quinta-feira, 23 de junho de 2016

Chapada das Perdizes: Minduri a Carrancas

Observando a Chapada do Abanador desde o Mirante do Sol
Foto: Sol Mattos
Encravada entre os municípios de Minduri e Carrancas, a Chapada das Perdizes é um daqueles recantos surpreendentes do Sul de Minas Gerais. Apresenta características de mata atlântica em suas encostas e campos de altitude e rupestres em seus topos, demonstrando que já se enquadra em uma área de transição. Grandes e suaves são as suas campinas, que em platô elevado permitem visualizar amplas áreas dos arredores, destacando ao sul as montanhas da Mantiqueira; à leste e norte as serras baixas de Carrancas e à nordeste a Serra de São José. À oeste, um vasto mar de morros em nível inferior, fato que possibilita a Chapada das Perdizes guardar um dos mais belos nascer do sol de todo o Sul do Estado. Todo esse panorama faz das Perdizes um lugar propício à caminhadas, mas curiosamente pouco conhecida daquele mar de gente que invade apenas as cachoeiras de Carrancas escondidas nas suas encostas à leste, muitas vezes esquecendo que lá em cima existe um mundo marcadamente espetacular...

Embarcamos em BH à 1h00 da manhã do dia 14 de maio, um sábado. Passamos por São João Del Rei onde tivemos uns perdidos urbanos em busca da saída para São Vicente; para mais adiante outro perdido, quando chegamos até São Sebastião da Vitória... Mas pouco antes das 7h00 da manhã chegamos sãos e salvos em Minduri, porta de entrada para a Chapada das Perdizes. Fizemos um pit stop em uma padaria local para um café reforçado naquela manhã de céu parcialmente nublado; porém ausente de frio. Barrigas cheias, às 7h30 reembarcamos e seguimos pelo trecho urbano de Minduri sentido Cruzília, para logo adiante ainda na cidade em uma curva fechada tomarmos a saída direita que leva à estrada de terra para Carrancas. Seguimos pela estradinha de terra por uns 300 metros e entramos à direita na bifurcação, cruzando a linha de trem logo a seguir. A estradinha em boas condições segue serpenteando o vale sentido norte e vai ganhando altura aos poucos. Nos mantivemos naquela mais batida, ignorando bifurcações e saídas secundárias, rota certeira!


Rota realizada e disponibilizada no Wikiloc
Além de possibilitar estudar e visualizar a região, você poderá baixar este tracklog (necessário se cadastrar no Wikiloc); e inclusive utilizá-lo no seu GPS ou smartphone (necessário instalar aplicativo). Recomendamos que utilize esta rota como fonte complementar dos seus estudos. Procure sempre levar consigo croquis, mapas, bússola e outras anotações que possibilitem uma aventura mais segura.
Quanto melhor for o seu planejamento, melhor será o seu aproveitamento.
Recomendável que leia este relato para melhor compreender esta rota.
Pratique a atividade aplicando os Princípios de Mínimo Impacto

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Às 7h45 passamos pela antiga Fazenda da Prata e a subida se acentuou, possibilitando um belo visual do trecho percorrido e das encostas sul da Chapada das Perdizes. Fizemos o contorno do Morro das Antenas pelo sul e mais 10 minutos chegamos até um sítio com um curral à nossa direita, onde demos por satisfeitos com o transporte motorizado. Desembarcamos, ajeitamos as cargueiras e às 8h10 iniciamos nossa caminhada, ainda pela mesma estradinha. Em declive, chegamos até a bifurcação do Recanto do Vornei às 8h20. Poderíamos ter descido de carro até esse ponto, mas como se trata de uma descida pensei que a estradinha estivesse em pior condições. Mas constatei que estava equivocado; sorte que o trecho é curto...

Cachoeira do Vornei, no Recanto do Vornei
Em busca de um caminho mais interessante que a empoeirada e batida estradinha que leva à Chapada das Perdizes; entramos à direita, cruzamos uma ponte e uma porteira e adentramos nas terras do Vornei; com sua casa logo adiante, à esquerda do caminho. Fizemos uma paradinha para fotos na Cachoeira do Vornei, distante uns 50 metros à esquerda da casa, em um afluente do Ribeirão da Prata. Queda bonita, mas sem poço, irrigada por uma água geladíssima naquela ocasião!

Sem delongas, prosseguimos por uma estradinha interna do sítio, em nível e à margem esquerda do Ribeirão da Prata, que vai formando alguns poços convidativos, mas àquela hora nem pensar... Às 8h30 chegamos ao curral do Vornei, repleto de belas vacas que estavam sendo ordenhadas! Aproximei do curral para solicitar autorização para cruzar as terras, quando senti o cheiro característico de leite quente que inundava o lugar; o mesmo que senti alguns bons anos atrás...

Capelinha - Foto: José Mendes
Autorização concedida tocamos pasto acima no sentido norte por um discreto sinal de velha estradinha, ora invadida pelo capim baixo. Cruzamos uma tronqueira e fizemos um S invertido, em suave aclive e permeando uma capoeirinha rala e característica de campo rupestre. Mais acima, deixamos a estradinha em favor de uma discreta trilha-atalho pela capoeirinha. Trecho gostoso, cruzamos uma velha tronqueira e rapidamente desembocamos novamente na estradinha às 9h00, poucos metros acima de um sítio de um parente do Vornei, onde há uma capelinha. Descemos alguns metros pela estradinha, cruzamos nova tronqueira e seguimos até à Capelinha voltada para o Sul. Pose para fotos e tratamos de seguir a caminhada.

Quedas da Cachoeira da Alegria
Em nível seguimos pelo pasto de braquiária ao norte da Capelinha, tendo à nossa esquerda em meio à mata ciliar o ruído de um córrego. Em minutos chegamos então à Cachoeira da Alegria, às 9h10. Esta cachoeira é muito bonita, com várias pequenas quedas pelas lajes, formando pequenos e rasos poços. Enfim, tudo perfeito para uma hora de sol quente. Mas naquela manhã, o tempo estava meio enrolado, bom pra caminhar, mas ruim pra banho de cachoeira. Então, fizemos uma parada para fotos, descanso e uma boquinha, nada de banhar naquelas águas geladas...

Bem ao fundo é possível ver as corcovas do Pico do Papagaio
Às 9h30 prosseguimos na caminhada agora em aclive mais acentuado, por sinais da estradinha vicinal e deteriorada. Pulando por uma pequena pedra passamos pelo leito do córrego da Alegria logo acima da queda. Seguimos pela estradinha praticamente em nível no sentido oeste quando chegamos a uma bifurcação às 9h40. Tomamos a velha estradinha da direita, em aclive por entre uma capoeirinha e seguimos no serpenteio morro acima, com a vegetação logo migrando para pasto aberto. À seguir, adentramos em uma matinha ciliar, onde corre águas iniciais da Alegria. Aproveitamos para nos reabastecer, pois aquela seria a última água da subida da serra. Sempre em aclive, saímos da mata ciliar e continuamos o serpenteio, agora em campo aberto. O visual do Pico do Papagaio ao sul nos chamou a atenção: inconfundível e marcante com suas corcovas...

A estradinha praticamente desaparece em meio ao pasto e se nivela. Ignoramos uma saída à direita e pouco acima cruzamos uma tronqueira. Seguimos margeando a matinha ciliar, que se mantém à nossa esquerda e no vale da encosta abaixo. Curiosamente dois ciclistas passaram por nós, esforçando em se manter na bike morro acima... A vegetação vai mudando para aquela de terreno mais seco, arenoso e pedregoso; por isso a estradinha reaparece mais forte e erodida. Na sequência, às 10h40 interceptamos a estrada normal, batida e empoeirada que segue para o alto da Chapada das Perdizes. Apesar do sol estar parcialmente escondido por nuvens, o ar abafado juntamente com o suor da subida havia nos cansado. Aproveitamos então para descansar e beliscar alguma coisa, quando nos espalhamos nos arredores, doidos por uma sombra, que naquela altura era raridade...

A velha placa rabiscada da Chapada das Perdizes
Às 11h00 retomamos a caminhada agora por estrada batida, com sinais recentes de patrolamento. Passou por nós um casal montados numa motoca 2 tempos, ecoando um barulhão naquelas serras... Como nosso atalho fora um sucesso, bastou curta caminhada e às 11h10 chegamos à placa que anuncia a entrada solene na Chapada das Perdizes. Parada para fotos, afinal as campinas da Chapada começava a nos dar as caras ao norte. Lá embaixo, ao sul, um mar de morros, tudo muito bonito...

Broas. Ao fundo Serra de Carrancas
Em torno de 11h15 tocamos pela estradinha ignorando uma saída à oeste. Em suave declive chegamos até uma velha porteira de tábuas, repleta de musgos. Cruzamos à porteira e em curto e leve aclive chegamos até uma bifurcação na estradinha. Deixamos nossas cargueiras por ali e seguimos à oeste pela estradinha, indo em direção ao Mirante da Serra das Broas. Às 11h30 já estávamos no Mirante, onde as duas Broas se apresentam desavergonhadas... Visual amplo e muito bonito, inclusive para os lados de Carrancas, além é claro para os lados da Cachoeira do Rapel e de terras mais à noroeste que percorreríamos no dia seguinte. Destoando da paisagem natural daquela vastidão de campinas algumas manchas de plantação de eucaliptos, infelizmente uma praga forasteira e necessária dos tempos atuais...

Depois de curtir o Mirante retornamos às nossas mochilas pelo mesmo curto trajeto do desvio e às 11h55 já caminhávamos pela estradinha que percorre a cumeada da Chapada das Perdizes no sentido leste. O campo aberto e a visão para o sul dominam nossos olhares, fazendo com que a caminhada pela estradinha não torne cansativa. Ao norte, uma matinha vai margeando a estradinha, ora mais próxima, ora mais afastada. Aliás, cabe um explicação: os topos da Chapada das Perdizes e serras nos arredores são recortados por estradinhas vicinais, que são utilizadas por moradores ou aventureiros, em especial 4x4 ou moto-trilheiros. Por isso, é praticamente impossível circular pelos topos da Chapada sem fazer uso das estradinhas! Assim, às 12h15 paramos em um belo mirante sul para Minduri. Tempo pra contemplação, fotos e novo descanso...

Ponto de Decolagem
Logo retomamos a caminhada, chegando em minutos à bifurcação da estradinha que leva para Carrancas. Nos mantivemos no sentido leste, tendendo para nordeste e nos afastando da extremidade da pirambeira da Chapada. Passamos defronte a um ponto de decolagem de asa delta à nossa direita e tocamos direto, em nível, tendo à nossa direita um veio de mato rodeado por campos se prolongando no sentido sul, e à nossa esquerda um outro avanço de campo no sentido norte, rodeado ao fundo também por matas. À nordeste, já avistávamos um curral com algum gado nos arredores. Antes do curral, chegamos a uma outra bifurcação às 12h40. Trata-se da saída para o antigo Camping da Lua.

A mesa de pedra em frente à casinha no velho Camping da Lua
Fizemos uma parada e tratamos de ir até o antigo e desativado lugar à procura de água, pois como estive por ali anos atrás sabia da existência do precioso líquido na matinha à oeste do camping; o mesmo veio de mato que observamos desde o Ponto de Decolagem de asa delta. Fomos apenas alguns de nós à essa busca, comprometendo-nos a avisar os ficantes acerca do encontrado. A passos rápidos, em minutos chegamos à casinha velha do Camping da Lua, onde ainda está de pé a caixa d'água e os antigos banhos de madeira e lona. Defronte a casa com vista privilegiada para o sul uma baita mesa de pedra nos convidava ao ócio e papo furado... Porém, tocamos direto em suave declive rumo à matinha, onde encontramos água em boa quantidade. Retornei até a casinha e avisei aos demais. Feliz porque com água poderíamos passar a noite no Mirante do Sol fui coletar água e observar a quedinha que despenca na pirambeira logo abaixo. Singela, porém bonita! Abastecidos, logo retornamos à estradinha principal aonde ficara nossas mochilas, lá chegando às 13h15.

Região da armada de barracas no Mirante do Sol
Espera para aglutinação e cargueiras nas costas, seguimos em grupos pela estradinha e metros adiante tomamos a saída à direita pela estradinha secundária, tendo o curral anteriormente avistado à nossa esquerda. Seguíamos agora para o Mirante do Sol, então já visível e onde pretendíamos passar a noite. Em suave aclive às 13h40 chegamos às primeiras formações rochosas, um lugar amplo e abrigado, praticamente plano. Aqueles da dianteira já preparavam para armar acampamento, mas os convidei a irmos para um ponto mais oridental do Mirante, menos aberto, plano, abrigado por rochas e algumas árvores, lugar perfeito para passar a noite. Sem pressa, foi por ali que armamos o acampamento...

Formações no Mirante do Sol
O restante da tarde foi dedicada ao ócio e exploração do lugar. O Mirante do Sol é realmente um lugar bonito, curiosíssimo e que desperta a imaginação. Rodeado por rochas cujas formações nos remetem à imagens diversas. Além disso, permitem estar sobre elas em vários pontos, de onde despontam as pirambas das encostas da Chapada das Perdizes. À nordeste, impossível não se admirar a Chapada do Abanador, a irmã menor da Chapada das Perdizes, que guarda as mesmas características. A lamentar a infelicidade da Chapada do Abanador não estar aberta à visitação, pois é uma área particular. Para pessoas do bem como nós isto é péssimo, pois a única coisa que queremos de um lugar é o seu visual, nada mais que isto...

Vista de Minduri desde o Mirante do Sol
Permanecemos por ali, explorando o lugar que transmitia uma paz incrível, quebrada apenas pela visita de alguns turistas e um casal em motocicleta barulhenta. O tempo parcialmente nublado e com o esfriar da tarde, somente a Karina e o Tiago tiveram coragem de voltar lá no antigo Camping da Lua para se banhar. Nós outros preferimos continuar por ali, esparramados nas pedras, inclusive "espantando" o casal que chegara de motocicleta. Depois voltamos às barracas, quando nossos amigos chegaram do banho, contando que também espantaram o mesmo casal lá na Lua... Tadinhos!!! Depois fomos curtir o por do sol, que foi lindo de viver. A noite caía e voltamos às barracas! Eu tive uma cólica abdominal fenomenal, que me obrigou a tomar um analgésico cavalar e adormecer por volta das 18h00... Acordei somente depois das 21h00, quando todo mundo já estavam no conforto das barracas; com o silêncio invadindo o lugar...


Ao contrário da manhã, o final do sábado teve um belo por do sol
2 Acordei cedo naquela manhã de domingo. Antes do total clarear do dia botei a cabeça fora da barraca e com a luz da lanterna só vi o brilhar de uma espessa neblina... Aguardávamos ansiosos o nascer do sol, afinal estávamos ali no Mirante do Sol para isto! Sabedor de que naquelas condições isto seria impossível, voltei a me ajeitar no saco de dormir... Com isto, passava das 7h00 quando saí da barraca! A maioria dos amigos já estavam de pé, nos seus afazeres de caminhantes! A densa neblina permanecia, e a gozação foi intensa, pois havia feito uma propaganda danada do nascer do sol daquele ponto! Paciência, estamos sujeitos a falhas eheheh... O jeito foi tomar o café, desarmar acampamento e bater em retirada às 8h45 daquela fria manhã; objetivando a Cachoeira da Onça, que seria nosso atrativo principal já bem próxima ao final da nossa prevista Travessia.

Foto do dia anterior desde o Mirante do Sol que mostra o caminho que
percorreríamos naquela manhã nebulosa. À esquerda são as formações
rochosas onde há áreas para acampamento. Ao fundo Serra de Carrancas
Voltamos em direção a curral margeado no dia anterior e entramos alguns metros antes, tomando a saída à nossa direita. Seguimos pela estradinha em nível e sem ver nada nos arredores devido à neblina. Às 9h05 aproximamos de novas formações rochosas, quando tomamos novamente a estradinha da direita, pois a saída da esquerda leva apenas ao interior das rochas. Este é um lugar interessantíssimo, com boas áreas para acampamento e visual incrível. Mas não tivemos essa sorte naquela manhã.

Casinha próxima à entrada para a Chapada do Abanador
Assim, seguimos direto, passamos rentes a um bom gramado para acampamento e tocamos pela estradinha que, ao começar a descer se acaba!!! Prosseguimos então por uma trilha discreta que parte do prolongamento da estradinha e segue no sentido leste, margeando e adentrando as formações rochosas, como se fôssemos para a Chapada do Abanador no outro lado do íngreme e apertado vale de mata. Aproximando do vale, a trilha dá uma guinada no sentido oeste, interceptando logo à frente a estrada que segue para a Chapada do Abanador. Tomamos à esquerda, apressamos o passo e cruzamos a porteira da propriedade às 9h20. Fora das terras da Abanador, seguimos calmamente por alguns metros pela estradinha até uma bifurcação, quando tomamos a saída da direita; pois a da esquerda margeia a base do paredão e segue para Carrancas. Chegamos então em uma bonita casinha, aparentemente fechada e sem visita contínua. Porém, observamos pelas vidraças que o interior da casinha permanece extremamente organizado; ao contrário do seu quintal, que está coberto pelo mato. Tudo parece deixar à mostra o zelo que um dia parece ter existido por ali. Fizemos uma boa parada para descanso e registros!

Nós, os usuários da Servidão Moderna
Passava das 9h35 quando voltamos a caminhar pela velha estradinha que corta a propriedade da casinha, rodeada por alguns eucaliptos; para logo à frente cruzarmos uma porteira. Entrávamos agora em terras da Fazenda Serra Nova, como informava uma placa instalada à direita da porteira. Com o dissipar parcial da neblina foi possível observar o paredão à leste que acabávamos de ultrapassar; bem como as famosas Broas e a Serra do Moleque, à sudoeste. Para o norte a Serra das Bicas. Uma beleza singular de campinas, rodeadas a plano inferior por fazendas e mais fazendas... Segundo a Carta Topográfica do IBGE passaríamos agora a percorrer a Serra das Broas!

Vista para as Broas e Serra do Moleque desde a Serra das Broas (IBGE)
Seguimos em suave aclive pelos restos de uma apagada estradinha. Chegamos ao topo da campina e passamos a percorrer suave declive, passando por uma mancha de capoeira, última sombra antes da Cachoeira da Onça. Ainda em declive, fizemos uma curva para o leste fugindo de uma descida íngreme que encontraríamos caso seguíssemos reto à noroeste. Logo após a curva deixamos a estradinha às 10h10; passando a percorrer um trecho por campos, sem trilha definida e em declive mais acentuado. Vencido o curto declive, continuamos a caminhada em nível. Mantendo o sentido predominantemente noroeste cruzamos a apagada estradinha da Trilha dos Lobos. Ainda sem trilha batida pelo campo baixo, seguimos por um aclive suave até o alto de um morrote. O tempo parcialmente nublado àquela altura foi um prêmio, porque por ali, no alto do morrote e por todo o trecho que ainda iríamos percorrer não havia nenhuma sombra, nem pra remédio...

Totem para recordação... (Foto: Sol Mattos)
Puxando a dianteira, dizem que passei por cima de uma serpente que sumiu em meio ao capim alto... Eu não vi, mas a gritaria assustada daqueles quem estavam no meu encalço foi graúda hahahaha... Muitas risadas e pouco adiante começamos a identificar os sinais de uma velha trilha existente pela cumeada da pequena Serra, que outrora fora marcada. Cruzamos uma porteira de ferro no meio do campo às 10h35 e seguimos em suave aclive, despontando no alto do morrote. O visual é uma belezura, amplo e agradável, já sendo possível observar ao final da branda crista que percorreríamos a região das cachoeiras do Complexo da Zilda. Começamos nova descida suave pelos restos da velha e quase imperceptível trilha; para logo a seguir ascender novo morrote. No meio do nada fizemos uma parada para aglutinação e lanche; ponto onde deixei um totem para recordação!

Caminhando para o final: cumeada suave e em campo aberto.
A Cachoeira da Onça fica no fundo do vale,
no veio de mato no encontro desses morrotes.
Ao fundo, Serra de Carrancas com o vale que o antecede
Às 11h10 retomamos a caminhada, galgando o morrote, com a região do Complexo da Zilda cada vez mais próximo. Pelos restos da apagada trilha vou prestando atenção para não passar por cima de outra serpente, bem como tentando seguir o apagado trilho existente na ampla cumeada. Para recordação, deixo outro totem marcador na descida. Mais adiante, a trilha se estabiliza e vemos o final da caminhada cada vez mais próximo. Acompanhando a crista do morrote, vamos tendendo para o oeste e em leve declive. Às 11h35 aproximamos do final do morrote, região com formações arbustivas e muitas árvores naturalmente mortas. Demos uma guinada para o sul e logo abaixo identificamos uma trilha marcada, que me parece, vem dos lados de um sítio existente no interior das campinas ao sul.

Cachoeira da Onça no Capivari vista da trilha da chegada
Seguimos pela trilha já com o ruído de cachoeira invadindo nossos ouvidos. Às 11h40 deixamos a trilha e entramos à esquerda pela saída que leva até a Cachoeira da Onça, nosso grande objetivo naquele dia. Pela trilha batida, logo avistamos uma das quedas no Rio Capivari; e descendo mais um pouco, às 11h45 chegamos até o degrau de acesso ao Córrego da Chapada que forma outra queda no complexo. Por ali deixamos nossas tralhas e de modo leve descemos o barranco, cruzamos o riacho pelas pedras e às 11h45 colocávamos os pés na Cachoeira da Onça...

A queda no Ribeirão da Chapada
A Cachoeira da Onça é incrível. Não é somente uma queda; trata-se de um complexo formado justamente no ponto de encontro do Córrego da Chapada com o Rio Capivari. A queda volumosa e poço principal estão no Rio Capivari. Água límpida e cristalina. Acima da queda há outro incrível poço, que não visitamos; bem como vários outros no trecho abaixo da queda principal. Desaguando no mesmo ponto chegam as águas do Córrego da Chapada, que forma uma bonita queda, em menor volume que a do Capivari, porém muito mais bonita devido ao seu formato acortinado! Sim, a Cachoeira da Onça é um lugar para se ficar horas e horas a desfrutar... E foi o que procuramos fazer, apesar do sol tímido e da água gelada. Com isso, às 13h30 começamos a deixar o lugar...

Queda da Onça no Rio Capivari
Pelo mesmo acesso da ida interceptamos novamente a trilha batida que desce a Serra das Broas. Em declive fomos dirigindo para o leito do Rio Capivari, que cruzamos pulando pedras às 13h50. Já na margem esquerda do rio seguimos em aclive entre formações arbustivas, porém com trilha batida. às 14h00 tomamos uma saída à direita, mais discreta que a da esquerda, porém é uma opção para quem deseja caminhar menos por estradinha. Seguimos rodeados por vegetação típica do cerrado, ouvindo ao fundo o som das águas do Capivari que desce para a Racha da Zilda.

Quedas do Complexo da Onça
Às 14h05 passamos pela discreta saída que leva diretamente à Racha, para 3 minutos depois desembocarmos na estradinha que vem da Chapada das Perdizes. Em declive fizemos uma curva para o norte, passamos pela discreta saída-atalho que leva ao Escorregador da Zilda. Pouco à frente igualmente por um posto de controle de acesso à Racha e às 14h20 desembocamos no largo e amplo baixio do Complexo da Zilda, ponto de estacionamento, lanchonetes e controle de acesso aos atrativos locais. Tocamos direto para o Restaurante Dois Irmãos, lá chegando às 14h25, dando por encerrada a nossa Travessia.

Igreja Matriz de Carrancas
Tempo para ajeitar as tralhas, trocar de roupa e almoço tardio, modos que nem cogitamos visitar outros atrativos na região, que são todos muito próximos. Tempo havia com sobra, mas estávamos satisfeitos com a empreitada que havíamos cumprido. O Complexo da Zilda é muito bonito, e por isso merece uma visita exclusiva e com calma. Logo nosso resgate chegou, bem como terminamos o almoço. Pontualmente às 16h00 embarcamos e rumamos para Carrancas, aonde chegamos às 16h30. Parada para registros na Praça Central e depois non stop para BH, aonde chegamos em torno de 20h30. Cansados não estávamos, mas felizes demais; porque essa pernadinha foi pra lá de gostosa e divertida. Foi muito bom estar na região sobretudo pela companhia dos novos e velhos amigos!


Serviço

Pelas campinas das Broas
Foto: José Mendes
A Chapada das Perdizes localiza-se no município de Minduri, pequena cidade do Sul de Minas Gerais. Trata-se de uma pequena Serra que prolonga-se no sentido leste-oeste, com altitude máxima em torno de 1580 metros no Mirante do Sol. Sua encosta sul é coberta por vegetação de mata atlântica, berço de várias nascentes e algumas cachoeiras. Seu topo é amplo e baixio, por isso o nome Chapada. É coberto por vegetação de campos de altitude e de campos rupestres em alguns pontos. Como prolongamento da Chapada, ao norte destaca-se a Serra das Bicas e a Serra das Broas; e à oeste a Serra do Moleque. Para o lado sul um mar de morros até a região da Mantiqueira. Já a conhecida Chapada do Abanador é um pequeno prolongamento oeste das Perdizes; marcada pelas mesmas características. Abriga grande diversidade vegetal e animal. Um dos seus diferenciais é o visual desimpedido desde o seu topo para todas as direções.

Em área de influência da Chapada das Perdizes e das Serras nos arredores estão parte das famosas cachoeiras de Carrancas, conhecidas como Complexo da Zilda, localizadas na porção noroeste, próximas ao encontro das Serras do Moleque e das Broas (IBGE); originadas pelas águas do Rio Capivari e seus afluentes. Este complexo é intensamente visitado e realmente possui cachoeiras muito bonitas.

Nós, na Praça de Carrancas, voltando pra BH.
Falta o Ireno, que tirou a foto rsrs
Em relação à Travessia, a rota é simples e não apresenta nenhuma dificuldade técnica ou de navegação, salvo em condições adversas. A parte inicial trata-se de uma subida moderada, percorrida no leito de uma antiga estradinha, que ora encontra-se tomada pelo pasto. Já a rota localizada no alto da Chapada é composta por estradinhas que ligam sítios e pontos locais. Já a parte final é desenvolvida pela ampla cumeada das Broas, com caminhada por campos e por sinais de uma antiga trilha, que ora encontra-se quase totalmente apagada. Tanto o acesso de Minduri ao Recanto do Vornei; quanto o trecho do Complexo da Zilda até Carrancas é feito por estrada vicinal em bom estado, sendo possível de ser percorrida por qualquer tipo de automóvel, exceto em época de chuva intensa.

Distâncias aproximadas

Belo Horizonte a Minduri: 290 km
Minduri ao Recanto do Vornei: 8 km (estrada de terra)
Complexo da Zilda a Carrancas: 12 km (estrada de terra)
Carrancas a Belo Horizonte: 285 km

Como chegar e voltar - cidade referência: Belo Horizonte

De ônibus

Ida
Viação Sandra até São João Del Rei → Viação Sandra até Minduri
De Minduri para o Recanto do Vornei não há linha de ônibus. Alugar táxi ou ir à pé.

► Atentar para o fato de que, de São João del Rei para Minduri só há um horário diário, e ao final da tarde.

Volta
Viação São Cristóvão até Lavras → Expresso Gardênia até Belo Horizonte
Do Complexo da Zilda até Carrancas não há linha de ônibus. Alugar táxi ou ir à pé.

► Programe o seu término, pois não há ligação noturna entre Carrancas e Lavras. Nesses casos a alternativa seria ir via táxi para Itutinga (26 km) onde há mais opções de deslocamentos via ônibus.

De carro

Ida
Rodovia BR 040 até Lafaiete → Rodovia BR 383 até Minduri, passando por São João Del Rei

Volta
Rodovia Lavras até Itutinga → Rodovia BR 265 até Fernão Dias, passando por Lavras → Rodovia BR 381 até BH

► Atentar para o fato de que, início e final se dão em locais distintos. Necessário programar resgate. Não há ligação asfáltica entre Minduri e Carrancas, porém a estrada de terra local encontra-se em bom estado.

Hospitalidade

Minduri
Hotel do Zezé → 35 3326-1207

Complexo da Zilda
Camping e Restaurante 2 Irmãos → 35 99848-8453

Carrancas
Camping da Ponte → 35 3822-3923 / 35 99235-1208


Considerações Finais

► Trilhas: não apresentam dificuldades técnicas. O início é por leito de velha estradinha. A parte superior na Chapada é também realizada por estradinhas. A parte final na Serra das Broas é por campos, com trilha quase imperceptível.

► Logística de acesso: Ao início, em Minduri será necessário locar táxi até o o Recanto do Vornei; ou ir à pé. Ao final, do Complexo da Zilda até Carrancas alugar táxi ou ir à pé.

► Camping: Não há camping estruturado pela rota. O antigo Camping da Lua no alto da Chapada encerrou suas atividades. Logo, o acampamento será no estilo natural.

► Água: Há água no início da caminhada na Cachoeira do Vornei. Na subida da serra há água na Cachoeira da Alegria; e depois na matinha antes de chegar na estrada, sendo esta a última água do trecho. Na Chapada há água nas proximidades do Camping da Lua. Depois, de modo fácil e acessível somente na Cachoeira da Onça quase ao final da caminhada. Para os casos de pernoite, inicie a caminhada abastecido. Para casos de emergência há água no fundo do vale, à oeste, próximo e abaixo das formações rochosas a caminho da Chapada do Abanador. No local há duas pequenas quedinhas.

► Tempo de realização: como curtição e ao nosso modelo, em 2 dias. Mas é perfeitamente possível realizar a travessia sem correrias e em apenas 1 dia.

► Segurança: esteja atento ao se aproximar de paredões e rochas na Chapada das Perdizes. A altura é considerável. Nas proximidades da Cachoeira da Onça há pedras escorregadias. O poção da Cachoeira da Onça é profundo em alguns pontos. Toda cautela é pouca. Rota de escape durante a Travessia somente pelas estradinhas, ou que trazem de volta à Minduri; ou que levam pra o Complexo da Zilda e Carrancas. Em ambas, as distâncias são consideráveis.

► Exposição ao sol: grande, há pouca sombra pelo trajeto.

► Tarifas: Não há tarifas de acesso ou pernoite na Chapada das Perdizes. Mas as áreas são particulares. Somente adentre com autorizações. A visita à Chapada do Abanador não é permitida. Não insista, pois poderá ter problemas. A título de informação, os atrativos do Complexo da Zilda são todos pagos, variando de R$3,00 a R$10,00 (maio 2016).

► Comunicações: Há sinal de telefonia em alguns pontos, em especial no lado sul da Chapada.

► Cash: leve dinheiro trocado e em espécie. Pequenas localidades não aceitam cartões ou cheques.

► Carta Topográfica da Região: Minduri

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► Pratique a atividade aplicando os Princípios de Mínimo Impacto


Bons ventos a todos!!!

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