procure sempre levar consigo croquis, mapas, bússola e outras anotações que possibilitem uma aventura mais segura.
Quanto melhor for o seu planejamento, melhor será o seu aproveitamento.
Powered by Wikiloc


Parados no meio da estrada e ainda no escuro, corri até a portaria do Parque e por ali só se fazia ouvir prosa de insetos! Voltei pouco tempo depois com o motorista e tudo continuava como antes. Ganhamos tempo e retornamos à van. Desembarcamos e ajeitamos nossas tralhas, pois ali seria nosso ponto final, uma vez que a van teria que manobrar em retorno e a motoca continuava no mesmo lugar. Passava das 6h00 da manhã e o tempo estava nublado, com o ruço cobrindo todos os topos de morros dos arredores da fria Petrópolis. Sem delongas caminhamos até a Portaria agora já com ruídos humanos. Fomos recebidos pelo guarda parque, que logo me deu notícias da desistência de grande número de aventureiros em realizar a Travessia frente às condições de tempo naqueles dias. Porém, isto não me desanimou: sob olhar incrédulo do guarda fiz os trâmites burocráticos do grupo e estávamos prontos para a pernada! Um pouco antes da nossa partida, três aventureiros passaram por nós para fazer a Travessia em estilo alpino...

1 Primeiro dia: de Petrópolis ao Açu

Pontualmente às 6h40 da manhã tomamos a trilha que segue pelo Vale do Bonfim em direção à Cachoeira Véu da Noiva de Petrópolis. A trilha tem leve inclinação, segue entre uma matinha e vai margeando o Rio Bonfim. Possui algumas bifurcações que levam a alguns atrativos locais, porém é sinalizada e bem marcada. Há também alguns pontos de água. Seguimos lentamente e logo os mais ágeis foram se distanciando; até que aglutinamos todos na bifurcação que leva à Gruta Presidente/Véu da Noiva. Fizemos uma parada para descanso e não visitamos a Gruta e a Cachoeira, pois esta se encontrava com muito pouco volume de água. Também estávamos todos abastecidos de água. Além disso, pra nós acostumados com as Cachoeiras do Espinhaço a Véu da Noiva de Petrópolis é bastante modesta...

Pedra do Queijo, ponto marcante acima do Vale do Bonfim
Ao reiniciarmos a pernada por volta de 8h00 da manhã, optei em permanecer junto aos que seguiam mais lentamente e liberei os mais ágeis para seguirem mais à frente. A partir da bifurcação da Gruta, a trilha torna-se um subidão em zigue zague por entre uma mata rala e não oferece dificuldades em navegação; o que justificou minha decisão. Seguindo na rabeira, por volta de 8h55 chegamos à Pedra do Queijo, onde fizemos nova parada para aguardar reagrupamento, descanso e contemplação, com visual bastante nebuloso. Nem mesmo o Morro do Alicate acima e à nossa esquerda era possível ser visto! À essa altura, observei que os mais ágeis já viravam o morro bem acima da Pedra do Queijo!

Pé na trilha às 9h00, e pra nós da rabeira, sem pressa e stress. Após a Pedra do Queijo a trilha continua em aclive entre uma capoeira; passa pelo topo do morrote e mergulha em pequeno declive entre vegetação mais alta para novamente começar a subir. Continua bem marcada e sem nenhuma bifurcação que possa gerar confusão. Nesse ponto, alguns do grupo já sentiam bastante a subida e comprovei que nossa progressão seria ainda mais lenta. Fizemos nova parada para descanso e logo após reiniciar a pernada já distanciava consideravelmente... Topamos então com o primeiro grupo de paulistas desistentes da Travessia na subida da Samambaia. Rápida parada para conversas e tocamos pra cima.

Mesmo com a neblina é possível ver caminhantes no Ajaz
Às 10h10 chegamos ao Ajax, que é um lugar onde corre um fio d'água e ponto costumeiro de reabastecimento. O lugar parecia uma festa. Havia por ali umas 40 pessoas que subindo ao Castelo do Açu no dia anterior estavam agora desistindo da realização da Travessia em virtude do tempo fechado. Havia um grande grupo de escoteiros, segundo me informaram. Confirmei com alguns que havia chovido bastante no Açu na noite anterior. Encontrei inclusive com um casal amigo de BH; que juntamente com suas novas amigas de SP me presentearam com algumas guloseimas... Parada para papo, fotos e umas risadas; tempo suficiente para que todos do nosso grupo que estávamos na rabeira nos agrupássemos. Pela informação dos meus amigos de BH, a essa altura os mais ágeis do nosso grupo já venciam a subida da Isabeloca...

Trecho modificado ao final da subida da Isabeloca
Despedimos dos nossos amigos e começamos a subida da Isabeloca às 10h30. É um subidão entre capins, porém com trilha batida e alguns pontos de erosão. Arredores muito bonitos, com muitas flores... Segui incentivando e cobrando empenho dos nossos amigos que sentiam o vigor da subida. Lá pelo meio da Isabeloca o vento forte começou a soprar. Juntamente vieram o frio e um chuvisco congelante; além de uma penca de outros aventureiros desistentes que seguiam em sentido contrário. Alguns nos olhavam com ar de incredulidade... Contei mais de 20! Sem desanimar, passamos pelo trecho final da Isabeloca que sofreu intervenção recente do Parque mudando a rota; minimizando eventuais erosões. Vencemos os últimos metros da Isabeloca e chegamos ao deslocado Mirante Graças a Deus por volta de 11h20. O visual era zero; a chuva fina gelada; o frio e o vento cortantes...

Abrigo do Açu em meio a neblina
Foto: Pixixo
Me esforcei para não perder de vista nenhum de nós que seguíamos na rabeira e adentramos no Chapadão do Açu, um lugar rodeado por capins, vegetação rasteira e alguns lajeados que podem gerar confusão aos menos atentos. Porém, a rota está sinalizada com totens e chapas fixadas nas rochas. Topamos com outros desistentes, inclusive aqueles três aventureiros que pretendiam fazer a Travessia em estilo alpino. Até pensei que a coisa estivesse realmente muito braba, já que até os alpinistas batiam em retirada... Nesse trecho, a pernada tornou-se sofrida devido ao campo aberto que favorecia a ventania e chuva fina. Cuidei apenas em nos manter em movimento para não congelar e assim prosseguimos até o Castelo do Açu. Aproximamos das rochas e sem delongas corremos para a varanda do Abrigo, chegando pouco antes das 12h30. Por lá já estavam todos do nosso grupo que subira na dianteira, há pelo menos 1h00.

Somente nosso grupo se encontrava no Açu naquele momento. A paisagem era desanimadora para alguns, com neblina, vento forte, chuva fina e frio. Mal nós, retardatários, chegamos ao Açu, vieram rumores desejosos em abortar de imediato a Travessia; voltando naquela mesma tarde para Petrópolis. Argumentei na necessidade de nos acalmar, afinal estávamos bem, em um local seguro. Naquele momento, o mais importante era nos aquecer, alimentar e descansar. No outro dia pela manhã definiríamos o que fazer! Entretanto, isto não fora suficiente para derrubar totalmente o desejo de alguns; mas aí, enquanto me afastei para nova investida, excepcionalmente as bravas guerreiras conseguiram pernoite no Abrigo e isto ajudou a acalmar os ânimos de uma vez por todas. Então, nós homens fomos armar acampamento próximo ao Abrigo, na continuação da trilha da Travessia.

Creio que este tenha sido o momento mais difícil de toda a Travessia. Particularmente compreendi a situação de incerteza, afinal não é fácil ficar inerte depois de encontrar com tantos desistentes de uma trilha em um único dia como comprovamos! Pelas informações que obtive, somente uma pessoa havia partido em solitário para a continuação da Travessia naquela manhã de domingo. E o tempo naquela tarde ainda estava realmente complicado, com fortes rajadas de vento, chuviscos e bastante frio. Apesar da preocupação, venceu a serenidade e isto que importou... O restante do dia foi dedicado à socialização e ao sono recuperador. Ainda à tarde, chegaram por lá alguns aventureiros para pernoite e outros que faziam bate e volta; bem como passou pelo acampamento um trekker de Itanhandu (MG) que fazia a rota contrária! Caída a noite veio um jantar comum entre o grupo! Depois, cama. O vento soprou sem piedade naquela noite, atrapalhando o sono de alguns, mas não choveu!


2 Segundo dia: do Açu à Teresópolis

Amanheceu aberto, parecia que o tempo abriria de vez...
O feriado da Independência amanheceu claro, com céu parcialmente nublado. Acordamos antes das 6h00. Desde o Açu o Dedo de Deus, Garrafão e cia apresentavam envolventes. Ao fundo, os Três Picos de Friburgo completava a paisagem marcante do Parnaso... Fiz então as últimas checagens, tomei ciência das condições de alguns e decidimos continuar a Travessia; que naquele dia seria do Açu à Teresópolis, uma caminhada próxima a 16 km. A única exigência que fiz ao grupo era nos manter próximos, pois ao contrário do trecho Petrópolis-Açu, o trecho Açu-Sino poderia gerar alguma dúvida em casos de neblina intensa. Além disso, a transposição de alguns trechos poderia exigir atividade colaborativa; além de estarmos disponíveis a ajudar os parceiros que sentiam o peso da pernada!

Vista desde o Morro do Marco
Após a operação rearranjo que visou deixar leve a mochila de um trekker que sentia um pouco mais o peso da aventura, beirava às 7h30 quando deixamos o Castelo do Açu. A trilha bem marcada parte do ponto de acampamento, segue pela cumeada e desce pelas lages rumo a um pequeno Vale, de onde se pode ter belo visual do início da trilha da travessia lá embaixo, ainda no Vale do Bonfim. Após o Vale, a trilha segue para o topo do Morro do Marco, onde chegamos às 8h00. Visual mágico! Era possível ver discretamente a Baía da Guanabara, com o Corcovado e Pão de Açúcar, além é claro do conjunto de Picos da Serra dos Órgãos! Magnífico! Ao longe no litoral era possível ver a formação de chuva, com alguns raios e trovões... Avisei que abusassem das fotografias...

Vista do Vale e do Morro da Luva
Com trilha marcada, seguimos então descendo o Morro do Marco, indo para o Vale da Luva, cuja trilha bem marcada não deixa margem a dúvidas. O ponto de água no Vale da Luva estava mirrado. Rapidamente começamos a subir o Morro da Luva às 8h20, que é o mais longo desse trecho da travessia. A trilha inicialmente segue por entre uma pequena matinha nebular e por isso é bastante úmida e lisa. Às 8h50 chegamos ao topo da Luva, que na verdade localiza-se alguns metros abaixo do verdadeiro cume. Ao pararmos para rápido descanso e aglutinação, observei que um dos trekkers tinha dificuldades em manter o ritmo necessário para aquele dia, apesar da ajuda e incentivo próximo dos amigos. Retornei curto trecho da subida, o encontrei e terminei a subida da Luva levando sua cargueira. No topo, fizemos novo rearranjo entre os amigos e o deixamos leve. Pedi que o mantivesse próximo a mim. Nesse ponto, percebi que o ambiente de chuva era iminente, pois as nuvens de chuva se deslocavam rumo ao continente; e apesar da presença do vento não fazia frio!

O temido Elevador: é um gatinho
Iniciamos a descida do Morro da Luva às 9h25 e nosso próximo destino seria o Elevador. Inicialmente a trilha segue em declive moderado, fazendo uma curva sentido anti-horário, chegando até algumas lajes no fundo do Vale. Nesse ponto há um guarda corpo de cabos de aço e logo adiante a ponte de madeira sobre a fenda do Elevador, construção que não existia tempos atrás. Em ritmo non stop subimos o Elevador, que consiste em degraus de ferro fixado na rocha. Com louvor, às 10h00 vencemos o trecho e chegamos ao Morro do Elevador, onde fizemos uma parada para descanso e lanche. Percebendo a chegada da chuva, pois passou uma discreta onda de calor, rapidamente convidei que continuássemos a caminhada!

Foto captada no Mirante da Luva
Enquanto observava a progressão dos amigos, analisa o tempo:
a chuva estava próxima. Foto: Pixixo
Reiniciada a caminhada às 10h15, a trilha segue em leve e curto aclive para a esquerda contornando o morrote; para rapidamente descer um grande lajeado. Nesse ponto começaram a cair 'pingões' de chuva. Mal deu tempo de colocar as capas e a chuva chegou rápido, na virada para o lajeado. Incentivei que descêssemos rapidamente, antes que as lajes ficassem menos aderentes; do contrário teria que fixar uma corda em uma chapeleta existente por ali. Apesar das dificuldades, vencemos o trecho com rapidez; apenas com alguns rasgos nas calças de quem desceu esfolando o traseiro eheh... Agrupados, percorríamos agora um trecho em que a trilha fica um pouco mais discreta, intercalando alguns lajeados, mas sem grande inclinação, área do Morro do Dinossauro. A chuva e a neblina chegaram com força, com sequenciais rajadas de vento. Contornamos o Dinossauro e descemos em direção ao Vale das Antas, aonde chegamos às 11h00.

Rápida parada para alguns se reabastecerem de água em um ponto mais acima do Soberbo. A cada parada o frio aumentava; por isso enquanto retornavam tentamos abrigo sob os bambus do lugar. Reagrupados e através de trilha bem marcada fomos subindo em direção ao Dorso da Baleia. A trilha estava barro puro e caminhávamos contra a enxurrada. Para piorar, raios e trovões riscavam o céu. Felizmente o trecho se desenvolve entre capoeiras e isto aplacava um pouco a força do vento. Mas quando passamos pela Pedra da Baleia, que é desabrigada, quase fomos jogados piramba abaixo tamanha a força das rajadas de vento... Fomos seguindo em fila indiana, e sem paradas viramos o morrote, iniciando a descida rumo ao Mergulho, que é uma grota que antecede a Pedra do Sino. Nesse momento uma imagem maravilhosa formava no conjunto Sino e Garrafão: cascatas desciam violentamente das rochas formando cachoeiras gigantes! Uma imagem que jamais esquecerei; mas que infelizmente devido à chuva não fotografei...

Fotomontagem de 2013, que mostra a área do Mergulho.
Dessa vez, devido ao aguaceiro não fiz imagem do lugar
Chegado ao Mergulho às 11h45; sob chuva, vento, frio e rajadas de vento tirei a cargueira e instalei a corda para a descida do degrau. Apesar de não ser obrigatória, julguei ser prudente colocar cordas pois as rochas estavam literalmente ensopadas. Recomendei a todos que tirassem as cargueiras (que os mais fortes nem deram ouvido eheheh) e um a um todos desceram o Mergulho com louvor. Depois descemos as cargueiras. A ajuda da Joselaine, Roger e Robson foram fundamentais neste ponto! Antes mesmo de terminar a descida das cargueiras e para não congelar frente à friaca, parte do grupo já foi se dirigindo à canaleta da Pedra do Sino. Neste trecho a trilha é íngreme e com vários degraus em raízes. Terminada a operação no Mergulho, pé na trilha e alcançamos os dianteiros já no Cavalinho. A essa altura a chuva deu uma trégua e a neblina um descanso...

Cavalinho - Foto: Robson Oliveira
Ao chegar no Cavalinho pouco antes das 13h00, nosso amigo Thibault, francês acostumado às montanhas do Velho Continente já havia passado pelo obstáculo. Cheguei, subi, instalei a corda para içar cargueiras e um a um todos foram passando de primeira pelo obstáculo, a despeito da rocha molhada e do precipício à esquerda! A ajuda do Jonatan, Roger e Fábio foram fundamentais! Show!!! Já quando os últimos passavam pelo Cavalinho, uma espessa neblina aproximava do lugar, um espetáculo grandioso e belo por aquele vale r... Ao retornar a subida, quase todos estavam na luta para subir um degrau existente logo após o Cavalinho. Nesse ponto sobe-se por apoio e força e não há ponto para instalação de cordas. Novamente Roger deu uma força e praticamente ajudou a todos com louvor!!!

Aglomerados no Abrigo 4
Foto: Robson Oliveira
Na sequência da canaleta há um grande degrau onde há uma escada de ferro que todos passaram sem problemas. Logo a seguir passamos pela bifurcação que leva ao topo da Pedra do Sino, onde nem cogitei o ataque devido às condições do tempo. Percorremos curto trecho em declive e contente por ter vencido o trecho mais difícil do dia, em fila indiana e já vendo o Abrigo 4 logo abaixo nem me dei conta que passei pela bifurcação que leva ao bendito... Retornamos alguns metros e rapidamente vencemos as últimas curvas da trilha, chegando ao Abrigo 4 pouco antes das 14h30. Me identifiquei aos guardas e fizemos uma parada para lanche e afins. Ao me identificar logo indagaram se não havíamos visto uma pessoa pela rota, a mesma que no dia anterior soube que partira do Açu rumo ao Sino enquanto todos desistiam da Travessia. Não, não vimos nem sinal! Permanecemos pouco tempo nos arredores do Abrigo 4, pois ainda tínhamos quase 10 km de trilhas pela frente...

Enquanto descansávamos a chuva fina retornou. Reiniciamos então a pernada próximo às 14h55 e em grupos tocamos para baixo. Do Abrigo do Sino (Abrigo 4) até a Barragem de Teresópolis a trilha é muito boa, larga e sempre em declive, formando um longo zigue-zague. Desenvolve quase totalmente entre mata atlântica, com raras janelas pros lados de Teresópolis e para os Três Picos de Friburgo. Não existe possibilidade de erros. Descemos de modo tranquilo, sem correrias. Pelo trajeto há a conhecida Cachoeira Véu da Noiva de Teresópolis, onde passamos non stop. Nas circunstâncias de clima e cansaço, até que desenvolvemos um bom ritmo e beirando às 18h00 chegamos à Barragem, onde já nos aguardava nosso resgate.

Foi o tempo para colocarmos roupa seca, ajeitar as cargueiras na van, embarcar e deixar o Parque percorrendo os 3 km que separam a Barragem da Portaria Teresópolis. Ao passarmos pela portaria e dar baixa na saída, novamente fomos indagados sobre o aventureiro solitário... Já na cidade de Teresópolis, paramos na avenida principal para um lanche. Saciados, tocamos direto sentido BH, via Itaipava. Fizemos nova parada para esticar as pernas no Posto Triunfo em Juiz de Fora. Depois, novamente na estrada até BH, aonde chegamos à 02h30 da madrugada; pra variar sob chuva fraca e alguns trovões...

Registro os meus agradecimentos pela companhia e paciência de todos que participaram dessa trip. Concluímos a rota com êxito, dentro do tempo previsto e sem nenhuma anormalidade. Na verdade fomos o único grupo maior a concluir a Travessia Petrópolis a Teresópolis no feriado da independência 2015. Isto se deveu ao empenho de todos! Certamente ao vencermos mais esta etapa saímos mais experientes e engajados no trekking; afinal sob as condições climáticas que realizamos a pernada, a Travessia tornou-se muito mais exigente. Todos estão de parabéns. Até uma próxima!


Serviço

► Para outras informações sobre o Parque Nacional da Serra dos Órgãos visite o site do Parque

► Leia também nosso FAQ sobre a Travessia Petrópolis-Teresópolis, clique AQUI

► Confira também outros detalhes em outro relato de uma das várias visitas ao Parque. Clique AQUI


Bons ventos a todos!


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